A maior crise no coração do imperialismo

Wiliam Felippe

“Diremos a verdade como é, sem pedir desculpas: os Estados Unidos da América são o país mais justo e excepcional que já existiu na Terra”. Com esta frase, Donald Trump comemorou o dia da Independência do país, no passado 4 de julho.

Suas palavras não passariam de mais uma exaltação ao capitalismo ianque, saída da boca de um dos seus magnatas, e não mereceriam maiores comentários, não fosse por um detalhe: milhões de pessoas em todo o mundo acreditam nelas. Sobretudo as gerações nascidas nos anos 1990, que não conheceram outra forma de organização da sociedade que não a capitalista, desde que os países “socialistas” foram varridos do mapa pelas revoluções antiburocráticas na URSS e no Leste Europeu e o capitalismo foi restaurado nestes países, assim como na China e em Cuba.

É difícil não concordar com Trump quanto ao caráter “excepcional” do capitalismo estadunidense. Pesquisemos ao acaso no Google sobre “o poder dos Estados Unidos”. No site “Brasil Escola/UOL”, bastante utilizado pelos estudantes brasileiros, encontraremos o seguinte: “Estados Unidos é a única nação a acumular a liderança no poderio industrial, militar, financeiro, nuclear, estratégico e cultural. (…) com um PIB que corresponde a cerca de um quinto da riqueza mundial, com um poder de consumo extremamente alto e com um poder de investimento muito acima dos demais, os Estados Unidos seguem soberanos na liderança política da Nova Ordem Mundial”.

O imperialismo estadunidense segue afirmando seu domínio sobre o conjunto das nações do planeta. E a imagem de um paraíso sem igual de “oportunidades” e “democracia” para tod@s é o que permite a Trump louvar os Estados Unidos como o país “mais justo” da face da Terra.

Porém, estas “verdades” aparentemente inquestionáveis têm sido colocadas à prova nos últimos meses, desde que os Estados Unidos se tornaram o epicentro da crise pandêmica e econômica que abala o capitalismo mundial. Em nenhum outro lugar a crise tem se demonstrado mais catastrófica do que no país de Trump. O assassinato de um jovem negro por um policial branco em Minneapolis iria desencadear também o maior movimento de massas contra o racismo desde os anos 60, colocando em xeque o mito da “democracia americana”. 

Campeão de mortes e infecções pelo coronavírus

Nos Estados Unidos é onde a pandemia do Coronavírus está sendo mais letal:  com mais de 160 mil mortos e quase 5 milhões de infectados (no momento em que escrevemos este artigo), o que corresponde a cerca de ¼ das infecções e mortos de Covid-19 no mundo.

A humanidade não sofria uma pandemia das proporções do Coronavírus desde a gripe espanhola (cujos primeiros casos foram detectados nos Estados Unidos), que em apenas dois anos (1918-1919) estima-se que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, superando em muito os 10 milhões de mortos na Iª Guerra Mundial (1914-1918). Este conflito armado entre as nações mais poderosas do globo foi considerado por Lenin como um marco do início da decadência do capitalismo, a época do imperialismo, que seria marcada por guerras e revoluções. Contudo, talvez seja preciso acrescentar: época de guerras, revoluções e doenças, e destacar a pandemia da gripe espanhola também como um marco da época imperialista, pois as mortes de milhões por doenças contagiosas têm escrito um dos capítulos mais cruéis da agonia mortal do capitalismo nos últimos cem anos. As cifras são contundentes, e citaremos apenas algumas. Só nos últimos dez anos, a Organização Mundial de Saúde (OMS), declarou seis situações de Emergência de Saúde Pública por conta de doenças com potencial pandêmico, como H1N1, ebola e zika. O vírus HIV matou 32 milhões de pessoas, desde que a AIDS foi diagnosticada, em 1981. Outros milhões são vítimas de mortes silenciadas causadas por doenças para as quais há muitos anos já existem remédios e vacinas, como a malária (que só no ano passado contaminou 228 milhões e matou 405 mil pessoas no mundo), ou o sarampo (140 mil mortos em 2019), ou a tuberculose (média de 1,8 milhão de mortos por ano), entre outras. O capitalismo em decadência conseguiu a proeza de, no último século, realizar um avanço sem par da Ciência médica e farmacológica, ao mesmo tempo em que as doenças seguem matando milhões em todo o planeta.

