A lição do 3J que as direções se recusam a aprender

Wiliam Felippe

A direção da campanha Fora Bolsonaro, encabeçada pela Frente Brasil Popular (hegemonizada pelo PT e Lula) e a Frente Povo Sem Medo (hegemonizada pela direção do PSOL e Boulos), ao convocar às pressas o ato de 3J, nutria altas esperanças de que as “revelações” da CPI da Covid no Senado sobre a corrupção na compra da vacina Covaxin iriam abrir um novo capítulo nas manifestações. Estas “revelações” eliminaram também de um só golpe as polêmicas acerca da data do ato seguinte ao 19J com a “Frente Povo na Rua” (encabeçada pelo MES, o PCB e a UP), que articulava a data “mais radical” de 13J, e se alinhou de pronto ao ato antecipado para 3J.

As 3 frentes que convocaram o 3J acreditavam que o novo mote da “luta contra a corrupção” atrairia para as ruas as multidões que, em 2015 e 2016, insufladas pela Operação Lava Jato, se mobilizaram pelo “impeachment” de Dilma Rousseff. Sonhavam (e ainda sonham) com a reedição daquelas caminhadas nas tardes de domingo na Avenida Paulista, nos demais centros metropolitanos e nas orlas das praias pelo país afora. Só que, agora, sob a direção da “esquerda”, com os gritos de “Fora Dilma” substituídos pelo “Fora Bolsonaro”.

A unidade com partidos, movimentos e políticos burgueses, entre eles golpistas confessos como Roberto Freire, e ex-bolsonaristas como Hasselmann, Frota e Kataguiri, no “pedidão” de impeachment, assim como a anunciada presença no ato da avenida Paulista do diretório do PSDB de São Paulo, controlado pelo governador João Dória (ex-bolsodória), incentivou a certeza de que o sonho tão acalentado de “unidade com a burguesia” se concretizava. E isso era o que faltava para atrair as classes médias para “massificar” o “Fora Bolsonaro”.

Esta esperança não alentava apenas os corações e mentes da cúpula reformista das três frentes de esquerda que têm convocado os atos, mas também os de direções revolucionárias, como o PSTU/CSP-Conlutas e a Resistência/PSOL, para tomar duas das mais representativas do campo classista e socialista, que vem pregando a “unidade de ação” com a patronal pelo “Fora Bolsonaro”.

Acontece que esta expectativa que unificava os dirigentes reformistas e revolucionários não se realizou. As denúncias da CPI não foram suficientes para sensibilizar a classe média a tirar das gavetas as velhas camisas da seleção brasileira, as bandeiras do Brasil e as fitas verde-amarelas, e sair de seus lares confortáveis para as ruas para “salvar o Brasil” mais uma vez da corrupção. A “classe média”, unha e carne com outra classe de definição sociológica mais precisa, a pequena burguesia, encontra-se dividida neste momento: uma parte segue aferrada ao mito de Bolsonaro; outra parte, desiludida com o mito bolsonarista (como outrora já se desiludira com Lula), prefere aguardar as eleições de 2022 para manifestar “democraticamente” sua contida indignação patriótica, torcendo para que os partidos tradicionais da burguesia (finalmente!) encontrem um candidato de “centro”, da “terceira via”. Há ainda uma terceira parcela destas classes, seu setor progressista, mobilizado e engajado nas lutas sociais, populares e da juventude, que compõe neste momento o setor social majoritário dos atos Fora Bolsonaro.

As manifestações do 3J acabaram por ser menores que o 19J, e mais uma vez foram garantidas pelos esforços e pela abnegação de milhares de ativistas dos partidos, sindicatos, movimentos e coletivos da classe trabalhadora, com suas bandeiras vermelhas e suas palavras de ordem de luta.

