A Guerra na Ucrânia: polêmica entre o GOI e a TLTI (Tendência Leninista Trotskista Internacional)

Publicamos, com o acordo de ambas organizações, a polêmica que vimos realizando acerca do caráter da Guerra na Ucrânia e da política a ser adotada pelos revolucionários socialistas. Este artigo inclui a Resposta do GOI ao primeiro Manifesto da TLTI sobre a guerra, e a Resposta da TLTI ao GOI. Entendemos que este é um debate importante para o conhecimento da vanguarda revolucionária e ativistas das lutas no Brasil e no mundo, e desta forma buscamos contribuir, resgatando também o método do debate público e franco entre as organizações revolucionárias. Em breve, publicaremos a tréplica do GOI à carta de resposta da TLTI.

RESPOSTA DO GOI À TLTI

Camaradas da Tendência Leninista Trotskista Internacional – TLTI (*)

Antes de mais nada, recebam a nossa saudação revolucionária e nossa satisfação por debater entre nós uma questão tão importante para a luta de classes do proletariado mundial.

Já antes do deflagrar da guerra na Ucrânia iniciamos contatos visando a uma reunião entre nossas organizações para tratar de temas internacionais e nacionais (Brasil). A guerra, obviamente, se impõe como questão principal, neste momento.

Iniciamos o estudo de suas análises sobre o imperialismo pós restauração do capitalismo nos antigos estados operários burocráticos, e o papel da China e da Rússia na atualidade, tema que queremos aprofundar a discussão entre nós. Contudo, vamos tratar neste texto centralmente sobre a guerra na Ucrânia, demarcando os pontos de acordo e as diferenças com as análises e a política de vocês, tomando como base a sua declaração “Derrotar a guerra imperialista! Por uma Ucrânia de Trabalhadores Independentes!”.

Nossos pontos de acordo

Começaremos por demarcar os pontos de acordo.

Primeiro, temos acordo que a intervenção militar da Rússia na Ucrânia tem um caráter contrarrevolucionário, da mesma forma que as intervenções anteriores na Síria e outros países. Ao contrário do que afirmam os estalinistas, castristas, chavistas e seus porta-vozes no Brasil (PCdoB, Diário do Centro do Mundo, Maringoni etc.), inclusive organizações que se autodenominam trotsquistas, como o PCO e a LBI, a Rússia capitalista de Putin não cumpre nenhum papel antimperialista na luta de classes mundial. A propaganda destas correntes e porta vozes faz apenas ecoar a propaganda de guerra enganosa de Putin, que busca se apoiar na gloriosa história do Exército Vermelho da antiga URSS, que derrotou a contrarrevolução burguesa-imperialista nos anos da guerra civil da Revolução Russa (1918-1921), e que, mesmo após a degeneração estalinista do Estado Operário (e de seu Exército Vermelho), foi decisivo para a derrota do fascismo na Europa na II Guerra Mundial. O exército da Rússia de Putin, a serviço dos interesses econômicos e políticos da burguesia russa, não passa de uma força contrarrevolucionária para ameaçar, oprimir e esmagar os povos e nações mais fracos, oprimidos no passado pelo czarismo e pelo regime de Stalin. A Rússia imperialista, sob Putin, retoma as velhas tradições militaristas e imperialistas do czarismo, buscando encobri-las com imagens dos momentos revolucionários do Exército Vermelho, mescladas com a verborragia estalinista.  

É preciso relembrar a célebre afirmação do general prussiano von Clausewitz, de que “A guerra é a continuação da política por outros meios”, o que, colocado em termos marxistas, significa que a guerra é a continuação da luta de classes pela violência das armas. A restauração capitalista nos antigos estados operários, ao aprofundar a exploração e a miséria das massas trabalhadoras, trouxe consigo o aprofundamento da luta de classes nestes países. A Ucrânia vive uma situação revolucionária, agudizada pelas disputas entre dois setores da nova burguesia, que buscam impor à nação seus interesses de classe, uns como sócios menores do imperialismo dos EUA/UE e outros como sócios menores da Rússia. Situações semelhantes ocorrem também no Cazaquistão, Bielorússia, Armênia, Azerbaijão e outras repúblicas da antiga URSS. Na própria Rússia, a ditadura de Putin é o regime bonapartista necessário para manter a exploração do proletariado pelas máfias burguesas que se apoderaram das forças produtivas do país após a restauração. A guerra contra a Ucrânia tem como objetivo esmagar a luta do proletariado na Ucrânia, amedrontar os povos das ex-repúblicas soviéticas vizinhas e fortalecer o regime ditatorial de Putin na Rússia.

Segundo, temos acordo que é necessário desmascarar o imperialismo dos Estados Unidos e da União Europeia em seu suposto papel de guardião da democracia e da paz no mundo, o que o colocaria na posição de “protetor da Ucrânia”, propaganda oficial veiculada por Biden, seguido de seus aliados da OTAN e seus capachos nos países semicoloniais. A política imperialista de recolonização dos antigos estados operários do Leste Europeu, o aprofundamento da exploração e da opressão do proletariado mundial como saída para a crise estrutural do capitalismo, é o que traz de volta a guerra na Europa, atualizando os prognósticos de Lenin de que vivemos em uma época de guerras e revoluções causadas pela decadência do imperialismo. Neste momento ocorrem pelo menos sete conflitos na África e na Ásia: Etiópia, Iêmen, Mianmar, Síria, Sudão do Sul e Afeganistão.

O imperialismo, desde sempre, utiliza a guerra contra povos e nações que ousam desafiá-lo. O imperialismo russo, sob Putin, nada mais faz do que seguir esta tendência de destruição das forças produtivas causada pela agonia mortal do imperialismo.

Estes dois acordos com a posição de vocês nos levam também a ter a compreensão comum de que é inadmissível qualquer alinhamento político com o imperialismo dominante dos Estados Unidos-UE ou com o novo bloco capitalista desafiante encabeçado pela Rússia e a China (que dá cobertura a Putin em sua guerra de agressão à Ucrânia). A revolução socialista mundial é a única saída para o proletariado diante da barbárie imperialista.

Contudo, em que pese estes importantes acordos, temos grandes diferenças de análise e política que vamos expor em seguida.