Esta contradição fatal entre o avanço da Ciência e o avanço da morte tem neste momento seu melhor exemplo nos Estados Unidos. O que explica que no país mais rico do mundo, que tem ao seu dispor todos os meios e recursos da Ciência e da produção, é onde ocorre o maior número de vítimas da Covid-19? Vejamos o que diz a BBC News, um dos mais importantes meios de comunicação imperialistas, sobre a situação dos trabalhadores e trabalhadoras diante da pandemia:

“(…) não existe no país uma lei federal que obrigue empregadores a oferecer licença médica, muitos funcionários precisam escolher entre trabalhar doentes ou ficar sem salário — ou até mesmo perder o emprego. Além disso, sem um sistema público de saúde, muitos não têm cobertura e evitam ir ao médico por medo dos altos custos (…) Entre os países ricos, os Estados Unidos se destacam por serem um dos únicos que não oferecem a seus trabalhadores benefícios como licença médica, férias remuneradas ou licença maternidade. Como esses benefícios não estão previstos em lei federal, a decisão fica a cargo do empregador (…) Cerca de 40% dos trabalhadores no setor de serviços e quase 60% dos que trabalham em meio período não têm licença médica (…) 27 milhões de pessoas nos Estados Unidos não têm seguro de saúde, segundo dados do Censo americano, e o país não tem um sistema de saúde universal gratuita. Entre os que têm plano de saúde, muitas vezes a cobertura é limitada e exige alto percentual de co-pagamento. Em um dos casos, relatado pelo jornal The New York Times, um americano contou que ele e sua filha haviam sido evacuados de Wuhan, epicentro do coronavírus na China, pelo governo americano e colocados em quarentena, o que incluiu alguns dias em isolamento em um hospital. Apesar de a hospitalização ter sido ordenada pelo governo – e de não terem sido diagnosticados com o vírus -, ele recebeu uma conta de quase US$ 4 mil (mais de R$ 18 mil) por serviços de ambulância, médicos e radiologista”.

Estas informações evidenciam que os milhões de infectados e milhares de mortos pela Covid-19 nos EUA, na sua quase totalidade trabalhadoras e trabalhadores mais pobres, na sua esmagadora maioria negras e negros e latinos, estão sendo vítimas de um verdadeiro genocídio causado pelas péssimas condições de trabalho e de vida a que estão submetidos pela exploração dos capitalistas, que os impede de ter acesso aos enormes recursos da medicina concentrados no país mais rico do planeta.

Destruição em massa de empregos

Ao extermínio de vidas proletárias pela Covid-19, veio se somar a destruição vertiginosa dos empregos. Em março deste ano, quando o índice de desemprego no país era de apenas 3,5% (o menor em cinquenta anos), Trump comemorou no Twitter: “Empregos, empregos, empregos!”. Esta realidade desmoronou em apenas dois meses: em maio, o desemprego saltou para 14,7%, o maior índice dos últimos setenta anos. Em poucas semanas, foi destruído o dobro de empregos criados nos últimos dez anos, desde a recessão de 2008-2009. E, obviamente, os mais atingidos pelo desemprego são os setores oprimidos: 18,9% entre os hispânicos, 16,7% entre os negros e negras, enquanto entre os brancos o índice é de 14,2%. Desde março, mais de 50 milhões de trabalhadoras e trabalhadores solicitaram o seguro desemprego, o equivalente a cerca de 1/3 da força de trabalho total. O seguro desemprego nos Estados Unidos não é garantido pelo governo federal e sim pelos estados, variando de 40% a 50% do salário pago, o que significa que cada desempregado receberá, em média, até 600 dólares por semana, a serem pagos por até 28 semanas (7 meses). Mas, e depois disso?

