Movimento Fora Bolsonaro: unidade eleitoral com a burguesia ou unidade da luta da classe trabalhadora?

Nota do GOI

A nota do GOI publicada na semana passada, sob o título “E depois do 19J? Como seguir a luta pelo Fora Bolsonaro?” já antecipava uma polêmica com as direções do movimento Fora Bolsonaro:

É preciso contrapor à política parlamentar-eleitoral de conciliação com a burguesia das direções do movimento, uma política de mobilização independente da classe trabalhadora em defesa de suas condições de vida e de trabalho”

E alertávamos para o erro da chamada “unidade de ação” com a burguesia:

“um programa que unifique a luta pelo Fora Bolsonaro com as reivindicações da classe trabalhadora jamais será apoiado pelos patrões. Não há como fazer “unidade de ação” com os partidos e políticos burgueses em torno a este programa de luta. Por isso, as direções que constroem a “frente ampla” com a burguesia ignoram as reivindicações da nossa classe e se recusam a mobilizá-la a partir dos locais de trabalho, para manter uma falsa “unidade de ação” com a burguesia em torno de uma política de “Fora Bolsonaro” dentro das regras parlamentares e eleitorais do regime. Ou seja, “fora” Bolsonaro, mas só nas eleições de outubro de 2022.”  

Desde a publicação dessa nota, esta política das direções teve um salto a partir de dois fatos novos na conjuntura: a concretização da “unidade com a burguesia” através do chamado “superpedido” de impeachment, protocolado na Câmara dos Deputados, em 30/6, assinado por um amplo leque de partidos e movimentos, que vai do PSTU até o MBL; e o avanço da unidade deste conglomerado da “esquerda” e da “direita” no movimento Fora Bolsonaro, com a participação do PSDB de São Paulo e outros direitistas, golpistas e ex-bolsonaristas no ato de 3J. Estes dois fatos novos expressam um avanço da política de Lula, Boulos e da burocracia sindical de dar ao movimento Fora Bolsonaro um caráter burguês democrático, dentro das regras e calendários do regime, ao mesmo tempo que avança a construção da “frente ampla eleitoral” com os partidos patronais em torno da candidatura de Lula para as eleições de outubro de 2022.

Em nossa nota também fazemos um chamado à construção de uma Frente de Luta Classista e Socialista:

“que unifique as/os ativistas que defendem a luta direta e a independência de classe diante da burguesia. Esta é uma tarefa a ser tomada pelas organizações, correntes e partidos que se apresentam como alternativas ao PT e à direção do PSOL, como o PSTU/CSP-Conlutas, as correntes da esquerda do PSOL, a Intersindical, os grupos que se articulam no Bloco Combativo, os coletivos feministas, antirracistas, LGBTQIs, dos povos originários e outros que buscam uma política de luta de classes e não de conciliação com a burguesia.”

Mas, infelizmente, ao menos uma parte importante destas direções, a começar pelo PSTU/CSP-Conlutas, a Resistência/PSOL, entre outros, estão se alinhando à política da “frente ampla” com a burguesia, ao defender de forma equivocada uma política de “unidade de ação” com os partidos patronais.

A direção da “Frente Povo na Rua”, encabeçada pelo MES, PCB e UP, que se propõe a aplicar uma “linha mais radical”, na verdade se alinha completamente à política da “frente ampla” com a burguesia, limitando-se a polemizar com as datas dos atos e outros aspectos secundários da política.

Estamos, portanto, diante de uma maioria de organizações e direções do movimento Fora Bolsonaro que defendem a unidade com a burguesia, seja na forma de uma “frente ampla eleitoral”, seja na forma da “unidade de ação”.

A política burguesa da “frente ampla”

Em nossa nota pública anterior, explicamos qual é a política da “frente ampla” com a burguesia:

Esta política é aplicada pelas principais direções do movimento, a Frente Brasil Popular, hegemonizada pelo PT, e a Frente Povo Sem Medo, hegemonizada pelo MTST e pela direção do PSOL. Lula e Boulos são seus principais artífices. Lula vai paulatinamente se posicionando no centro das articulações políticas com os partidos e figurões do regime, costurando os pedaços decompostos das várias frações burguesas “democráticas”, impotentes diante da escalada autoritária do bolsonarismo, incapazes de apresentar uma candidatura própria do chamado “centro democrático”. Boulos lhe dá cobertura no flanco esquerdo, como principal articulador dos atos “Fora Bolsonaro”, canalizando assim a indignação do ativismo de esquerda para o “protesto democrático e pacífico” nas ruas”.

