Balanço das eleições e perspectivas da luta de classes (parte 1)

O GOI-Palavra Operária coloca à disposição da vanguarda ativista e do conjunto das trabalhadoras e trabalhadores nossa análise sobre os resultados das eleições de outubro e que perspectivas abrem para a luta de classes no próximo período, diante da eleição do novo governo de frente popular de Lula-Alckmin e da sobrevivência política do bolsonarismo. Esta é a 1ª parte do texto, que seguiremos publicando em próximos artigos.

A vitória da Frente Ampla de Lula-Alckmin

A eleição de Lula para presidente e a derrota de Bolsonaro foi comemorada nos bairros proletários como uma autêntica vitória popular. Em todo o país centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas e se concentraram nos locais onde tradicionalmente são realizadas as manifestações do movimento operário e de massas.

Os mais de 60 milhões de votos [1] (a maior votação de um candidato à presidência na história do país) que garantiram a vitória da Frente Ampla de Lula-Alckmin vieram dos setores mais conscientes e organizados da classe trabalhadora e do povo pobre e oprimido, que, em seu movimento, arrastaram uma parcela significativa da “classe média”, principalmente seus setores mais proletarizados, democráticos e progressistas das metrópoles e grandes cidades.

A expressão gráfica disso é a vitória da Frente Ampla nos bairros proletários da cidade de São Paulo e nas cidades da Grande São Paulo, maior concentração do proletariado no país. A esmagadora vitória eleitoral de Lula no Nordeste expressa o apoio majoritário do povo da região mais pobre e oprimida do país, talvez (há que se estudar isso) a única em que a coligação da frente popular tenha conseguido conquistar uma parcela significativa dos votos da pequena burguesia urbana e rural.

A extrema polarização da campanha eleitoral e a consciência da necessidade de impor uma derrota a Bolsonaro mobilizaram todas as forças organizadas dos sindicatos e movimentos populares, camponeses, da juventude, dos povos originários e setores oprimidos (mulheres, negros, imigrantes, LGBT+ etc.), que deram vida a uma campanha de massas realizada por dezenas de milhares de ativistas.

Mas, não só isso: a polarização política tensionou e dividiu de cima a baixo o país, atravessando todas as classes sociais, as famílias, os locais de trabalho, as escolas, os bairros, as igrejas, as instituições políticas e culturais, as redes sociais, obrigando cada trabalhadora e trabalhador a se posicionar e, a seu modo, também se integrar ao movimento da classe para eleger Lula presidente. Desta vez, a classe trabalhadora não se limitou ao papel passivo de apertar o botão da urna eleitoral.

Toda essa mobilização das forças mais conscientes e organizadas da nossa classe foi decisiva para assegurar a vitória eleitoral da Frente Ampla pela estreita margem de pouco mais de 2 milhões de votos (1,8%). Por tudo isso, a classe trabalhadora consciente sente a eleição de Lula como sua vitória.

A derrota de Bolsonaro

A magnitude do esforço político do proletariado consciente pode ser medida também a partir da análise do resultado eleitoral de Bolsonaro e da frente ampla da reação que se aglutinou em torno ao seu projeto bonapartista e fascista.

Bolsonaro, repetindo o feito das eleições de 2018, conseguiu aglutinar nas eleições deste ano um amplo arco de setores reacionários, que vão da direita fisiológica (tipo Artur Lira, Rodrigo Garcia e a maioria de picaretas do Congresso Nacional) até grupúsculos declaradamente fascistas, passando pela direita “esclarecida” (tipo Felipe D’Ávila, do Novo e Sérgio Moro) e a cúpula fascistóide de oficiais das Forças Armadas e velhacos do Clube Militar. Esta frente da reação arrastou consigo o voto de mais de 58 milhões de pessoas.

As manifestações bolsonaristas de protesto contra a derrota de Bolsonaro nos dão um quadro da composição social dos eleitores do bolsonarismo: pequenos proprietários endividados, caminhoneiros e profissionais supostamente “autônomos”, militares e funcionários públicos empobrecidos, jovens iludidos com a ideologia do empreendedorismo, desempregados à beira da lumpenização que vivem de esmolas do Estado, fiéis manipulados por pastores, padres e “influencers de direita”, milicianos e bandidos vestidos de verde e amarelo, financiados pelos setores mais rapaces e parasitários da burguesia.