Desmoronamento da economia expõe o crescimento da pobreza

Trump (e todos os governos do mundo), a mídia e os economistas a serviço do capital respondem que a crise econômica foi causada pelo coronavírus e que a economia vai voltar ao normal com o fim da pandemia. A criação de 4,8 milhões de empregos em junho (menos de 10% do total de pessoas que pediram seguro desemprego), já foi suficiente para que o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, afirmasse que “Cada americano que perdeu seu emprego vai recuperá-lo”. Será?

Os prognósticos das autoridades econômicas sempre oscilam entre a incapacidade teórica da economia política burguesa de prever qualquer coisa e a mentira pura e simples. Um exemplo do primeiro tipo foi a “previsão” do FED, o Banco Central dos EUA, que no relatório anual sobre o estado da economia do país (o chamado “livro bege”), publicado em janeiro deste ano, afirmava que “As expectativas a curto prazo permanecem modestamente favoráveis em todo o país”. Porém, o PIB caiu 5% no primeiro trimestre e 32,9% no segundo trimestre (!), o pior índice desde a Grande Depressão da década de 1930. Já a “previsão” de retomada dos empregos feita pelo secretário Mnuchin não passa de uma deslavada mentira!

Antes de tudo, é preciso desmascarar a mentira de que a crise econômica foi causada pela pandemia do coronavírus. Apesar de que a economia dos Estados Unidos estava com quase pleno emprego em março deste ano, o crescimento do PIB se mantinha em patamares baixos (menos de 3% ao ano) desde a recessão de 2008-2009. A pandemia foi o detonador de uma crise aguda em um paciente (a economia capitalista) que já vinha com a saúde bastante abalada. As análises econômicas mais sérias preveem que mesmo para voltar aos anêmicos índices de crescimento de antes da crise, isso só ocorrerá dentro de três ou cinco anos. Nos últimos dez anos desde a última recessão esta dinâmica raquítica da economia capitalista já ficou evidente, com o crescimento do PIB não conseguindo alcançar os maiores níveis do ciclo de expansão anterior.

Ou seja, na melhor das hipóteses, a economia estadunidense (e por consequência, também a do mundo) seguirá estagnada nos próximos anos, e na pior hipótese, a recessão atual pode se transformar numa grave depressão econômica. Nenhuma das duas hipóteses é boa para a classe trabalhadora dos Estados Unidos e do mundo. Milhões seguirão no desemprego crônico e os que conseguirem recuperar o emprego receberão salários inferiores e piores condições de trabalho, a exemplo do que aconteceu após a crise de 2008-2009. Desde a década de 1970, os trabalhadores ficam mais pobres a cada crise cíclica do capitalismo.

A burguesia não se suicida

A situação dramática vivida pela classe trabalhadora com a combinação da crise econômica e pandêmica mostra que os Estados Unidos estão muito longe de ser “o país mais justo da Terra”, como apregoa Trump. Contudo, é preciso ainda completar este quadro, analisando a situação da outra classe, a classe capitalista.

Primeiro, em relação à pandemia. Obviamente, o “democrático” coronavírus não escolhe ricos e pobres para contaminar. Porém, a burguesia e os extratos superiores da pequena burguesia e da classe média estão protegidos da pandemia por sua condição de classe: não são obrigados a trabalhar, menos ainda nas condições inseguras que foram impostas à classe trabalhadora no interior das empresas e nos transportes públicos; seus lares luxuosos e suas fortunas permitem um isolamento social agradável; e caso sejam infectados, dispõem dos melhores recursos médicos que o dinheiro pode pagar.

