Como enfrentar a reação bolsonarista? Lições das primeiras batalhas.

W. Ioffe

A reta final das eleições presidenciais e, principalmente, a semana seguinte à vitória de Lula deram palco a inúmeras manifestações bizarras de apoiadores de Bolsonaro, que bombaram os “memes” nas redes sociais. A mais emblemática foi a do homem agarrado do lado de fora à cabine de um caminhão em alta velocidade, na tentativa de obrigá-lo a parar num dos bloqueios de estradas organizados pelos bolsonaristas em todo o país. 

Os apoiadores de Lula têm se divertido muito com as pataquadas dos “bolsominions”. Contudo, após umas boas risadas, muitos se perguntam como as pessoas puderam chegar a este grau de desespero, preconceito e falta de lucidez.

Trotsky assim definia o fascismo alemão: “Os nacional-socialistas [nazistas] são o partido do desespero nacional. A pequena burguesia passa muito facilmente da esperança ao desespero, arrastando atrás de si a uma parte do proletariado.” (Está na Alemanha a Chave da Situação Internacional, 1931, https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1931/11/26.htm).

Nada poderia definir melhor o tipo humano do fascismo em gestação no Brasil, os homens e mulheres que estiveram à frente dos bloqueios de estradas e ruas, e que, em desespero místico, se perfilam em frente a quartéis clamando a Deus e aos Generais para salvar a Pátria, a Família e a Propriedade.

Esse conglomerado de “patriotas do caminhão” reúne indivíduos de todas as frações de classes arruinadas e desesperadas pela crise do capitalismo, ironicamente, o sistema que pretendem salvar. Pequenos proprietários endividados, caminhoneiros e profissionais supostamente “autônomos”, militares e funcionários públicos empobrecidos, jovens iludidos com a ideologia do empreendedorismo, desempregados à beira da lumpenização que vivem de esmolas do Estado, fiéis manipulados por pastores, padres e “influencers de direita”, milicianos e bandidos vestidos de verde e amarelo, financiados pelos setores mais rapaces e parasitários da burguesia.

Se para algo serviram as manifestações dos inconformados com a derrota do “mito” foi para alertar a vanguarda ativista e as trabalhadoras e trabalhadores conscientes de que o bolsonarismo está longe de ter morrido com a saída de Bolsonaro e seu séquito fascista do Palácio do Planalto.

Bolsonaro, repetindo o feito das eleições de 2018, conseguiu aglutinar nas eleições deste ano um amplo arco de setores reacionários, que vão da direita fisiológica (tipo Artur Lira, Rodrigo Garcia e a maioria de picaretas do Congresso Nacional) até grupúsculos declaradamente fascistas, passando pela direita “esclarecida” (tipo Felipe D’Ávila, do Novo e Sérgio Moro) e a cúpula fascistóide de oficiais das Forças Armadas e velhacos do Clube Militar.

A derrota eleitoral foi um golpe importante nesta frente ampla da reação, ao privar Bolsonaro e seus generais do manejo do poderoso Executivo Federal. Todavia, a frente ampla da direita avançou em sua representação no Parlamento federal e nos Parlamentos estaduais, assim como na eleição de governadores.

Já estamos assistindo à decantação destas forças reacionárias, separando os elementos fisiológicos, que já começam a se adaptar ao governo Lula-Alckmin (a exemplo dos corruptos do Centrão, da oposição “responsável” do Novo etc.), dos elementos mais ideológicos que seguirão mantendo vivo e atuante o movimento bolsonarista. A exemplo de seus congêneres em outros países, como o trumpismo, nos Estados Unidos, a direita europeia e o nazi-sionismo no estado racista de Israel, que, apesar dos vaivéns da luta eleitoral, do sobe e desce de governos de “esquerda”, “centro” e “direita”, se recusam a abandonar a cena política. Nestes ninhos de cobras são chocados os ovos do fascismo do século XXI.