Um setor minoritário, mas importante, do proletariado também votou em Bolsonaro: seus setores mais atrasados do ponto de vista cultural e político e mais domesticados pela burguesia e seus órgãos de dominação política e ideológica; os mais desmoralizados pela traição das direções sindicais e políticas do movimento operário e de massas.

A força política do bolsonarismo deriva em grande parte da capitalização pela direita da experiência das massas proletárias e pequeno burguesas com a traição de suas direções tradicionais, principalmente com o fracasso dos governos de frente popular encabeçados pelo PT, Lula e Dilma. Em um texto de nosso I Congresso buscamos analisar isso:

“Os governos de frente popular (e bonapartistas sui generis), que marcaram a América Latina nas primeiras décadas do novo século, cujo principal expoente foram os governos de Lula e Dilma, significaram o ápice da colaboração entre os exploradores econômicos (burguesia) e os exploradores políticos (direções burocráticas) do proletariado. Cumpriram o papel histórico de interromper o processo de mobilização permanente das massas trabalhadoras, os processos revolucionários que varreram a América Latina na virada do século, desviando-os do caminho da revolução para a via morta do eleitoralismo, do parlamentarismo e do reformismo burguês, levando à desmobilização e desorganização da classe trabalhadora e à desmoralização de setores importantes do proletariado, e jogando amplas camadas das massas pequeno burguesas de volta aos braços da burguesia.”  

Além da aglutinação destas forças sociais e políticas a partir do processo histórico recente da luta de classes no país, Bolsonaro utilizou ao máximo as vantagens advindas de seu poder como presidente da república e seu controle autoritário da máquina estatal central do país.

Lula, num discurso pronunciado logo após a apuração do 1º turno, afirmou: “Nós não enfrentamos um candidato, nós enfrentamos a máquina do estado brasileiro, colocada a serviço do candidato da situação para evitar que nós ganhássemos as eleições”. Isto é fato. Bolsonaro, para  se reeleger, despejou bilhões de reais dos cofres públicos para forjar benesses como o auxílio emergencial, auxílio caminhoneiro e outros, jogando às favas todas as leis sagradas da economia política burguesa, como a da “responsabilidade fiscal” e a do “teto de gastos”. Armou com o Centrão no Congresso o chamado Orçamento Secreto, derramando outros bilhões para a compra de votos nos currais eleitorais dos candidatos a deputado e senador. Abriu mão de impostos federais para obter uma queda artificial da inflação (principalmente dos preços dos combustíveis) nos meses da campanha. Estas medidas o ajudaram a consolidar e ampliar o apoio da grande maioria dos governadores e prefeitos [2], que também colocaram as máquinas dos governos estaduais e municipais a seu serviço e do conjunto das forças da direita. No dia da votação do 2º turno, mobilizou a Polícia Rodoviária Federal (PRF) que fez bloqueios nas estradas no Nordeste para impedir que milhares de eleitores votassem na região que decidiria a votação em favor de Lula.

Mas, não só isso. Além da poderosa máquina pública, Bolsonaro e sua frente da reação contaram também com o financiamento milionário da própria burguesia [3]. Os números oficiais das doações eleitorais feitas pelos patrões mostram a desproporção abismal entre o que foi destinado aos partidos e candidatos dos partidos burgueses e o que foi destinado ao PT e seus aliados da Frente Ampla. Bolsonaro recebeu diretamente mais de R$ 88 milhões destas doações, enquanto Lula recebeu menos de R$ 6 milhões. Estes números são uma prova em dinheiro do caráter de classe do regime democrático burguês, e de como a burguesia sabe “valorizar” os seus partidos de classe. E evidenciam o apoio massivo e majoritário dos burgueses e pequenos burgueses individuais a Bolsonaro e seu projeto político bonapartista. Enquanto os magnatas do PIB (tipo Armínio Fraga, Adílson Diniz, Samuel Alencar etc.), que flertaram com a candidatura de Lula, “não enfiaram a mão no bolso” para financiar sua vitória. 