Segundo, em relação à crise econômica. A crise de 1929 deixou no imaginário popular cenas de capitalistas jogando-se dos edifícios após o crash da Bolsa de Nova York. A Grande Depressão, que atravessou toda a década de 1930 e só terminou com o início da IIª Guerra Mundial, levou à falência de milhares de empresas e bancos. E é fato que alguns poucos capitalistas se suicidaram. Mas, na crise atual, as imagens que percorrem o mundo são outras. Especuladores da bolsa entusiasmados comemoraram a rápida recuperação dos valores das ações em maio e junho (apelidado de “o maior rally de 50 dias da história do S&P 500”), após o mergulho assustador ocorrido entre 19 de fevereiro e 23 de março, quando o índice da bolsa (S&P 500) perdeu um terço do seu valor. Fotos sorridentes de Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, dono da Amazon, não escondem sua felicidade por ter somado, desde janeiro deste ano, mais US$ 34 bilhões à sua fortuna pessoal, totalizando US$ 149 bilhões (segundo o índice de bilionários da Bloomberg). De acordo com um relatório elaborado por Chuck Collins e outros pesquisadores para o Institute for Policy Studies: “a riqueza dos bilionários norte-americanos na verdade aumentou quase 10% em apenas três semanas, exatamente quando começou a crise da COVID-19. (…) Pelo menos oito desses bilionários acrescentaram mais de US$ 1 bilhão à sua riqueza durante a pandemia.”

Ou seja, enquanto 50 milhões de trabalhadoras e trabalhadores perdiam seus empregos de uma hora para a outra e mais de 160 mil perdiam a vida vitimados pela Covid-19, os especuladores da bolsa recuperavam seus lucros em 50 dias e o capitalista mais rico do mundo quebrava todos os recordes de enriquecimento pessoal. Precisamos de prova maior de quanto é “justo” o capitalismo ianque?!

O relatório de Chuck Collins e seus colegas analisa também as diferenças nas perspectivas de recuperação econômica nos próximos anos para ricos e pobres, traçando um paralelo com o período posterior à crise de 2008: “a recuperação da pandemia sobrecarregará ainda mais nossas desigualdades de renda, riqueza e oportunidade. Já vimos isso acontecer antes, na recuperação da crise econômica de 2008. Uma recuperação que, para a maioria dos norte-americanos, nunca foi completa. (…) Apenas 20% dos lares dos EUA haviam recuperado completamente a riqueza que possuíam antes da Grande Recessão. Por outro lado, meus colegas e eu descobrimos que os membros da Forbes 400 – os 400 bilionários mais ricos dos Estados Unidos – conseguiram recuperar completamente sua riqueza em três anos. Dentro de uma década, a riqueza deles aumentou mais de 80%. (…) Na última crise, em 2008, resgatamos os bancos de Wall Street, mas não os proprietários de imóveis e as pequenas empresas que fecharam as portas nas ruas das cidades”.

Certamente, a crise atual vai deixar um rastro de destruição entre as pequenas e médias empresas e alguns grandes empresários talvez tenham de mudar de negócio. Todavia, as grandes corporações e os megaespeculadores capitalistas encontram-se protegidos por nada menos do que o próprio Estado, mais precisamente, pelos recursos públicos estatais, cuja fonte são os impostos pagos pelo conjunto da população. No caso dos Estados Unidos, acrescente-se também a capacidade do Estado de imprimir dólares, a principal moeda conversível do planeta, assim como de emitir treasuries (títulos do Tesouro), a mais segura forma de reserva monetária (junto com o ouro, pelo menos até agora).

Desde a crise de 1929, a burguesia ianque aprendeu uma preciosa lição: nos períodos de crescimento econômico devem prevalecer as ideias de Adam Smith: o Estado deve deixar que a “mão invisível do mercado” conduza livremente a sociedade em direção ao bem-estar social. Mas, nos períodos de crise, esta regra de ouro do liberalismo deve ser deixada em quarentena e substituída pelas ideias de John M. Keynes: a economia capitalista precisa ser salva pelos investimentos do Estado.

