E depois do 19J? Como seguir a luta pelo Fora Bolsonaro?

Nota do GOI

É preciso contrapor à política parlamentar-eleitoral de conciliação com a burguesia das direções do movimento, uma política de mobilização independente da classe trabalhadora em defesa de suas condições de vida e de trabalho

O 19J mostrou o crescimento da luta pelo Fora Bolsonaro. Segundo números da coordenação da Campanha Nacional Fora Bolsonaro, 750 mil pessoas foram às ruas, em 366 cidades brasileiras (e mais 42 cidades, em 17 países), superior às 420 mil pessoas do primeiro ato, em 29 de maio. O 3º ato foi marcado para 24 de julho, e uma manifestação foi convocada às pressas para o dia 3/7, após as denúncias sobre a compra superfaturada da vacina Covaxin. A Frente Povo na Rua, encabeçada pelo MES, PCB e UP, convocam também manifestações para o dia 13/7.

As passeatas realizadas até agora foram um avanço importante diante do imobilismo imposto pelas direções dos sindicatos, movimentos e partidos majoritários de esquerda desde o início da pandemia. Esta política de freio às mobilizações, que denominamos de “esquerda em home office”, era justificada em nome da necessidade do distanciamento social para enfrentar a pandemia do coronavírus. Mas, este distanciamento social, mais do que necessário para a preservação das vidas da população, nunca foi permitido pelos patrões e seus governos a mais de 80% da classe trabalhadora. Enquanto os sindicatos fechavam suas portas e a burocracia sindical realizava “assembleias e atos virtuais”, a patronal obrigava trabalhadoras e trabalhadores a manter sua dura rotina de trabalho, sem garantir sua segurança sanitária, nem vacina. Enquanto os patrões aproveitavam a pandemia para avançar nos ataques aos empregos, salários e direitos, e Bolsonaro praticava sua política genocida de “imunidade de rebanho”, que já causou mais de meio milhão de mortes pela Covid-19, o PT, o PCdoB e o PSOL votavam a favor das medidas de Paulo Guedes no Congresso Nacional (auxílio emergencial raquítico e redução salarial).

Esta política de colaboração com a burguesia se manteve mesmo após as grandes mobilizações de massas ocorridas em plena pandemia nos Estados Unidos, no Chile, no Haiti, na Colômbia e outros países. Alguns setores do proletariado buscaram furar o bloqueio às lutas imposto pelas burocracias, a exemplo dos atos antifascistas no primeiro semestre de 2020, das passeatas da comunidade de Paraisópolis, dos atos de protesto de trabalhadoras/es da Saúde, das greves e manifestações dos entregadores por aplicativos, das paralisações de metroviários e rodoviários, entre outras ocorridas no país. Mas, foi só a partir da pressão da vanguarda ativista para reagir à crescente tomada das ruas pelas claques bolsonaristas que as direções majoritárias do movimento resolveram convocar as manifestações de 29M e 19J.

Contudo, seria um equívoco concluir que, ao convocar manifestações em finais de semana, as direções majoritárias mudaram a sua estratégia política. Não. Esta permanece firmemente ancorada em dois pilares: a subordinação ao calendário eleitoral e às regras do regime, o que inclui encenações parlamentares do tipo da CPI da Covid e pedidos de impeachment; e a construção da “unidade de ação” com partidos e políticos da burguesia, visando a uma “frente ampla” contra Bolsonaro nas eleições de outubro de 2022. Esta estratégia de colaboração de classes com FHC, Dória, Sarney, Rodrigo Maia, Renan Calheiros, Eduardo Paes, Roberto Freire e outras figuras da burguesia “democrática e civilizada” requer que se mantenha as massas trabalhadoras sob controle, para tentar evitar explosões de lutas (do tipo dos que ocorreram nos Estados Unidos, no Chile e na Colômbia) que possam abalar o “regime democrático”, já bastante carcomido depois de 37 anos de democracia dos ricos.