O caráter nacional da Ucrânia

A primeira é sobre o caráter da Ucrânia como nação. A posição de vocês quanto a isso é dúbia, e alguns elementos da análise e sobretudo da política que propõem deixam entrever que não consideram a Ucrânia uma nação.

Os camaradas afirmam que na Ucrânia há uma “aparência de Estado para sua burguesia nacional” (grifo nosso). E que a burguesia ucraniana “não tem o poder econômico para garantir a independência do imperialismo”. Ora, a burguesia ucraniana, assim como todas as burguesias nacionais dos países semicoloniais, não tem poder econômico para garantir a independência do imperialismo, por isso são obrigadas a dividir com as grandes corporações imperialistas a mais valia extraída da exploração do proletariado nestes países. Esta é a situação no Brasil, na Polônia, na África do Sul, no Paquistão, apenas para citar alguns países de continentes diferentes. Contudo, a dominação imperialista não suprimiu a existência de estados nacionais controlados por estas burguesias nacionais mais débeis. Por isso, o conceito marxista de nações semicoloniais, o que significa que as burguesias nacionais, apesar de “não terem o poder econômico para garantir a independência do imperialismo”, mantém estados nacionais com certo grau de independência política do imperialismo. Consideramos que este é o caso da Ucrânia, onde existe uma burguesia nacional que controla um estado nacional, nos marcos da dominação imperialista.

Mais preocupante são as afirmações dúbias de seu documento sobre o caráter nacional da Ucrânia. “Com um governo imperialista pró-ocidental e acordos econômicos e laços com o Ocidente, a Ucrânia está agora subordinada ao capital ocidental, mas ainda ligada à Rússia por história cultural mútua, idioma, proximidade, famílias, negócios e reivindicações concorrentes aos recursos do região. Ou, como Putin afirma cinicamente, “é uma parte inalienável de nossa própria história, cultura e espaço espiritual” (grifos nossos). Certamente, o governo de Zelemski não passa de um fantoche da OTAN, assim como os governos que o precederam desde a restauração capitalista eram fantoches, ora do imperialismo russo, ora do imperialismo “ocidental”. Mas, o que vocês querem dizer ao reproduzir estas palavras de Putin, sem condená-las abertamente? O problema delas não é apenas o “cinismo”, mas que são falsas até a medula! A história da Ucrânia é marcada, sobretudo, pelas agressões do chauvinismo grão-russo, começando pelo chauvinismo do czarismo, passando pelo chauvinismo estalinista e agora pelo chauvinismo de Putin. Apenas durante o curto período da Revolução Russa (1917 a 1924) o proletariado e os camponeses pobres da Rússia e da Ucrânia puderam conhecer uma verdadeira solidariedade socialista e internacionalista entre os respectivos povos no combate comum às burguesias e latifundiários nacionais aliados ao imperialismo. E também, apesar da direção estalinista, durante os combates para expulsar as tropas de Hitler do território da URSS, na II Grande Guerra.

Contudo, vamos, por um momento, considerar que seja correta a caracterização de que não existe um estado nacional na Ucrânia. Isso para nada negaria a existência de uma luta pela independência nacional da Ucrânia, que hoje se concretiza numa guerra de resistência à invasão russa, que está mobilizando todas as classes no país. Vamos lembrar a questão nacional dos curdos e dos palestinos. Poderíamos afirmar, tomando as palavras de vocês, que a burguesia curda e a burguesia palestina “não têm o poder econômico para garantir a independência do imperialismo”, e ainda mais: não tem sequer uma “aparência de Estado”, pois, até hoje, não tiveram o poder político e militar para constituir um estado nacional semicolonial. Apesar disso, é incontestável que existe uma luta histórica do povo curdo e do povo palestino pela formação de um estado nacional.

Guerra pela autodeterminação nacional ou guerra interimperialista?

A incompreensão de vocês sobre o caráter nacional da Ucrânia, ao considerá-la tão somente como “a terra fronteiriça, [que] está no meio há séculos”, vai levar a um equívoco sobre o caráter da guerra em curso, que vocês caracterizam como sendo “uma guerra interimperialista pelos recursos materiais e vantagens geoestratégicas da Ucrânia”. E aqui reside a nossa segunda grande diferença com vocês.

Não pode haver nenhuma dúvida de que tanto o imperialismo dos EUA/UE como o imperialismo da Rússia disputam os “recursos materiais e vantagens geoestratégicas da Ucrânia”, e, acrescentamos, a extração da mais valia do proletariado ucraniano. Contudo, neste momento, o que temos é uma guerra de invasão da Ucrânia pela Rússia e uma feroz resistência oposta pelo povo ucraniano. Este é o caráter da guerra: uma guerra de resistência do povo da Ucrânia contra a invasão de seu território pelo imperialismo da Rússia. 

Os camaradas argumentam em defesa de sua tese de “guerra interimperialista” que “a OTAN está nesta guerra com os dois pés porque as sanções são uma guerra política e econômica!”. Acrescentamos que, além das sanções econômicas, os Estados Unidos e a União Europeia também estão fornecendo armamentos para as forças militares ucranianas, o que deixa nítida a sua participação na guerra ao lado da Ucrânia, com o objetivo de fortalecer suas posições econômicas e estratégicas no território ucraniano, ou, em outras palavras, garantir a dominação do setor da burguesia ucraniana que responde aos interesses do imperialismo “ocidental”.

Não temos nenhum problema em aceitar a definição de vocês de que as sanções econômicas são “atos de guerra” ou “uma guerra política e econômica”. Mas, justamente, “atos de guerra” e “guerra política e econômica” não são a guerra, são medidas paliativas que buscam evitar a verdadeira guerra, ou seja, o enfrentamento armado direto entre as forças armadas imperialistas. Obviamente, a entrada das forças militares da OTAN diretamente na guerra (o que para nada pode ser descartado pela evolução das circunstâncias da guerra, e há setores do imperialismo que defendem isso abertamente), levaria a uma mudança no caráter da guerra, e, aí sim, poderíamos falar de uma guerra interimperialista, que oporia diretamente as forças armadas da OTAN e da Rússia. O que significaria um agravamento sem precedentes, desde a II Grande Guerra, da crise do imperialismo e uma agudização da luta de classes mundial. Consideramos que esta é a tendência para a qual aponta a debacle imperialista no futuro, mas não é a situação presente. E a política revolucionária deve responder à guerra existente, a guerra de agressão imperialista da Rússia contra a Ucrânia, e não a uma guerra interimperialista que pode ocorrer no futuro.