Na Grande Recessão de 2008-2009 as grandes corporações financeiras (JP Morgan Chase, Bank of America, Citigroup, etc.), seguradoras (AIG) e industriais (GM, Chrysler) dos Estados Unidos foram salvas da falência pelo Estado, através de investimentos a fundo perdido de recursos públicos que somaram cerca de US$ 7,4 trilhões. Estes fatos demonstraram que as grandes empresas capitalistas não conseguem sobreviver sem a ajuda do Estado. E para garantir esta ajuda trilionária aos grandes capitalistas e especuladores das bolsas (que se repete agora, dez anos depois) é preciso cortar ao máximo os recursos públicos destinados ao povo pobre e trabalhador através dos investimentos estatais na educação, saúde, moradia, alimentação, seguros contra o desemprego e acidentes de trabalho, etc. etc. Só para dar um exemplo, nos Estados Unidos são destinados para o seguro desemprego apenas 0,25% do PIB, menos do que os 0,30% destinados no Brasil (dados de 2017). A burguesia, como se vê, não passa de uma classe de parasitas.

Bilhões para os ricos e 1.200 dólares para o trabalhador

Na crise atual, Trump (e seu Partido Republicano), com a ajuda do Partido Democrata no Congresso, já providenciaram o derrame de US$ 2,2 trilhões dos cofres públicos, assim distribuídos: US$ 550 bilhões para as grandes empresas; US$ 350 bilhões para pequenas e médias empresas; um cheque único de US$ 1.200 para as para pessoas de renda baixa e média, mais US$ 500 por filho (o que totalizaria cerca de US$ 500 bilhões); US$ 150 bilhões para hospitais e outros prestadores de serviços de saúde privados. Ainda segundo o relatório de Chuck Collins e seus colegas: “As pessoas que ganham mais de US$ 1 milhão, no entanto, podem receber uma média de imposto do tipo windfall tax de US$ 1,6 milhão, segundo análise divulgada por dois congressistas” Estes números evidenciam a enorme desigualdade na distribuição de recursos públicos e que o estado está a serviço da salvação das grandes corporações e milionários capitalistas. A euforia dos especuladores da bolsa é financiada com o dinheiro do povo, enquanto milhões são jogados na miséria, na doença e no desemprego.  

Já o megacapitalista Jeff Bezos, além dos recursos públicos que abocanhou, e do crescimento do comércio online durante a pandemia, foi beneficiado, sobretudo, pelo aumento desenfreado da exploração dos funcionários da Amazon. Em um Manifesto divulgado em março, estes denunciam: “Enquanto a pandemia de Corona já matou milhares de pessoas e matará muito mais, os armazéns da Amazon continuam operando 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os governos de todo o mundo ordenam o distanciamento social, mas ao mesmo tempo obrigam os trabalhadores a continuar trabalhando. (…) De fato, a Amazon obriga os trabalhadores a se arriscarem a se infectar e a levar o vírus para casa em nossas famílias, permitindo sua disseminação. (…) Protestamos contra a tentativa da empresa de lucrar com essa crise, colocando em risco nossa saúde. Protestamos na Polônia e na Espanha, entramos em greve na Itália, na França e em Nova York.”. São inúmeros os casos de Covid-19 ocorridos na Amazon, e diante da irresponsabilidade da empresa, os próprios trabalhadores foram obrigados a formar comissões para identificar os armazéns infectados e denunciar às autoridades sanitárias. Para “compensar” os riscos, Bezos ordenou o pagamento de um adicional de US$ 2 por hora nos salários (que são de US$ 15 por hora para os trabalhadores de armazéns), durante os primeiros meses da pandemia, mas este “benefício” já foi cortado no mês de junho. Estas denúncias dos trabalhadores da Amazon foram acompanhadas de várias lutas e protestos, o mais importante deles ocorrido no dia 1º de maio passado, quando fizeram uma histórica greve nacional junto com trabalhadores precarizados da Walmart, FedEx, Instacart, Whole Foods e Target.