A crise do capitalismo, que se aprofunda e se acelera, joga a cada dia mais pessoas de todas as classes sociais no partido da desesperança nacional. O fracasso dos governos de colaboração de classes encabeçados por Lula e o PT em resolver os graves problemas da crise do país, abriram caminho para a demagogia patriótica e fascistóide de Bolsonaro. O novo governo Lula-Alckmin segue no mesmo caminho, e este é o  principal fator político que pode manter vivo e alentar o bolsonarismo nos próximos anos.

Dois métodos para enfrentar o bolsonarismo

Outra questão posta pelas primeiras manifestações bolsonaristas contra o governo Lula-Alckmin é qual a política para enfrentar e derrotar o bolsonarismo e o fascismo em gestação. Dois métodos foram empregados em relação aos bloqueios nas estradas. Por um lado, o apelo às instituições do estado burguês para garantir a ordem, a posse e a governabilidade do governo Lula-Alckmin, política aplicada por Lula e pela quase unanimidade dos partidos, dirigentes e parlamentares (antigos e novos) da Frente Ampla (PT, PSOL, PCdoB, CUT, MST, movimentos feministas, negros, indígenas, LGBT+ etc). Por outro lado, a ação direta para o desbloqueio das estradas, colocada em prática, em primeiro lugar, pelos operários do estaleiro Brasfels, no Rio de Janeiro, e em seguida por algumas torcidas organizadas de times de futebol, como as do Atlético Mineiro, Corinthians e Palmeiras. No meio do caminho ficaram algumas organizações que propuseram a ação direta, mas que acabaram por recuar, se submetendo às pressões de Lula e da Frente Ampla, como o MTST, dirigido por Guilherme Boulos; ou que não conseguiram colocá-la em prática, como a CSP-Conlutas, o PSTU e outras organizações revolucionárias (entre elas o nosso próprio grupo, o GOI-Palavra Operária).

Torcedores do Corinthians em ação contra bloqueios

Torcedores do Corinthians em ação contra bloqueios

Nesta primeira prova de enfrentamento às hostes bolsonaristas ficou demonstrada a dificuldade, para dizer o mínimo, do STF e dos governos estaduais para obrigar a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e as Polícias Militares a dissolver os bloqueios. O que vimos foi a confraternização escancarada com os golpistas e a “repressão” com “luvas de pelica” praticadas pelos policiais.

Quando a luta entre as classes supera os limites parlamentares e se desenvolve abertamente nas ruas, os chamados 3 poderes do Estado são completamente impotentes sem o “4° e decisivo poder”: as Forças Armadas. E o que se viu é que a “família militar” está infectada até a medula pelo vírus bolsonarista.

Enquanto cresciam os bloqueios de estradas pelo país, Bolsonaro e sua gangue ficaram entrincheirados e mudos nos palácios do governo, articulando nas sombras a intentona golpista, pra ver no que dava. Só quando a ação direta dos trabalhadores começou a dissolver os bloqueios, colocando pra correr de forma humilhante os “patriotas”, e quando as organizações do movimento operário e de massas ameaçaram mobilizar a classe trabalhadora, foi que Bolsonaro decidiu recuar e desmobilizar seus apoiadores.

Assim se comprovou, pela enésima vez na história, que para enfrentar e derrotar o fascismo, o bonapartismo e o militarismo de nada servem as instituições da democracia burguesa, menos ainda suas forças armadas e policiais. Só a luta direta e organizada da frente única operária pode garantir isso. Neste caso, as torcidas organizadas de futebol ensinaram algo à vanguarda ativista e às correntes revolucionárias.

É preciso aprender

O enfrentamento ao bolsonarismo seguirá sendo, no próximo período, uma das tarefas decisivas da luta proletária. As trabalhadoras, trabalhadores e jovens proletários conscientes, para além dos “memes” e fanfarronices dos “influencers de esquerda”, devem tomar a sério o estudo da experiência das revoluções e do movimento operário e socialista internacional na luta contra o bonapartismo e o fascismo, resgatando o legado teórico e prático do marxismo revolucionário.

Esta tarefa está colocada sobretudo para as/os militantes socialistas e comunistas revolucionários, particularmente para as/os trotsquistas, que ainda pensam com suas próprias cabeças. O GOI-Palavra Operária participará ativamente desta tarefa. 

[Imagem: foto de Wilton Junior/Estadão]

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