Uma falsa aplicação da política de derrotismo revolucionário de Lenin

As suas análises equivocadas sobre o caráter nacional da Ucrânia e sobre o caráter da guerra os levam a praticamente ignorar a luta pela independência nacional da Ucrânia e a não formular nenhuma política consequente para apoiar o proletariado e o povo ucraniano que se levantam em armas contra a invasão russa. Os camaradas têm como eixo central de sua política o derrotismo revolucionário, tomando, a nosso ver, de forma equivocada, esta política formulada por Lenin durante a I Guerra Mundial interimperialista.

Lembremos as definições de Lenin sobre o derrotismo revolucionário:

“A transformação da atual guerra imperialista em guerra civil é a única palavra de ordem proletária justa, indicada pela experiência da Comuna, apontada pela resolução de Basileia (1912) e decorrente de todas as condições da guerra imperialista entre os países burgueses altamente desenvolvidos.” (A guerra e a social-democracia da Rússia, 1914), https://www.marxists.org/portugues/lenin/1914/09/28.htm

“Numa guerra reacionária, a classe revolucionária não pode deixar de desejar a derrota do seu governo, não pode deixar de ver a ligação entre os fracassos militares deste e a facilitação do seu derrubamento.” (O socialismo e a guerra. A atitude do POSDR em relação à guerra, 1915), https://www.marxists.org/portugues/lenin/1915/guerra/01.html#c1019

Temos acordo de que a política de derrotismo revolucionário deve ser levantada junto ao proletariado e ao povo pobre dos países imperialistas que disputam, exploram e oprimem a Ucrânia. Em primeiro lugar, na Rússia, com o objetivo de facilitar a derrota das tropas de Putin na Ucrânia e a abertura de uma situação revolucionária no interior da Rússia que possa levar ao derrubamento da ditadura de Putin e das máfias burguesas. Nos Estados Unidos e nos países imperialistas da União Europeia a política de derrotismo revolucionário também se aplica, mas com uma formulação adequada para o fato de que estas potências ainda não participam diretamente da guerra. Neste sentido, chamamos o proletariado mundial e, em particular, o proletariado dos Estados Unidos e União Europeia, a lutar pelo desmantelamento das bases militares imperialistas da OTAN e dos Estados Unidos, pela retirada das tropas dos Estados Unidos da Europa e de todos os países onde estão estacionadas, ao mesmo tempo que exigimos que entreguem gratuitamente armamentos para a resistência ucraniana.

Mas, perguntamos aos camaradas, é correto propor a política de derrotismo revolucionário ao proletariado e ao povo ucraniano que estão em armas contra as tropas russas? Seria correto propor-lhes que não lutem contra o exército invasor, e que, ao contrário, voltem suas armas, neste momento, contra os oficiais do Exército Ucraniano, que organizem, neste momento, milícias para enfrentar militarmente a Brigada de Azov e outros grupos fascistas e semifascistas? Ou seja, que transformem, neste momento, a guerra contra o invasor russo em uma guerra civil, quer dizer, numa guerra entre as classes no interior da Ucrânia? Propor ao proletariado ucraniano que aplique a política do derrotismo neste momento nos colocaria, na prática, ou seja, no terreno da guerra atual, ao lado das tropas invasoras de Putin, nos alinhando ao imperialismo russo. O que seria um completo equívoco.

Caso tivéssemos um grupo ou um partido trotsquista na Ucrânia (o que, desgraçadamente, não é o caso!), qual seria a política a ser aplicada junto à classe trabalhadora ucraniana, que hoje organiza milícias armadas nos sindicatos e se auto-organiza nos bairros populares e vilarejos de várias formas para lutar contra as tropas de Putin? Não temos nenhuma dúvida de que deveríamos tomar as armas para lutar junto ao proletariado e aos demais setores do povo ucraniano em sua heroica resistência à invasão russa. Isto nos colocaria, neste momento, em unidade de ação militar com o Exército Ucraniano, assim como com todas as classes e organizações de classe do povo ucraniano que hoje têm como objetivo comum derrotar e expulsar as tropas imperialistas da Rússia. E para que não restem dúvidas sobre nossa posição: unidade de ação militar inclusive com o Batalhão de Azov e demais grupos fascistas.

Para usar a imagem precisa criada por Trotsky para explicar a unidade de ação militar dos bolcheviques com o governo contrarrevolucionário de Kerensky, no enfrentamento ao golpe do general Kornilov, durante a Revolução Russa: hoje, apoiamos o nosso fuzil nos ombros de Zelemski para atirar contra Putin. E amanhã, derrotado e expulso o exército de Putin, acertaremos nossas contas com Zelemski e os fascistas. Ou, em outras palavras, hoje, em unidade de ação militar com todas as forças ucranianas em luta, fazemos a guerra contra a invasão russa, para amanhã, com esta derrotada, transformarmos a guerra em defesa da Ucrânia em guerra civil pela tomada do poder pelo proletariado e o povo pobre.

Capitulação ao pacifismo pequenoburguês

A caracterização equivocada de vocês sobre o caráter da guerra (guerra interimperialista), e o eixo equivocado de sua política (derrotismo revolucionário), inevitavelmente os levam aos braços do pacifismo pequeno burguês, do qual tentam, sem sucesso, se diferenciar em sua declaração sobre a guerra.

Os camaradas afirmam que “A paz é o grito de indignação moral ao ver os corpos ensanguentados dia após dia em todos os meios de comunicação ocidentais.” Porém, a “paz” nem sempre é uma palavra de ordem revolucionária diante das guerras. Ela só pode cumprir este papel quando estamos diante de uma guerra entre nações imperialistas, como foi o caso da consigna de “paz” levantada pelos bolcheviques durante a I Grande Guerra, que traduzia a política de derrotismo revolucionário no interior da Rússia. Mas, como buscamos demonstrar, não é este o caráter da guerra na Ucrânia. Por isso, a consigna de “paz” diante desta guerra (defendida pelas organizações citadas em sua declaração e por Lula, PT, PSOL e outras organizações no Brasil), é diretamente uma traição ao proletariado ucraniano, que hoje dá sua vida para expulsar o agressor russo imperialista. A paz na Ucrânia só pode ser conquistada com a vitória do povo ucraniano nesta guerra, e por aqui passa o eixo fundamental da política revolucionária do proletariado neste conflito, o que para nós se traduz na palavra de ordem: Ao lado do povo da Ucrânia, pela derrota e expulsão das tropas imperialistas de Putin!