“Justiça por George Floyd”: a queda do mito da democracia ianque

Quando a crise pandêmica e econômica já mostrava ao mundo a verdadeira face exploradora do capitalismo estadunidense, um novo fato iria contribuir para derrubar outro mito do país “mais justo” de Trump: o mito da democracia americana. No dia 25 de maio, na cidade de Minneapolis, George Floyd, trabalhador negro de 40 anos, era covardemente assassinado a sangue frio por um policial branco. Esta ação policial corriqueira de repressão ao povo negro e pobre iria desencadear as maiores mobilizações desde a década de 1960, quando se combinaram duas grandes lutas nos Estados Unidos: a rebelião contra o apartheid social e pelos direitos civis dos negros e negras e os protestos contra a guerra do Vietnã. Durante mais de duas semanas, milhões de pessoas, com a juventude negra à frente unindo latinos, árabes, povos originários e brancos, marcharam nas ruas de cidades por todo país exigindo “Justiça para George Floyd” e denunciando o caráter racista da polícia e da “democracia americana”. Os Estados Unidos já não eram apenas o epicentro da crise pandêmica e econômica, mas também o centro da luta de classes mundial.         

Esperança socialista versus bunkers do apocalipse

No início de 2019, uma pesquisa do Instituto Gallup indicava que a maioria (51%) dos jovens estadunidenses têm uma “visão positiva” sobre o socialismo. Este “socialismo” expressa, antes de mais nada, o anseio dos jovens por mais e melhores empregos, acesso de todos à Saúde e Educação públicas, um mundo menos poluído, uma sociedade mais igualitária e menos racista, machista, lgbttfóbica e xenófoba. Estes sentimentos alimentam a ala esquerda do Partido Democrata, e projetam socialistas reformistas como Bernie Sanders, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e a vereadora de Seattle, Kshama Sawant. E, mais importante, estão na base da luta de organizações como o Black Lives Matter e dos protestos e greves dos jovens trabalhadores precarizados, como os funcionários da Amazon e outras empresas. Os sentimentos socialistas da juventude foram o combustível que ajudou a incendiar as ruas nos protestos antirracistas de maio-junho.

A juventude estadunidense certamente não concorda com Trump que seu país é o “mais justo que já existiu sobre a Terra” e está disposta a lutar por um país melhor. Que os jovens antevejam suas esperanças de mudança não no “american way of life” (modo de vida americano) capitalista, mas numa perspectiva socialista é uma grande ameaça para a burguesia da nação imperialista dominante no planeta.

Prova disso é um curioso investimento que tem obcecado os bilionários ianques nos últimos anos, revelado num artigo recente do jornal El País, intitulado “Bilionários se preparam para o fim da civilização”:

“A crise do coronavírus, juntamente com a ameaça do terrorismo e da mudança climática, aumentou o medo das classes privilegiadas e cada vez mais pessoas apostam em estar preparadas para um possível apocalipse, disparando rapidamente a demanda por bunkers e refúgios. De Vale do Silício a Wall Street, passando por Marbella, é assim que os ricos estão se preparando para o fim do mundo. (…)”. Dance Vicino, diretor-executivo da The Vivos Group, uma das empresas líderes na construção de redes de refúgios subterrâneos, explica assim esta nova demanda dos ricaços do mundo: “As pessoas sentem que o inferno está chegando, da Coreia do Norte e do Oriente Médio até uma potencial Terceira Guerra Mundial com a Rússia e a China”, afirma, adiantando também futuras “pragas, asteroides ou o colapso econômico total”.

Por trás de seus sorrisos e de sua euforia, o 1% de magnatas das Amazon, Microsoft, Google, Facebook, General Motors, Tesla, Nike, JP Morgan, Exxon, WalMart e outras megacorporações dos Estados Unidos esconde o seu terror diante da decadência inevitável de seu sistema de exploração econômica e opressão social e política.

De nossa parte, estamos convictos de que o pessimismo dos imperialistas com seus bunkers do apocalipse será vencido pela esperança socialista que está sendo construída nas lutas da juventude proletária dos Estados Unidos e de todo o mundo.

[Imagem: O sonho americano está acabado. Reuters]

(Artigo originalmente publicado na Revista Internacional nº 1, outubro/2020, publicação conjunta da CTR e do GOI))

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