Reflexos da pandemia: escancarando a realidade do “empreendedorismo” e das mulheres periféricas

por Walk B.

Desde o início da pandemia, nós da classe trabalhadora temos sido expostos a todo tipo de violência. Uma das maiores é a impossibilidade de se proteger do contagio por falta de garantia financeira e meios de subsistência. 

No setor de eventos nós, mulheres, somos a maioria. De todas as idades, atuamos como assessoras, produtoras, recepcionistas, técnicas, faxineiras. O setor foi um dos primeiros a parar, pois tem em si a característica de aglomeração. Contratadas informalmente, temos em cada dia de trabalho a única fonte de sustento para nós e nossas famílias.

Segundo a ASN– Agência Sebrae de Notícias acontecem anualmente 590 mil eventos no Brasil. São 1600 eventos por dia, que movimentam 936 bilhões de reais por ano, o que corresponde a 12,93% do Produto Interno Bruto brasileiro.  Os grandes empresários de Hotelaria e Transporte ficam com a maior fatia, mas a mão de obra é operária, cerca de 25 milhões de empregos (diretos e indiretos). 

Uma dessas trabalhadoras sou eu, Walkyria, moradora da periferia do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, que há quatro anos atrás, depois de ter sido usurpada por um empregador, investi tudo que tinha no sonho do “empreendedorismo” como produtora na área de serviços de eventos. À frente de uma empresa de pequeno porte para locação de equipamentos audiovisuais, segui prestando serviços em grandes eventos corporativos, simpósios e congressos em todo Brasil, até março de 2020, quando o setor parou. 

Eu e toda a cadeia que me rodeava nos vimos literalmente sem condições de nos manter. Passamos a viver da ajuda de associações de bairro e da prestação de serviços ainda mais precarizados, se expondo ao contágio crescente da Covid-19. Nós, mulheres das comunidades periféricas, nos juntamos para prestar assistência umas as outras como podíamos, com alimentação e socorro aos que foram se contaminando. A tragédia do desemprego se somou à contaminação de pessoas próximas e, inclusive, tive de enfrentar a morte de minha mãe por Covid-19 em julho de 2020. 

Depois de muitos mortos e inúmeras pessoas contaminadas, o governo publicou em 02 de Abril de 2020 a liberação do auxílio emergencial. O sistema online de cadastramento foi só o primeiro obstáculo para nós aqui da base, pois a grande maioria teve dificuldade em se cadastrar, além dos muitos que se enquadravam nas normas para o recebimento do auxílio terem ficado de fora. 

A mim o auxilio emergencial foi negado, apesar de me enquadrar nas normas para o recebimento. Os R$ 600,00 obviamente não suprem as necessidades de uma família, mas teria sido de grande ajuda, já que me contaminei ao cuidar de minha mãe e por isso não pude me engajar em atividades que cresceram com a pandemia, como a venda ambulante de máscaras, bolos, etc.

As sequelas deixadas pela Covid-19 apareceram rapidamente em mim. A principal delas foi a ansiedade, o medo e incerteza do que virá. Os cuidados e acompanhamento dos profissionais do posto de saúde da minha região foram muito importantes e, apesar do desmonte crescente da saúde pública, foi a ele que pude recorrer.

Depois de tanto tempo sem trabalhar e sem receber nenhum tipo de auxílio do governo, em Fevereiro deste ano, em meio ao aumento de mortes e contágio, precisei me submeter a prestação de serviço temporário em uma fábrica de salgados, onde a maior parte da mão de obra é composta por mulheres que necessitam garantir alimentação, gás de cozinha, pagar as contas de energia elétrica e água que não pararam de subir desde o início da pandemia. Infelizmente, não temos alternativa e somos obrigadas a nos arriscar. Ou morremos de fome ou morremos de Covid.

No mês em que lembramos das lutas e conquistas das mulheres trabalhadoras, nada temos para comemorar. Já são mais de 295.000 mortes pelo Covid-19 (no momento que escrevo este  texto, até a publicação, infelizmente será maior) e a única certeza que temos é que o transporte público está lotado de mulheres que seguem trabalhando para enriquecer seus patrões, planejamento real para vacinação inexiste, funcionários da saúde e educação sendo oprimidos pelo medo das regras que são impostas pelos governos, e nada de auxílio aos milhares de desempregados, nem nenhum vislumbre de recolocação no mercado de trabalho. 

Os patrões só estão preocupados com a seus lucros e pedem a abertura do comércio, sem levar em conta as  condições de saúde dos funcionários, os salários estão ainda mais precarizados, as exigências cresceram. É cruel a  condição em que nos encontramos neste momento, todos nós, mas sobretudo as mulheres que, como de costume, tomam para si as questões práticas do cotidiano, como cuidados com a higiene, bem estar físico e mental das crianças e idosos, etc. Enfrentamos na periferia a violência, que segue crescente contra nós e nossos filhos, que são presos injustamente pela polícia. Enquanto isso, os negacionistas, incentivados pelo governo genocida de Bolsonaro, seguem promovendo festas clandestinas, não usando máscaras e colocando em risco milhares de pessoas.

Infelizmente, muitas de nós, mulheres trabalhadoras, sem ter outra escolha, seguimos nos aglomerando nos transportes públicos e locais de trabalho, expondo nossas vidas ao vírus, por questão de necessidade… e por tão  pouco! O saldo negativo é grande como temos visto, e o momento serve para lembrarmos que muito ainda temos que avançar em nossas lutas por direitos básicos, pela vida.

2 comentários em “Reflexos da pandemia: escancarando a realidade do “empreendedorismo” e das mulheres periféricas

  1. Excelente posicionamento, melhor não há. A situação das mulheres piorou muito em todos os sentidos com o advento da pandemia. Apenas evidenciou mais o contexto histórico vivido nos séculos passados em relação a desigualdade social.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s