Os camaradas falam abstratamente de “corpos ensanguentados”, mas não há uma linha em sua declaração para mostrar a destruição de Mariupol, o massacre de Bucha, os bombardeios sobre cidades e vilarejos feitos pelas tropas de Putin que estão destruindo a infraestrutura produtiva da Ucrânia e deixando um rastro de milhares de mortos e milhões de pessoas expulsas de suas casas e terras. A palavra de ordem de “Derrotar as forças de invasão russas” cumpre apenas um papel decorativo e secundário na política que vocês propõem diante da guerra. Neste momento, o proletariado e o povo ucraniano estão colocando em prática esta tarefa, impondo derrotas ao “poderoso” exército de Putin numa heroica guerra de resistência por sua autodeterminação nacional. A concentração da guerra no corredor que vai da Criméia ao Donbass deve aumentar ainda mais a carnificina e a destruição causadas pelo exército ocupante da Rússia. É no lado da trincheira da resistência ucraniana que devem estar as organizações revolucionárias do proletariado mundial.

Lenin e o direito das nações à autodeterminação

Nossa posição decorre diretamente da concepção de Lenin sobre o imperialismo e o direito das nações à autodeterminação nacional, que consideramos um dos pilares da política revolucionária do proletariado mundial. Lembremos as definições de Lenin:

“O imperialismo é a época da progressiva opressão das nações de todo o mundo por um punhado de «grandes» potências, e por isso a luta pela revolução socialista internacional contra o imperialismo é impossível sem o reconhecimento do direito das nações à autodeterminação. «Não pode ser livre um povo que oprime outros povos» (Marx e Engels). Não pode ser socialista um proletariado que admite a mínima violência da «sua» nação sobre outras nações.

Os socialistas não podem alcançar o seu grande objetivo sem lutar contra toda a opressão das nações. Por isso eles devem obrigatoriamente exigir que os partidos sociais-democratas dos países opressores (particularmente das chamadas «grandes» potências) reconheçam e defendam o direito das nações oprimidas à autodeterminação, e precisamente no sentido político da palavra, isto é, o direito à separação política. Um socialista de uma nação que seja uma grande potência ou possua colónias que não defende esse direito é um chauvinista.” (https://www.marxists.org/portugues/lenin/1915/guerra/01.html#c1019)

Lenin também polemiza com os socialistas que, em nome da revolução socialista, desconheciam ou negavam o direito e a luta dos povos à autodeterminação nacional:

“Acontece que Parabellum, em nome da revolução socialista, rejeita com desdém um programa consequentemente revolucionário no domínio democrático. Isto é errado. O proletariado não pode vencer senão através da democracia, isto é, realizando integralmente a democracia e ligando a cada passo da sua luta reivindicações democráticas formuladas da maneira mais decidida. É absurdo opor a revolução socialista e a luta revolucionária contra o capitalismo a uma das questões da democracia, neste caso a questão nacional. Devemos combinar a luta revolucionária contra o capitalismo a um programa e a uma táctica revolucionários em relação a todas as reivindicações democráticas: república, milícia, eleição dos funcionários pelo povo, igualdade de direitos das mulheres, autodeterminação das nações etc. Enquanto existir o capitalismo, todas essas reivindicações só serão realizáveis como excepção e mesmo assim de maneira incompleta e deformada. Apoiando-nos na democracia já existente, desmascarando o seu caráter incompleto sob o capitalismo, nós exigimos o derrubamento do capitalismo, a expropriação da burguesia, como base necessária tanto para liquidar a miséria das massas como para a completa e integral realização de todas as transformações democráticas. Algumas dessas transformações serão iniciadas antes do derrubamento da burguesia, outras durante esse derrubamento, outras ainda depois dele. A revolução social não é uma batalha única, mas uma época com toda uma série de batalhas por todas e cada uma das questões das transformações econômicas e democráticas, que só terminarão com a expropriação da burguesia. É precisamente em nome desse objetivo final que devemos formular de modo consequentemente revolucionário cada uma das nossas reivindicações democráticas. É inteiramente concebível que os operários de qualquer país determinado derrubem a burguesia antes da realização integral mesmo de uma só transformação democrática essencial. Mas é completamente inconcebível que o proletariado, como classe histórica, possa vencer a burguesia se não estiver preparado para isso por uma educação no espírito do democratismo mais consequente e resolutamente revolucionário.” (grifos nossos). (O proletariado e o direito das nações à autodeterminação,1915, https://www.marxists.org/portugues/lenin/1915/10/29.htm)

Lenin parte de uma diferenciação fundamental entre o nacionalismo imperialista dos países opressores (chauvinismo) e a luta nacional dos países oprimidos pelo imperialismo, a qual deve ser apoiada sem reservas pelos socialistas revolucionários. Desta definição, Lenin formula a política de combinar num único programa as tarefas da revolução socialista com as tarefas democráticas e nacionais. Trotsky, no processo de elaboração de teoria da Revolução Permanente, vai no mesmo sentido das concepções de Lenin.

Os camaradas, em sua declaração, não deixam claro se reivindicam as posições de Lenin sobre o direito à autodeterminação das nações, e parece que buscam contrapô-las à teoria da Revolução Permanente, tomando as críticas de Kowalewski aos “erros e à falta de estratégia de Lenin e dos bolcheviques” em relação à questão nacional ucraniana, durante a Revolução Russa.

O artigo de Kowalewski (https://lifeonleft.blogspot.com/2022/03/how-ukraine-won-its-independence-in.html?m=1) é bastante interessante e útil para conhecermos a intrincada história da luta pela independência nacional da Ucrânia, particularmente no período da Revolução Russa. De sua leitura, concluímos inicialmente o seguinte: 1) Kowalewski reivindica a concepção de Lenin e de Trotsky de que as tarefas da revolução socialista devem se combinar com as tarefas da independência nacional; 2) considera que Lenin errou ao não colocar no programa do partido, no período prévio à revolução, a luta pela libertação nacional da Ucrânia, criticando, de forma implícita, a fórmula algébrica de Lenin de “defesa do direito à autodeterminação das nações” (não temos acordo com esta crítica de Kowalewski, e sim com a fórmula de Lenin, mas ele fomenta um debate importante a ser desenvolvido).