Esta estratégia das direções faz com que a continuidade das mobilizações após o 19J siga atrelada às maquinações parlamentares, agora a serviço do chamado “superpedido” de impeachment que será encaminhado ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, chefe do Centrão e aliado de Bolsonaro. O novo pedido de impeachment (que reúne 121 pedidos já encaminhados e engavetados!!) vai reunir a “frente ampla”: os partidos “de esquerda” (PT, PSOL, PCdoB, PSTU, PCB, UP, PSB, PDT, Rede), partidos do “centro” (Cidadania, etc.), grupos de direita golpistas como o MBL e até “ex-aliados” de Bolsonaro, como Joice Hasselmann e Alexandre Frota.

Ora, nada temos contra encaminhar pedidos de impeachment ao Congresso, nem que estes pedidos sejam assinados pelos partidos que falam em nome da classe trabalhadora junto com partidos burgueses, golpistas, ex-bolsonaristas, o diabo e sua avó… e Kim Kataguiri! Mas, somos contra alimentar a falsa visão de que isto expressa a “unidade de ação” de todos os que estão pela derrubada de Bolsonaro. Neste momento, não há nenhum setor burguês importante que esteja pela saída de Bolsonaro antes das eleições de 2022. Até porque, os patrões estão satisfeitos com a política econômica de Guedes-Bolsonaro, que lhes tem garantido manter a até ampliar seus lucros durante a pandemia, às custas da piora das condições de vida e de trabalho da classe trabalhadora. Somos contra alimentar falsas esperanças de que o Congresso corrupto, controlado pelo Centrão aliado de Bolsonaro, vai ser o palco da derrubada de Bolsonaro. Isto só pode ser feito através de uma dura luta nas ruas e nas lutas. Esta é a lição das grandes revoltas populares no Chile e na Colômbia, com manifestações radicalizadas de milhões nas ruas, greves gerais, trancamento de rodovias, ocupações de terras, enfrentando a repressão policial, militar e paramilitar. E mesmo assim, apesar da força destes processos revolucionários, Piñera e Duque seguem instalados no poder, o que se deve principalmente à política das direções conciliadoras, que, assim como no Brasil, buscam manter a luta das massas nos limites dos calendários eleitorais e instituições parlamentares do regime democrático burguês.    

Os atos Fora Bolsonaro estão sendo colocados a reboque das articulações no Congresso, que visam “sangrar” Bolsonaro até as eleições de outubro de 2022, enquanto se articula a “verdadeira política”, a “frente ampla eleitoral” com os partidos e políticos burgueses. Esta política é aplicada pelas principais direções do movimento, a Frente Brasil Popular, hegemonizada pelo PT, e a Frente Povo Sem Medo, hegemonizada pelo MTST e pela direção do PSOL. Lula e Boulos são seus principais artífices. Lula vai paulatinamente se posicionando no centro das articulações políticas com os partidos e figurões do regime, costurando os pedaços decompostos das várias frações burguesas “democráticas”, impotentes diante da escalada autoritária do bolsonarismo, incapazes de apresentar uma candidatura própria do chamado “centro democrático”. Boulos lhe dá cobertura no flanco esquerdo, como principal articulador dos atos “Fora Bolsonaro”, canalizando assim a indignação do ativismo de esquerda para o “protesto democrático e pacífico” nas ruas.

A burocracia sindical da CUT, Força Sindical, CTB, UGT, Nova Central e demais centrais pelegas, por sua vez, permanece em home office, deixando a classe trabalhadora abandonada à própria sorte nos locais de trabalho.

O desemprego já atinge 21 milhões de brasileiras/os (soma dos considerados estatisticamente desempregados, 15%, e “desalentados”, 6%), e são mais de 33 milhões de “subutilizados”, cerca de 30% da população ativa que está desempregada ou vivendo de “bicos”. Os salários, já muito baixos, são arrochados pela inflação, cujos dados oficiais já atingem 9% anuais para as camadas mais pobres da população. A patronal, após a Reforma Trabalhista e a Lei das Terceirizações, avança agora sobre as Convenções Coletivas de Trabalho das categorias mais organizadas, enquanto impõe a “lei do cão” sobre as trabalhadoras e trabalhadores precarizados, terceirizados, temporários, “uberizados”, etc. Os altos preços dos aluguéis e a interrupção do projeto Minha Casa, Minha Vida vêm jogando um número crescente de pessoas nas ruas, sem teto. As privatizações ameaçam os trabalhadores da Eletrobras e dos Correios, e a Reforma Administrativa visa a acabar com a estabilidade do funcionalismo público. A “carta branca” de Bolsonaro e seus generais para o avanço do garimpo, das madeireiras e do agronegócio sobre a Amazônia leva a uma verdadeira guerra de extermínio contra as populações indígenas, ribeirinhas e povos da floresta. A violência policial, que cresce sem parar nas periferias, favelas e quebradas, é um suplício cotidiano contra a juventude negra e suas famílias.