A “unidade com a burguesia” impõe limites ao programa e aos métodos de luta do movimento “Fora Bolsonaro”. Além do caráter eleitoral do “Fora Bolsonaro em outubro de 2022”, os outros eixos do movimento foram definidos sob medida para serem aceitos pela burguesia: o “vacina para todos” e a denúncia da “corrupção” no governo Bolsonaro.

Ora, ninguém é contra “vacina para todos”, mas a vacinação não é suficiente para controlar a pandemia no estágio em que se encontra no Brasil, ainda mais com o ritmo insuficiente, lento e sem planejamento feito pelos governos. É urgente a imposição de um lockdown, mas a burguesia nem quer ouvir falar nisso, e segue impondo sua política genocida de manter as atividades econômicas funcionando, sem garantir máscaras PFF2 para os trabalhadores, que são obrigados a enfrentar sua dura rotina de trabalho, engrossando as cifras de mais de meio milhão de mortos pela pandemia, que não tem perspectiva de quando vai acabar. Para não contrariar a política de “unidade” com a patronal, as direções do movimento abandonaram completamente a luta pelo lockdown (na verdade nunca a levantaram de forma efetiva!). Além disso, para ter “vacina para todos” é preciso quebrar as patentes e fazer mais investimentos no SUS, mas os patrões estão contra estas medidas, porque, a primeira, atenta contra o sagrado direito de propriedade privada (e os lucros astronômicos acumulados pelos vendedores e “repassadores” de vacinas!); e a segunda contra o “teto de gastos”, um dos cânones da política econômica liberal. Portanto, levantar a palavra de ordem “vacina para todos” sem estar combinada com a de “paralisação das atividades econômicas”, “quebra das patentes” e “investimentos no SUS” não passa de demagogia oportunista da parte da burguesia genocida, e de palavras ao vento, da parte das direções que falam em nome da classe trabalhadora. O PSDB de São Paulo, que esteve no ato de 3J com a bandeira do “Fora Bolsonaro” e “vacina para todos”, é o partido do governo Dória, que está obrigando agora os profissionais da Educação do grupo de risco a voltarem para as escolas, supostamente porque já estariam “imunizados” por terem tomado as duas doses da vacina. É a mesma política genocida de Bolsonaro.

PSDB no ato de 3J na Avenida Paulista

A outra palavra de ordem que agora passa para primeiro plano é a “contra a corrupção”, escrita em verde e amarelo em meio à profusão de bandeiras do Brasil, o que visa a dar um caráter cada vez mais patriótico às manifestações. Esta palavra de ordem demagógica tem como objetivo atrair eleitoralmente a classe média e a pequena burguesia para os atos, classes sociais que forneceram a principal base social ao Coxinhaço (atos pelo impeachment de Dilma) de 2015-2016, e à eleição de Bolsonaro.

A defesa do “auxílio emergencial de 600 reais”, sem nenhuma organização da luta das/os desempregadas/os e subempregadas/os, é tão somente uma palavra de ordem que visa a atrair estes setores para os atos.

Enquanto aplicam esta política de unidade com a burguesia e de demagogia eleitoreira com as classes médias e as/os trabalhadoras/es que dependem do auxílio, as direções do movimento Fora Bolsonaro buscam manter a classe trabalhadora desunida, inerte e passiva nos locais de trabalho diante dos ataques que esta mesma burguesia e seus governos fazem aos empregos, salários, direitos e terra. Lula e Boulos, a burocracia sindical, a burocracia dos movimentos e a burocracia parlamentar do PT, PCdoB e PSOL, fazem e seguirão fazendo de tudo para evitar e frear as greves, ocupações de terra, e quaisquer outras formas de luta contra os patrões e seus governos (principalmente dos governadores e prefeitos aliados da “frente ampla”), para não assustar os patrões e a classe média e prejudicar a formação da “frente ampla”.

A “unidade de ação” com a burguesia

Há um conjunto de correntes e partidos que tem se posicionado contra esta política da “frente ampla” com a burguesia. Todavia, uma parte destas direções, principalmente duas das mais importantes e influentes, o PSTU, que dirige a CSP-Conlutas, e a Resistência, corrente interna do PSOL, estão a favor da “unidade de ação” com os partidos patronais nos atos Fora Bolsonaro, e inclusive apoiaram e/ou assinaram o “superpedido” de impeachment encaminhado ao chefe do Centrão, Arthur Lira.  