Porém, nada no artigo de Kowalewski embasa a mesquinha conclusão exposta na introdução do artigo, escrita por Richard Fidler, de que “O relato de Putin, embora colorido pelo chauvinismo da Grande Rússia, é parcialmente verdadeiro.” Quais das afirmações de Putin podem ser consideradas “parcialmente verdadeiras”? Não existe nenhuma gota de verdade histórica no relato completamente chauvinista de Putin. Qual é o objetivo deste flerte de Fidler com o “chauvinismo colorido” de Putin?

Não ficou claro qual é o objetivo dos camaradas da FLTN ao citar a introdução de Fidler e o artigo de Kowalewski para embasar suas análises e sua política para a guerra atual na Ucrânia. Enquanto o primeiro flerta com o chauvinismo de Putin, o segundo defende, apesar das críticas, a posição de Lenin, criticada por Putin.

Luta pela independência nacional e revolução socialista

Vocês concluem, corretamente, que “Hoje, o destino do mundo está na capacidade do proletariado internacional de ver a revolução permanente ligada à revolução nacional das semicolônias”. Porém, como já expusemos acima, ao não reconhecerem o caráter da Ucrânia como nação, ao se recusarem a levantar uma política de unidade de ação militar na Ucrânia para derrotar e expulsar as tropas de Putin e proporem como política central o “derrotismo revolucionário”, vocês acabam diluindo a luta das massas ucranianas pela independência nacional na luta geral do proletariado contra o imperialismo e pela revolução socialista, bem ao modo de Parabellun e de Rosa Luxemburgo.

Temos pleno acordo com sua afirmação de que “A contrarrevolução e a restauração capitalista na Ucrânia colocaram de volta na agenda as tarefas inacabadas da revolução democrática nacional; tarefas que só podem ser realizadas por um Estado operário em uma Ucrânia Soviética Independente.” (grifo nosso). Contudo, afirmar que a libertação nacional da Ucrânia só pode ser realizada através da revolução socialista, não pode nos levar a desconhecer que hoje o proletariado e as massas exploradas ucranianas se colocam em marcha para dar cabo das “tarefas inacabadas da revolução democrática nacional”, colocando-se em pé de guerra contra as tropas invasoras de Putin. E fazem isso com sua consciência e com sua organização de classe atuais, quer dizer, sem uma direção revolucionária que possa conduzir sua luta em direção a uma Ucrânia Soviética Independente. Diante da crise de direção revolucionária, a direção da luta nacional pela independência da Ucrânia está hoje nas mãos de Zelemski e dos fascistas. A política revolucionária tem que dar resposta a esta contradição, portanto, a palavra de ordem de Ucrânia Soviética Independente, como objetivo estratégico de nosso programa, deve estar combinada com palavras de ordem que respondam às tarefas do momento, que façam avançar a consciência de classe do proletariado mobilizado para a guerra contra as tropas de Putin. É com este objetivo que formulamos as seguintes palavras de ordem:

  • Ao lado do povo da Ucrânia! Pela derrota e expulsão das tropas imperialistas de Putin!
  • Solidariedade mundial à resistência do povo da Ucrânia! Organizar brigadas internacionais de ativistas para lutar ao lado do povo ucraniano!
  • Nenhuma confiança no governo Zelemski, nos oficiais do Exército Ucraniano, nem nas direções burguesas e fascistas que estão à frente da guerra! 
  • Pela formação e fortalecimento das milícias armadas auto organizadas pela classe trabalhadora e organizadas pelos sindicatos.
  • Unidade de ação militar para derrotar e expulsar as tropas invasoras de Putin!
  • Pelo desmantelamento das bases militares imperialistas da OTAN e dos Estados Unidos! Pela retirada das tropas dos Estados Unidos da Europa e de todos os países onde estão estacionadas! Que os países da OTAN entreguem gratuitamente armamentos para a resistência ucraniana!
  • Por uma Ucrânia soviética independente! Nos marcos de uma Europa socialista, governada pela classe trabalhadora, formada pela livre união entre os povos e nações!
  • Pela construção de um partido revolucionário na Ucrânia!  

Camaradas, buscamos expor da forma mais franca e nítida os nossos acordos e diferenças. É possível que as dificuldades derivadas da língua tenham levado a incompreensões sobre suas posições, pelo que, antecipadamente, nos desculpamos. Contudo, estimamos que quaisquer mal-entendidos poderão ser esclarecidos no curso de uma discussão fraternal e aberta.

Recebam o nosso abraço revolucionário e internacionalista!

GOI – Grupo Operário Internacionalista (21/4/2022)

(*) A TLTI – Tendência Leninista Trotskista Internacional é uma tendência trotsquista que tem origem nos Estados Unidos, chamando-se atualmente Grupo de Trabalhadores Revolucionários, e têm também um grupo no Brasil. No final do ano passado, propuseram estabelecer contato conosco para discutir temas internacionais e nacionais. Com a guerra na Ucrânia, eles estão organizando conferências para construir uma “frente contra a guerra interimperialista”, para a qual nos convidaram. Este texto é uma resposta polêmica às posições deles.    

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Manifesto da TLTI

Resposta à carta do GOI para a TLTI

Camaradas do GOI, obrigada pela sua carta.

Esperamos continuar a discussão e poder aprofundar a questão de China e Rússia serem países imperialistas e como isso se deu, afirmando a teoria leninista do imperialismo. E não com empirismo, como temos visto algumas correntes chegando a essa conclusão contrariando Lênin e achando ser possível uma semicolônia, na época imperialista, desenvolver suas forças produtivas e se tornar um país imperialista. Nós afirmamos a teoria de Lênin, que na época imperialista não é possível uma semicolônia conquistar a independência do imperialismo, China e Rússia desenvolveram suas forças produtivas com a revolução socialista e ao retornarem a esfera capitalista puderam manter a independência do imperialismo e serem hoje os principais rivais do imperialismo americano.