Já a classe trabalhadora e o povo pobre e oprimido das periferias, quebradas e favelas, o povo oprimido do campo e das florestas, segue no papel de espectador dos atos “políticos” do Fora Bolsonaro. Olha de longe, com simpatia, as manifestações, mas ainda não se dispõe a tomar para si a bandeira do “Fora Bolsonaro”. Ou, não foi convencido disso. Suas agruras de vida são outras, mais mundanas: a ameaça diária de pegar Covid nos ônibus, trens e metrôs lotados, na ida e volta ao trabalho; a ameaça de ser demitido; as ameaças do olhar, do chicote e do “gancho” do chefe; o salário que não chega ao fim do mês; o medo de ficar sem casa; o medo da polícia, da milícia e do tráfico, e de ser agredida/o ou assassinada/o por ser mulher, negro, indígena, LGBTQI ou imigrante; a invasão e roubo de sua terra por fazendeiros, madeireiros e garimpeiros. Ah! E não nos esqueçamos da corrupção! Esbarramos nela a todo momento. Quando precisamos de ter acesso aos serviços públicos, manipulados por políticos corruptos municipais, estaduais e federais: uma senha para fazer um exame ou consulta médica, uma vaga na escola ou no Serviço de Assistência Social. Sem falar no “QI” para conseguir emprego …

Esta dura realidade da vida proletária faz com que seja necessário vincular a luta pelo Fora Bolsonaro com as reivindicações imediatas do povo pobre e trabalhador. Só dessa forma a classe explorada e oprimida pode ser trazida para esta luta “geral” e “política”. Mas, para isso, é necessário um programa que unifique estas reivindicações, são necessários métodos que permitam às grandes massas trabalhadoras entrarem na luta, a partir dos locais de trabalho e dos bairros populares. A começar por um Dia Nacional de Paralisações e Manifestações, organizado desde as bases nos locais de trabalho e bairros populares.

Em outras palavras, é preciso unificar a luta pelo “Fora Bolsonaro” com a luta por melhores salários; com a luta contra as demissões e por emprego; com a luta pelo Auxílio de 1 salário mínimo; com as ocupações de terra para moradia, na cidade, e para cultivo, no campo; com a luta indígena contra o agronegócio, as madeireiras e mineradoras; com a luta dos entregadores por aplicativos e outras categorias precarizadas em defesa de direitos trabalhistas; com a luta contra a privatização dos Correios e da Eletrobrás; com a luta contra a Reforma Administrativa; com a luta da juventude e suas famílias contra o genocídio policial nos bairros populares; e inúmeras outras lutas. Este é o caminho para massificar a luta pelo “Fora Bolsonaro”, para esmagar o bolsonarismo e o militarismo, germes do fascismo, e avançar em direção a um Governo da Classe Trabalhadora, sem patrões.

Todavia, este programa e estes métodos de luta para mobilizar a classe trabalhadora vão se enfrentar não apenas com o governo de Bolsonaro, mas também com o conjunto da classe patronal, com o conjunto de seus governantes em todas as esferas e em todos os poderes. Por esta razão, a mobilização da classe trabalhadora com seu programa e seus métodos de luta se choca com a política de Lula e Boulos e da burocracia sindical e parlamentar de atrair a burguesia para a “frente ampla”. Ao se colocar em marcha, a classe trabalhadora vai se chocar contra toda a burguesia e todos os seus políticos e governos lacaios. Por isso, a política da “unidade de ação” com a burguesia não é uma ferramenta, mas sim um obstáculo para a luta pelo “Fora Bolsonaro”. Isso, se queremos de fato que esta luta seja para expulsar do poder a Bolsonaro e seus generais, e não apenas uma bandeira a serviço da articulação de um novo governo de colaboração de classes em outubro de 2022.

Esta verdade simples é mil vezes mais reveladora do que as lições escolásticas de dirigentes como Zé Maria de Almeida e Valério Arcary sobre a necessidade da “unidade de ação” com a burguesia pelo “Fora Bolsonaro”.

Esta lição do 3J é a que os dirigentes burocráticos e pró-burgueses da FBP e da FPSM não querem aprender. Mas, ainda é tempo desta lição ser aprendida pelo PSTU/CSP-Conlutas, pela Resistência-PSOL e pelas organizações da esquerda de luta, independente e classista. É necessário que os quadros e militantes destas organizações reflitam sobre estes erros de suas direções e deem um combate por uma política correta no interior destas organizações.

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