A força política da burguesia não se mede pelo número de votos, na medida em que é uma classe numericamente insignificante no cômputo geral de eleitores. A força da burguesia está na propriedade do capital e sua força política pode ser medida na quantidade de capital que investe nos partidos e candidatos que quer colocar no poder. E os dados não deixam dúvida de que essa força do capital buscou reeleger Bolsonaro e impulsionou o avanço da direita nos parlamentos e governos estaduais. Só para dar um exemplo: os mais de R$ 39 milhões de investimento eleitoral no bolsonarista Tarcísio de Freitas é o “segredo de polichinelo” que explica sua eleição para governador do estado de São Paulo.

Esta extraordinária movimentação da máquina estatal e do capital para financiar e apoiar a campanha de Bolsonaro e sua frente da reação logrou conquistar avanços importantes no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas estaduais e nos governos dos estados [4]. Que serão pontos de apoio importantes para o desenvolvimento do bolsonarismo e seu enfrentamento ao governo da frente popular no próximo período.

Contudo, a frente da reação bolsonarista foi derrotada em seu objetivo central: garantir a reeleição de Bolsonaro e evitar a volta de Lula e do PT à presidência. Bolsonaro e seu movimento político estão mais enfraquecidos por não terem mais sob seu controle o Executivo Federal, que concentra as principais alavancas do poder no atual regime político. Por isso afirmamos que Bolsonaro e o bolsonarismo foram derrotados eleitoralmente, apesar de seu avanço na conquista de cargos parlamentares.

A derrota eleitoral e o enfraquecimento político impõem neste momento um freio às maquinações golpistas de Bolsonaro e seus generais, que planejavam questionar o resultado das eleições a partir da tal “inspeção paralela” das urnas feita pelas Forças Armadas e do incentivo aos bloqueios de estradas por hostes bolsonaristas em todo o país. Porém, as manifestações bolsonaristas, apesar de ruidosas e acobertadas pelas forças policiais e militares, mobilizaram poucos milhares de fanáticos pelo país e Bolsonaro não ousou fazer um chamado aberto à mobilização nas ruas, menos ainda qualquer chamado a motins nos quartéis. A cúpula das Forças Armadas limitou-se a dar um apoio tácito aos manifestantes. Como analisamos em nossa nota pública:

“Enquanto cresciam os bloqueios de estradas pelo país, Bolsonaro e sua gangue ficaram entrincheirados e mudos nos palácios do governo, articulando nas sombras a intentona golpista, pra ver no que dava. Só quando a ação direta dos trabalhadores começou a dissolver os bloqueios, colocando pra correr de forma humilhante os “patriotas”, e quando as organizações do movimento operário e de massas ameaçaram mobilizar a classe trabalhadora, foi que Bolsonaro decidiu recuar e desmobilizar seus apoiadores.”

O recuo do golpismo se deu por causa da pronta reação semiespontânea de setores da classe trabalhadora contra os bloqueios, apesar do chamado da direção da Frente Ampla a que o movimento organizado não fizesse nada e deixasse a questão a cargo da polícia e da justiça. Bolsonaro e seus generais sabem que qualquer ousadia maior em seus planos golpistas levaria a uma mobilização de massas que Lula e as direções burocráticas não teriam como segurar.

Esta realidade joga luz sobre a nova correlação de forças que se estabeleceu entre o proletariado e a burguesia com a vitória eleitoral da Frente Ampla de Lula-Alckmin. A qual temos de analisar em detalhe.


[1] Dados eleitorais:

[2] Governadores que apoiaram Bolsonaro: Romeu Zema (Novo-MG); Rodrigo Garcia (PSDB-SP); Cláudio Castro (PL-RJ); Ibaneis Rocha (MDB-DF); Ratinho Jr. (PSD-PR); Antonio Denarium (PP-RR); Ronaldo Caiado (União-GO); Gladson Camelli (PP-AC); Mauro Mendes (União-MT); Coronel Marcos Rocha (União-RO); Wilson Lima (União-AM)….

[3] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/11/maioria-dos-candidatos-beneficiados-por-grandes-doacoes-perdeu-eleicao.shtml

[4] https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2022/eleicao-em-numeros/noticia/2022/10/04/veja-a-nova-composicao-da-camara-dos-deputados-em-graficos.ghtml

[Imagem: Foto: Marcos Serra Lima/g1]

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