Sobre a guerra na Ucrânia, o GOI em sua carta diz que tem duas principais divergências com a TLTI, o caráter do Estado ucraniano e a caracterização de um conflito interimperialista que fazemos da guerra na Ucrânia e, consequentemente, nossa política de dual derrotismo.

 “A primeira é sobre o caráter da Ucrânia como nação. A posição de vocês quanto a isso é dúbia, e alguns elementos da análise e, sobretudo, da política que propõem deixam entrever que não consideram a Ucrânia uma nação.”

 “Porém, como já expusemos acima, ao não reconhecerem o caráter da Ucrânia como nação, ao se recusarem a levantar uma política de unidade de ação militar na Ucrânia para derrotar e expulsar as tropas de Putin e proporem como política central o “derrotismo revolucionário”, vocês acabam diluindo a luta das massas ucranianas pela independência nacional na luta geral do proletariado contra o imperialismo e pela revolução socialista, bem ao modo de Parabellun e de Rosa Luxemburgo.”

Concordamos que o caráter de classe na guerra da Ucrânia é nossa grande diferença. Afirmamos que a guerra é interimperialista entre o bloco imperialista dos EUA/EU e o imperialismo russo. Isso nos leva a posição de Derrotismo Revolucionário (Dual derrotismo). A questão nacional da Ucrânia de independência e de autodeterminação esta diretamente ligada a questão internacional. Entender o caráter do conflito interimperialista e o derrotismo revolucionário é fundamental para transformar a guerra interimperialista em guerra de classes e não capitular para um dos blocos imperialistas, para Frente Popular, o social imperialismo e o nacional trotskismo na questão da independência nacional e autodeterminação. Diante da crise terminal do capitalismo, combinada com as mudanças climáticas e guerras interimperialistas, isto é socialismo ou extinção, a esquerda revolucionaria mostra sua falência dividida entre apoiar um ou outro bloco imperialista na Ucrânia. Por isso hoje fazemos um chamado para um Novo Zimmerwald!

Primeiro queremos deixar claro que o GOI faz uma má interpretação da nossa caracterização sobre o estado ucraniano. Afirmamos em nosso artigo “A contrarrevolução e a restauração capitalista na Ucrânia colocaram de volta na agenda as tarefas inacabadas da revolução democrática nacional; tarefas que só podem ser realizadas por um Estado operário em uma Ucrânia Soviética Independente.”. Como afirmamos em outros documentos, defendemos a unidade da Ucrânia, inclusive com a Criméia, na luta pela independência nacional e autodeterminação dos povos.

Hoje, ambos os imperialismos travam uma guerra na Ucrânia, agindo para dividir e esmagar a classe trabalhadora com nacionalismo, chauvinismo e fascismo. Não precisamos que EUA e Europa coloquem suas botas na Ucrânia para afirmar que essa é uma guerra interimperialista. Zelensky é apenas o procurador dos imperialismos americano e europeu, e a Ucrânia o terreno da disputa interimperialista.

A OTAN, liderada pelos EUA, pode nunca colocar as botas oficialmente no terreno da Ucrânia se puder vencer com a mudança de regime e o financiamento da guerra quente disfarçada de guerra de libertação nacional. É assim que se parece a guerra interimperialista.

Temos visto hoje muitas organizações de esquerda nos países imperialista do ocidente, que no passado vociferavam contra o imperialismo americano, capitulando para suas burguesias nacionais apoiando a Ucrânia. Eles não veem as sanções como uma guerra interimperialista direta e rejeitam a classe para o ‘povo’, de modo que a ajuda imperialista para os trabalhadores ir além da defesa e se tornar bucha de canhão, é necessária. Caem no campo social-imperialista.

 Independência Nacional e Autodeterminação

A posição leninista de autodeterminação é afirmada em nosso artigo, a qual também o GOI deu uma má interpretação:

Os camaradas, em sua declaração, não deixam claro se reivindicam as posições de Lenin sobre o direito à autodeterminação das nações, e parece que buscam contrapô-las à teoria da Revolução Permanente, tomando as críticas de Kowalewski aos “erros e à falta de estratégia de Lênin e dos bolcheviques” em relação à questão nacional ucraniana, durante a Revolução Russa.”. 

Citamos o referido artigo pelo ponto interessante que coloca que foram os comunistas na Ucrânia que adotaram a teoria da revolução permanente ativamente contra o chauvinismo russo nos bolcheviques “tais eram as limitações do movimento sob o czarismo, sua base na Ucrânia estava centrada entre os trabalhadores russificados dos centros industriais e de mineração do leste e o centro local e nacional do bolchevismo não era informado nem integrado aos líderes das massas de língua ucraniana”. Lênin perdeu de vista a autodeterminação em sua declaração de 1914 sobre a Ucrânia ser a “Irlanda” da Rússia. Somente depois que o chauvinismo provavelmente destruiu a revolução de se espalhar para a Europa através da Ucrânia, Polônia e Hungria Lênin voltou a ela, e a guerra civil foi vencida sob o lema de uma Ucrânia soviética livre e independente.

Seguimos dizendo em nosso artigo: “As tarefas da revolução democrática nacional na Ucrânia estavam tão profundamente entrelaçadas com a luta pela autodeterminação que o destino da internacionalização e a vitória da Revolução Russa dependiam disso.”.  

“Hoje, o destino do mundo está na capacidade do proletariado internacional de ver a revolução permanente ligada à revolução nacional das semicolônias, sempre sob ataque da contrarrevolução permanente tanto pelo bloco imperialistas EUA/Reino Unido/UE e o bloco imperialista Rússia/China.”  

Conquistar a independência nacional e autodeterminação do povo de Donbass e Criméia só é possível com a unidade da classe trabalhadora e a revolução socialista. A burguesia nacional, na época imperialista, não é capaz de cumprir com as tarefas democráticas e realizar a revolução democrática. Essa tarefa é da classe trabalhadora realizando a revolução socialista.  Essa é uma questão que o GOI diz concordar conosco, mas mostraremos como o GOI capitula para a burguesia nacional e o imperialismo “democrático”, com uma política nacional-trotskista.

Apoiar Kiev e o bloco imperialista dos EUA/EU/UK não é apoiar as reivindicações democráticas de independência e autodeterminação. Nem é fortalecer a luta da classe trabalhadora pela revolução permanente. É sim, dividir a classe apoiando os fascistas nos ataques aos trabalhadores utilizando das diferenças étnicas e da língua, e apoiar o lado imperialista dos EUA na guerra contra o bloco Rússia/China. O não entendimento pelo GOI de que essa é uma guerra interimperialista os fazem capitular para o imperialismo “democrático” dos EUA/ EU e ao social imperialismo.