Diante destes tantos flagelos que nos massacram cotidianamente, os protestos “Fora Bolsonaro” aos sábados na Avenida Paulista ou nos centros das grandes capitais aparecem aos setores mais explorados e oprimidos do proletariado como uma luta muito distante e descolada de seus sofrimentos e reivindicações imediatas. Isto é o que explica a quase ausência destes setores nas manifestações, hegemonizadas pelas camadas médias, estudantes universitários, funcionários públicos, ativistas de esquerda, sindicalistas e dirigentes de movimentos sociais.

É decisivo incorporar as massas trabalhadoras, o povo pobre das periferias e os povos do campo e das florestas à luta pelo Fora Bolsonaro. Só assim, teremos um verdadeiro movimento de massas capaz de expulsar Bolsonaro e seus generais do poder, e, ao mesmo tempo, impor uma derrota duradoura ao bolsonarismo como movimento político reacionário, militarista e fascista. Para isso, é necessário um programa que unifique a luta pelo Fora Bolsonaro com as reivindicações mais imediatas do povo pobre e trabalhador:

  • Contra as demissões, em defesa dos empregos.
  • Pagamento integral dos salários, com reajuste mensal.
  • Contra a fome: Auxílio de 1 Salário Mínimo para todas e todos necessitados.
  • Quebrar as patentes para garantir vacina para todos.
  • Recursos para o SUS: remédios, UTIs e mais funcionários.
  • Contra a Reforma Administrativa, em defesa da estabilidade do funcionalismo público.
  • Ocupação de terras para moradia nas cidades e para a reforma Agrária no campo.
  • Demarcação imediata das terras indígenas e quilombolas.
  • Contra a violência policial, em defesa das liberdades democráticas e dos direitos dos oprimidos.
  •  Suspensão do pagamento da dívida aos banqueiros e especuladores.

Todavia, um programa que unifique a luta pelo Fora Bolsonaro com as reivindicações da classe trabalhadora jamais será apoiado pelos patrões. Não há como fazer “unidade de ação” com os partidos e políticos burgueses em torno a este programa de luta. Por isso, as direções que constroem a “frente ampla” com a burguesia ignoram as reivindicações da nossa classe e se recusam a mobilizá-la a partir dos locais de trabalho, para manter uma falsa “unidade de ação” com a burguesia em torno de uma política de “Fora Bolsonaro” dentro das regras parlamentares e eleitorais do regime. Ou seja, “fora” Bolsonaro, mas só nas eleições de outubro de 2022.   

Por isso, a construção de um movimento Fora Bolsonaro nas ruas e nas lutas tem que estar combinada com o combate à política de “frente ampla com a burguesia” aplicada por Lula, Boulos e a burocracia sindical. É preciso levantar uma política de independência de classe para apontar uma saída revolucionária e socialista de poder operário, popular e camponês: um Governo da Classe Trabalhadora, sem patrões.

É decisivo, portanto, a construção de uma Frente de Luta Classista e Socialista que unifique as/os ativistas que defendem a luta direta e a independência de classe diante da burguesia. Esta é uma tarefa a ser tomada pelas organizações, correntes e partidos que se apresentam como alternativas ao PT e à direção do PSOL, como o PSTU/CSP-Conlutas, as correntes da esquerda do PSOL, a Intersindical, os grupos que se articulam no Bloco Combativo, os coletivos feministas, antirracistas, LGBTQIs, dos povos originários e outros que buscam uma política de luta de classes e não de conciliação com a burguesia.

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