A “unidade de ação” é uma tática revolucionária para buscar uma ação unificada entre a classe trabalhadora e a burguesia em torno de um ponto comum. Temos muitos exemplos na história da luta de classes mundial, mas vamos citar dois mais próximos de nossa experiência.

Primeiro, a unidade de ação na Campanha das Diretas Já, em 1984-85, que tinha como ponto comum a luta pelo fim da ditadura militar e o estabelecimento de liberdades e direitos democráticos no país. Esta campanha unificou o PT (que dirigia a CUT e o poderoso movimento sindical, popular e camponês, que lutava pela derrubada da ditadura militar) e partidos burgueses, principalmente o MDB, de Ulisses Guimarães e Tancredo Neves, o PDT, de Leonel Brizola, e a Igreja Católica. O segundo exemplo vem da Argentina: em 1982, os chefes da ditadura militar, que começava a entrar em crise, tomam uma decisão desesperada com o objetivo de ganhar o apoio da população, que foi a tomada das Ilhas Malvinas, um território argentino usurpado pelo Império Britânico, que reagiu declarando guerra contra a Argentina. A corrente dirigida por Nahuel Moreno, na Argentina, o PST – Partido Socialista dos Trabalhadores, (que o GOI reivindica) fez unidade de ação com os militares em torno a um ponto comum: a luta armada pela soberania argentina sobre as ilhas e a defesa do país contra a guerra movida pelo imperialismo britânico. Nestes dois casos, o MDB, o PDT, a Igreja Católica e outras organizações burguesas no Brasil se enfrentavam concretamente contra a ditadura militar; e na Argentina, os próprios chefes militares da ditadura estavam em guerra contra o imperialismo britânico. Em torno a estes pontos concretos de unidade de ação com a burguesia, a corrente morenista chamou conjuntamente as manifestações da Campanha das Diretas Já (naquele momento através da Convergência Socialista) e lutou de armas na mão, sob o comando militar dos generais da ditadura argentina, contra o imperialismo britânico.

Mas, ao contrário destes dois exemplos históricos, não existe este ponto de unidade de ação comum entre a classe trabalhadora e a burguesia hoje no Brasil. A burguesia passa por uma profunda crise política, com a falência de seus principais partidos (PSDB, MDB, PDT, DEM, etc.) e lideranças políticas como FHC, Dória, Alckmin, Aécio Neves, Rodrigo Maia, Sarney, Ciro Gomes, Marina Silva, etc., em meio a uma das maiores crises do sistema capitalista. Seu maior medo é que o ascenso revolucionário que varre a América Latina chegue ao Brasil, e que as massas trabalhadoras saiam do controle, quer dizer, saiam à luta de forma revolucionária contra a exploração patronal, multiplicada durante a crise pandêmica e econômica, e também contra as provocações fascistas e militaristas do bolsonarismo. Os patrões necessitam construir uma alternativa de governo que possa substituir Bolsonaro de forma pacífica e ordeira, por dentro das regras e instituições do regime, nas eleições de outubro de 2022, porém preservando a essência da política econômica patronal e pró-imperialista. A nova frente popular em torno de Lula e Boulos, a “frente ampla”, se impõe cada vez mais às diversas frações da burguesia como a alternativa mais viável para lograr estes objetivos.

A participação da burguesia nos atos Fora Bolsonaro, assim como o espaço crescente que tem dado às manifestações nos oligopólios da mídia burguesa (Globo, Bandeirantes, Estadão, Folha, etc.), tem o objetivo de impor o seu controle sobre as manifestações, conferindo-lhes um caráter democrático, patriótico, ordeiro, separado das reivindicações e lutas da classe trabalhadora pelas condições de trabalho e de vida. Enfim, um caráter burguês democrático. Mas, a burguesia só consegue impor esta política porque conta com a ajuda dos partidos e dirigentes que falam em nome da classe trabalhadora, que, por trás de sua política de “unidade”, na verdade escondem sua completa submissão à política burguesa-imperialista.

Os objetivos da classe trabalhadora são opostos pelo vértice aos da burguesia, como afirmamos em nossa nota política da semana passada:

[necessitamos de] “um verdadeiro movimento de massas capaz de expulsar Bolsonaro e seus generais do poder, e, ao mesmo tempo, impor uma derrota duradoura ao bolsonarismo como movimento político reacionário, militarista e fascista.” (…) “Somos contra alimentar falsas esperanças de que o Congresso corrupto, controlado pelo Centrão aliado de Bolsonaro, vai ser o palco da derrubada de Bolsonaro. Isto só pode ser feito através de uma dura luta nas ruas e nas lutas. Esta é a lição das grandes revoltas populares no Chile e na Colômbia”.

Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora necessita lutar em defesa de suas condições de vida e de trabalho, contra a fome, a miséria, o desemprego e a violência estatal, o que pressupõe a luta contra a burguesia, que se aproveita da crise pandêmica e econômica para demitir, arrochar salários, cortar direitos, tomar as terras e reprimir o povo pobre. E também a luta não apenas contra o famigerado governo de Bolsonaro-Mourão e seus generais, mas também contra os governos estaduais e municipais, contra o Congresso genocida e corrupto, o STF e demais instituições a serviço da exploração e da opressão dos capitalistas.

Por esta razão não existe nenhum objetivo comum, nenhuma unidade de ação com a burguesia e seus partidos e dirigentes. O que existe é a política de unidade, colaboração e conciliação com a burguesia, a política da frente popular de Lula e Boulos, que se submete à política da burguesia de manter Bolsonaro no poder até janeiro de 2023. Ou, caso sejam obrigados a tirá-lo da presidência, pelo agravamento da crise, de substituí-lo pelo vice Mourão, dentro de um longo processo de impeachment no Congresso. A política de “unidade de ação” defendida pelo PSTU/CSP-Conlutas, pela Resistência-PSOL e outras direções revolucionárias é um grave equívoco, que coloca estas organizações como a “roda esquerda” da nova frente popular construída por Lula e Boulos.

Fora Bolsonaro nas ruas e nas lutas! Por um Governo da Classe Trabalhadora, sem patrões!

Fazemos um chamado às direções que se apresentam como alternativas e independentes da direção do PT e do PSOL, a começar pelo PSTU/CSP-Conlutas e a Resistência-PSOL, que revejam sua política equivocada de “unidade de ação” com a burguesia e se coloquem na vanguarda da construção de uma Frente de Luta Classista e Socialista para unificar as/os ativistas e organizações que defendem a independência de classe diante da burguesia e a ação direta pela derrubada de Bolsonaro nas ruas e nas lutas. 

É preciso contrapor à política de unidade eleitoral com a burguesia uma política de mobilização da classe trabalhadora e do povo pobre e oprimido, que coloque o proletariado organizado à frente das mobilizações pelo Fora Bolsonaro, com seu programa e seus métodos de luta. Como afirmamos em nossa nota política:

“É decisivo incorporar as massas trabalhadoras, o povo pobre das periferias e os povos do campo e das florestas à luta pelo Fora Bolsonaro. Só assim, teremos um verdadeiro movimento de massas capaz de expulsar Bolsonaro e seus generais do poder, e, ao mesmo tempo, impor uma derrota duradoura ao bolsonarismo como movimento político reacionário, militarista e fascista. Para isso, é necessário um programa que unifique a luta pelo Fora Bolsonaro com as reivindicações mais imediatas do povo pobre e trabalhador:

  • Quebrar as patentes para garantir vacina para todos. Recursos para o SUS: remédios, UTIs e mais funcionários.
  • Em defesa dos empregos: Redução da Jornada para 6 horas, sem redução de salário e direitos. Plano de Obras Públicas.
  • Reajuste mensal dos salários.
  • Contra a fome: Auxílio de 1 Salário Mínimo para todas e todos necessitados.
  • Barrar a privatização dos Correios e da Eletrobras.
  • Ocupação de terras para moradia nas cidades e para a reforma Agrária no campo.
  • Demarcação imediata das terras indígenas e quilombolas. Abaixo o PL 490!
  • Contra a Reforma Administrativa, em defesa da estabilidade do funcionalismo público.
  • Contra a violência policial, em defesa das liberdades democráticas e dos direitos dos oprimidos.
  • Anulação das Reformas Trabalhista e Previdenciária. Direitos trabalhistas e aposentadoria para todos.
  • Suspensão do pagamento da dívida pública aos banqueiros e especuladores.

Junto a este programa, é fundamental impulsionar e organizar as mobilizações com os métodos de luta da classe trabalhadora: greves, ocupações, trancamento de vias, etc., combatendo o imobilismo da burocracia sindical e dos movimentos e fortalecendo a auto-organização da vanguarda ativista com os métodos da democracia proletária: assembleias, comitês de base, encontros com mandatos das bases.

É preciso levantar uma política de independência de classe para apontar uma saída revolucionária e socialista de poder operário, popular e camponês: um Governo da Classe Trabalhadora, sem patrões. Exigindo de Lula, Boulos e das direções que constroem a “frente ampla”, que rompam com a burguesia para construir a unidade política da classe trabalhadora e do povo oprimido.

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