Autodeterminação

O GOI pergunta: Mas, perguntamos aos camaradas, é correto propor a política de derrotismo revolucionário ao proletariado e ao povo ucraniano que estão em armas contra as tropas russas? Seria correto propor-lhes que não lutem contra o exército invasor, e que, ao contrário, voltem suas armas, neste momento, contra os oficiais do Exército Ucraniano, que organizem, neste momento, milícias para enfrentar militarmente a Brigada de Azov e outros grupos fascistas e semifascistas?”

Respondendo a indagação do GOI: Sim! Achamos que é “neste momento” que os trabalhadores devem construir comitês armados independentes! Essa é uma grande oportunidade que deveria estar sendo usada para formação de milícias operárias!

Temos que retornar a 2014. Após o golpe de estado que sucedeu as manifestações da Maidan, os trabalhadores do leste se levantaram em um processo revolucionário.  Para esmagar esse processo, o governo de Kiev mandou os soldados do exército para bombardear os trabalhadores. Já começava a surgir movimento de mães dos soldados contra o envio de seus filhos para matar seus irmãos no leste, quando a Rússia começa a intervir do lado dos revolucionários.  Com a desculpa de “ajudar” o levante, a Rússia conseguiu acabar com o processo revolucionário substituindo as lideranças por seus apoiadores, ocasião em que muitos “desapareceram”. Com o chauvinismo gran russo, Putin avançou na divisão da classe trabalhadora do oeste, promoveu o plebiscito separatista e anexou a Criméia. Da mesma forma o governo de Kiev atacava a revolução promovendo o nacional chauvinismo, alimentado as forças fascistas e com opressão aos falantes de língua russa, evitando assim qualquer unidade da classe trabalhadora contra a guerra que Kiev travava contra os trabalhadores no leste.

Agora perguntamos ao GOI: Como é possível unir a classe trabalhadora contra a invasão russa, apoiando o governo de Kiev que divide a classe, e que cada vez mais tem que se apoiar no fascismo e no nacional chauvinismo? Como conquistar a independência e combater os invasores russos se aliando à Zelensky e os fascistas que há 8 anos bombardeiam os trabalhadores do leste?.

Nenhuma autodeterminação para as minorias? Não acham que os falantes de russo também podem se juntar à resistência ao regime de Putin?

“Heróica resistência ucraniana?? Resistência é com Independência de classe!

Na carta o GOI diz:

 “Caso tivéssemos um grupo ou um partido trotsquista na Ucrânia (o que, desgraçadamente, não é o caso!), qual seria a política a ser aplicada junto à classe trabalhadora ucraniana, que hoje organiza milícias armadas nos sindicatos e se auto-organiza nos bairros populares e vilarejos de várias formas para lutar contra as tropas de Putin? Não temos nenhuma dúvida de que deveríamos tomar as armas para lutar junto ao proletariado e aos demais setores do povo ucraniano em sua heroica resistência à invasão russa.”

O “herói” Zelensky, recebendo armas do imperialismo ocidental, combatendo o imperialismo russo numa guerra por procuração, atacando e dividindo a classe e a usando como bala de canhão, não é uma “heroica resistência do povo ucraniano”.

É verdade que muitos trabalhadores e jovens se apresentaram como voluntários para pegar em armas para se defender e estão dispostos a combater a invasão russa. Achamos que tem surgido comitês locais com as pessoas pegando em armas para se defender e que o governo não deve ter total controle. Mas são voluntários para ajudar o exército regular e não vemos nenhum movimento de crítica contra o governo e de direção a independência de classe. Uma oportunidade que deveria estar sendo usada para formação de milícias operárias, que sejam independentes, que desafiassem o governo de Kiev e chamasse os trabalhadores do leste à unidade. Então dizemos que se unir á resistência do “povo” ucraniano como diz o GOI é capitular a Frente Popular e que a política do derrotismo revolucionário é que pode levar a independência dos comitês armados dos trabalhadores em direção ao programa da Revolução permanente, à independência e autodeterminação, com a revolução Socialista. Para nós, a guerra é uma só, a guerra de classes.

Citando Lênin sobre o combate a Kornilov, o GOI fala: “hoje, apoiamos o nosso fuzil nos ombros de Zelemski para atirar contra Putin. E amanhã, derrotado e expulso o exército de Putin, acertaremos nossas contas com Zelemski e os fascistas.”

Na revolução Síria é que podemos falar de resistência heroica do povo e que podíamos dar apoio aos fascistas! Milícias de trabalhadores e povo pobre se formaram e estavam resistindo tanto ao governo de Assad e o imperialismo russo, quanto aos ataques do imperialismo americano e seus aliados curdos. Nessa real resistência, apoiamos militarmente a direção fundamentalista islâmica pequeno burguesa e os “fascistas” do ISIS quando lutavam contra o imperialismo dos EUA no nordeste da Síria e no Iraque. Isso sim é apoiar até os fascistas contra o imperialismo, como disse Trotsky. Combater o imperialismo faz avançar a luta dos trabalhadores.

Obviamente, não estaremos fortalecendo a revolução permanente do lado de Zelensky e dos fascistas que lutam como procuradores do bloco dos EUA, dividindo e massacrando as massas do leste ucraniano, numa disputa interimperialista.

A guerra na Ucrânia desde o início tem sido uma guerra por procuração entre EUA/OTAN e Rússia (visando a China), então todas as armas que vão para a Ucrânia devem ser interrompidas. Ainda não há ‘resistência’ para falar que seja independente do regime de procuração de Zelensky. Trabalhadores e pequenos agricultores apanhados nesta guerra são peões de sacrifício de uma guerra interimperialista. Seja qual for o lado imperialista que vença, os trabalhadores e os pequenos agricultores perdem. Na época das guerras interimperialistas por procuração, todas as guerras, exceto a guerra de classes, são reacionárias. A autodeterminação da Ucrânia não pode ser conquistada sem a revolução socialista. Isso significa construir milícias de trabalhadores independentes para resistir tanto aos blocos imperialistas quanto a seus representantes, e armar-se com a ajuda internacional dos trabalhadores.

