As lições da revolta antirracista nos Estados Unidos

Ian Felippe

A História e trajetória do povo negro dos Estados Unidos é marcada por revoltas populares. No início da década dos anos 1960, o mundo assistiu as marchas históricas lideradas por Martin Luther King em defesa dos direitos civis. Em 1965, os Tumultos de Watts, em Los Angeles, marcou um dos levantes populares mais severos já ocorridos até então. Os distúrbios resultaram em 34 mortes, 1032 feridos, 3438 prisões e mais de 40 milhões de dólares em danos materiais. O assassinato de King, em 4 de Abril de 1968, também gerou uma comoção e revolta popular imediata em diversos estados americanos, superada em participação popular e impacto social e econômico somente com o atual levante em memória de George Floyd.

Fruto da resistência negra que ecoou naquele período, em 1966, surge o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. O partido socialista e revolucionário, fundado por Bobby Seale e Huey Newton, atuou até meados de 1982 em bairros negros como patrulha armada para monitorar a ação da polícia. Atualmente, alguns militantes organizados buscam resgatar esta experiência e os novos Panteras Negras já foram vistos nos protestos recentes.

Já início da década de 1990, novamente em Los Angeles, após uma série de injustiças ocorridas, sobretudo com a absolvição da assassina de Latasha Harlins e dos policiais que espancaram Rodney King, distúrbios populares tomaram conta de uma das cidades mais famosas do mundo. Com palavras de ordem “Sem Justiça, Sem Paz”, que também ecoaram nas manifestações contra a morte de Floyd, milhares tomaram às ruas no final de Abril de 1992. Saques, assaltos, incêndios, assassinatos e danos materiais ocorreram, causando cerca de US$ 1 bilhão de prejuízo. Ao todo, 53 pessoas morreram durante os tumultos e milhares ficaram feridas.

Diante destes fatos históricos e importantes, semelhantes em vários aspectos, para compreendermos a realidade do povo negro dos Estados Unidos e sua organização, a primeira grande lição que devemos tirar da luta antirracista nos EUA e do recente levante contra o assassinato de George Floyd, é que apesar de tantas lutas e revoltas, o Estado capitalista, a serviço dos interesses da classe dominante, continua reproduzindo, incentivando e semeando o racismo. E mesmo assim, as poucas conquistas que tiveram, como a imediata vitória em Minneapolis com a extinção da policia local, foram fruto da mobilização e da luta nas ruas e não de reformas através do parlamento. Lembremos que são os negros e negras norte americanos que estão sendo as principais vítimas da Covid-19 e do desemprego, que hoje atinge mais de 16% da classe trabalhadora. Além disso, também continuam sendo o principal alvo da truculência policial, como revelou o assassinato de George Floyd.

A segunda lição é que a solidariedade de classe é fundamental na luta contra o racismo e todo tipo de opressão. A revolta de Minneapolis que se expandiu aos quatro cantos dos Estados Unidos, mostrou a força que tem a união dos povos. A participação de jovens negros, latinos, judeus, muçulmanos, brancos, asiáticos, indígenas, etc, em sua maioria trabalhadores e trabalhadoras, numa unidade multirracial nos protestos de rua, fortalecem a resistência contra o preconceito, a xenofobia e o racismo em suas variadas formas, tão agudas no atual período histórico e de crise econômica mundial do sistema capitalista.

A terceira lição que devemos tirar é que é necessário resgatar os métodos de luta da classe trabalhadora, como a autodefesa, greves, ocupações e a solidariedade ativa numa luta anticapitalista contra o racismo. A recente greve unificada de trabalhadores e trabalhadoras da Amazon e outros serviços de entrega online, a greve de trabalhadores e trabalhadoras do McDonalds por melhores condições de trabalho e salários, a paralisação dos trabalhadores de transporte de ônibus que se recusaram a levar os presos das manifestações antirracistas e a paralisação dos portuários no dia 19 de Junho, data em que os negros e negras norte americanos comemoram a libertação dos negros escravizados do Texas e demais estados confederados do sul dos Estados Unidos, fortalecem a classe trabalhadora para se enfrentar contra as péssimas condições de vida no capitalismo e avançam na compreensão de como o racismo é parte integral dessa estrutura econômica que devemos por abaixo para então construir uma sociedade socialista, livre da exploração e da opressão racista.

Por fim, os exemplos vindos dos Estados Unidos de auto-organização da classe trabalhadora a partir dos processos da luta antirracistas, como a criação da Zona Autônoma de Capitol Hill, comuna internacional com 300 residentes localizada no prédio abandonado pelo Departamento de Polícia de Seattle, nos mostram que é possível construir um novo tipo de sociedade organizada pelos trabalhadores e para os trabalhadores.

[Imagem: A Zona Autônoma de Capitol Hill, também conhecida como a Zona, Free Capitol Hill, ou CHAZ, foi uma comunidade intencional autodeclarada e comuna de cerca de 300 residentes, que cobre aproximadamente dez quarteirões no bairro de Capitol Hill, em Seattle, Washington, no noroeste dos Estados Unidos.”]

(Artigo publicado originalmente na Revista Internacional nº 1, de outubro/2020, publicação da CTR e do GOI)

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