Dual derrotismo X Frente Popular (FP)

O derrotismo revolucionário, isto é, os comitês armados dos trabalhadores não devem “ajudar” o exercito regular, devem ter independência de classe, unir os trabalhadores do leste e oeste, combater os fascistas e nacionalistas tanto de Kiev/ bloco imperialista dos EUA, como os do leste/Rússia imperialista. Apenas com independência de classe é possível avançar na revolução permanente, juntando as reivindicações democráticas (independência e autodeterminação) com a revolução socialista, única capaz de alcançar essas demandas. Nenhuma unidade com a burguesia ucraniana! Nenhum apoio a um dos lados na disputa interimperialista!

Não vemos diferença da posição do GOI com a posição do PSTU. Primeiro a revolução democrática burguesa, depois a revolução socialista. O “momento” de construir comitês armados de trabalhadores nunca chega. Avaliamos isso como um desvio do morenismo, do qual não temos conhecimento de que o GOI tenha rompido.

Como a revolução “não é possível”, na situação “concreta” como gostam de dizer, se unem com a burguesia “progressiva” e junto ainda os fascistas, dividindo a classe trabalhadora que tem sido bombardeada e atacada por eles há 8 anos.

Capitulam para o Imperialismo Democrático e os Social Imperialistas. É uma capitulação histórica do morenismo ao imperialismo democrático, como quando se colocaram do lado da “democracia” de Yeltsin contra a “ditadura” estalinista pela restauração capitalista na ex URSS.

O social imperialismo, que com base na aristocracia operaria conquistou maiores privilégios e democracia à custa da opressão e governos militares (fascistas) nas semicolônias lutam para um capitalismo bom nos países imperialistas. Nas semicolônias o social imperialismo se traduz no nacional- trotskismo, que com base na burocracia operária se une a burguesia nacional “progressiva” em FP para combater o imperialismo.

Para o PSTU, no Brasil “não é possível” derrubar Bolsonaro. Apesar dos metalúrgicos do sindicato que dirigem terem feito várias greves e mobilizações, a direção nunca acho que deveriam fazer greve pelo Fora Bolsonaro, Contra Reforma da Previdência ou Trabalhista. O programa fica sempre no economicismo. Lula, PT e a CUT não tem política para derrubar Bolsonaro pela luta, apenas pelas eleições. A política do PSTU se resume a disputa por aparatos sindicais com a burocracia petista e o “Fora Bolsonaro” foi levado a diante na frente burocrática com as centrais sindicais. Nas eleições, apresentam candidatos “apenas” para visibilizar o partido para no segundo turno, apoiar a FP (desde 2002!).

 Isso porque o PSTU tem um programa reformista. Assim como o programa do PT e Cia substitui os trabalhadores na luta pelo parlamento, o do PSTU os substitui pela burocracia sindical. Seu programa nunca vai até o final, nunca é o “momento” de avançar o programa da Revolução Permanente até a tomada do poder, o programa fica no meio caminho.

Percebemos a mesma política nas declarações do GOI, seu programa para as greves dos trabalhadores não vão até o final. Nas eleições em 2018 e agora, em 2022, as corretas exigências que se deve fazer ao PT e a esquerda reformista se tornam o programa capitulador do GOI chamando a uma candidatura “Lula sem os patrões” quando o PT já está até em uma federação com os partidos da burguesia (assim como o PSOL) para não apresentar o programa da Revolução Permanente (pois ainda não é o momento) e apoiar a FP no segundo turno.

Mais uma vez vê-se que a posição leninista-trotskista de que a burguesia não é progressiva na época imperialista, que o GOI diz concordar, não se concretiza em sua política. Essa é a base para Lênin e Trotsky travarem uma batalha incansável à FP. “apoiar a arma no ombro de Kerensky para acertar Kornilov” nunca foi motivo para apoiar a FP, pelo contrário, por um lado entendia que a FP não era capaz de combater o fascismo e por outra para desmascará-la.

Foi essa posição que o PSTU não conseguiu ter no impeachment de Dilma. Como o PT e a FP não tinha como combater as manobras de seus próprios aliados burgueses “progressistas”, o PSTU decidiu não combater a burguesia, mas apoiá-la, não tendo lutado contra o impeachment. Da mesma forma, até hoje subestimam e não mobilizam os trabalhadores para combater o ascendente fascismo e ameaça de golpe militar com independência de classe. Sua negativa em ver a ameaça fascista deixa claro que defendem a FP para combatê-lo, como vimos no impeachment, no segundo turno das eleições burguesas em 2018 e agora.

Guerra Interimperialista EUA/EU/RU X Rússia/China e um Novo Zimmerwald

Desde 2010 temos dado uma batalha para convencer os trabalhadores que China e Rússia são imperialismo em ascensão e grandes rivais do imperialismo americano. Combatemos os setores estalinistas e falsos trotskistas que não vêem a Rússia e China como imperialistas e os apoiam em uma grande FP junto com o castro-chavismo, como uma alternativa “anticapitalista” por um mundo “multipolar”. Abandonaram de vez a luta pela revolução dos trabalhadores.

Não ver o caráter de classe na guerra interimperialista na Ucrânia leva a política equivocada de não se posicionar pelo dual derrotismo e a não impedir que as armas vão para a ‘resistência’. Seus pretextos são que EUA/OTAN não está ‘ainda’ envolvida em guerra direta, então a guerra nacional domina. Resultado não pode ser outro que ceder à pressão para se juntar à ‘frente popular’ com o imperialismo “democrático” dos EUA.

Essa é a divisão da esquerda hoje, que como em 2014, apóia um ou outro imperialismo em disputa e mostra sua total falência. Por isso, queremos ajudar a construir uma nova esquerda de Zimmerwald em resposta a esta guerra interimperialista.

Pela Independência de Classe e o Partido Mundial da Revolução Socialista, com base no programa de 1938! Diante da crise terminal do capitalismo, socialismo ou extinção!

Nossas saudações revolucionárias,

TLTI

02/05/2022

[Imagem: SERGII KHARCHENKO/NURPHOTO VIA GETTY IMAGES]

Um comentário em “A Guerra na Ucrânia: polêmica entre o GOI e a TLTI (Tendência Leninista Trotskista Internacional)

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