Solidariedade S/A: “Caridade de Espetáculo” versus Solidariedade Proletária

Por Sandra Fortes

Em tempos de pandemia do Coronavírus, que já matou milhares de trabalhadoras e trabalhadores, negr@s, imigrantes, e de brutal crise econômica, que já desempregou milhões no Brasil e no mundo, a Lei Geral da Acumulação Capitalista, de Karl Marx, está desenhada na realidade:

“Quanto maior a produtividade maior a acumulação, maior a acumulação de riqueza e ao mesmo tempo acumulação de miséria. Nas mesmas condições em que se produz riqueza, produz-se também a miséria, nas mesmas condições em que se processa o desenvolvimento da produtividade, desenvolve-se um cenário de condições que só geram riqueza para a burguesia.” (O Capital).

São inúmeras as distorções impostas pelo capitalismo. De um lado, mansões e conforto para uma pequena família de burgueses, com no mínimo um quarto para cada uma das pessoas que nela habitam.  De outro lado, barracos minúsculos, sem saneamento. De um lado, as entregas por aplicativos de alimentos e produtos, de outro, panelas e pratos vazio e inúmeras bocas sem ter o que comer. De um lado, bairros ricos, vazios, cumprindo a quarentena em casa. De outro, bairros pobres, população espalhada pelas ruas, trabalhando, pegando transporte coletivo lotado, procurando trabalho, comprando o que precisa, buscando na rua a solução dos inúmeros problemas que enfrenta dentro das pequenas casas.

O “auxílio emergencial” do governo Bolsonaro, que só faz desaforos com a classe trabalhadora, não dá pra quase nada. Se faz compras com ele, não sobra grana para o aluguel, se paga o aluguel não paga as contas.

Segundo o Dieese, o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 4.673,06, em abril. O valor é 4,47 vezes o salário mínimo em vigor no mês passado, de R$ 1.045. O valor é 7,7 vezes o auxílio emergencial chorado do governo Bolsonaro, que já anunciou que vai diminuí-lo nos próximos meses. É nítido aqui que o objetivo do governo e empresários é matar uma parte da classe trabalhadora de fome, enquanto meia dúzia de burgueses seguem enriquecendo.

A classe burguesa, além de parasita, é dissimulada. Tem consciência e teme que “as vítimas da fome” se coloquem de pé, e tomem as riquezas que produziram e produzem e à qual não têm direito, pois as mesmas lhes são roubadas: alimentos, vestuários, calçados, remédios, eletrodomésticos, eletrônicos, transportes, moradias.

Quanto maior a crise, o desemprego e a falta de perspectiva, mais próxima está a classe trabalhadora de uma revolução para solucionar seus graves problemas imediatos. Pois a burguesia e seus governos só fazem aumentar o abismo entre ricos e pobres. É muita miséria em meio a tanta riqueza!

A burguesia sabe disso! Tem no seu interior pessoas que estudam a história e sabem que este foi o motivo de todas as revoluções. Inclusive da própria burguesia contra os senhores feudais.

É bem neste momento que a burguesia, que já inventou inúmeras formas de aumentar a exploração sobre a classe trabalhadora, fazendo- a produzir mais e mais por salários e direitos cada vez menores, reúne a mídia burguesa para apresentar o espetáculo da SOLIDARIEDADE S/A.

Tod@s nós sabemos que S/A, sociedade anônima, é coisa de empresas. Por outro lado, “solidariedade” é coisa de trabalhador@s, praticamos cotidianamente entre @s mais necessitad@s: dividir o pão, dar um prato de comida, fazer uma vaquinha pra comprar um gás pra vizinha que ficou sem, cuidar do filho da amiga que vai trabalhar, dar uma carona para o hospital, carregar uma sacola pesada de uma senhora que leva as compras pra casa, socorrer uma família que ficou sem casa na enchente, contribuir para o fundo de greve da categoria que lutou e ficou sem salário. A vida d@s pobres é repleta de ações solidárias, sem as quais muitos de nós sequer estaríamos vivos. Uma das grandes expressões de solidariedade de classe que experimentamos são as greves!

Não é à toa que se recorrermos ao dicionário encontraremos: “Solidariedade é um ato de bondade e compreensão com o próximo ou um sentimento, uma união de simpatias, interesses ou propósitos entre os membros de um grupo. Cooperação mútua entre duas ou mais pessoas. Identidade entre seres. Interdependência de sentimentos, de ideias, de doutrinas.” (Wikipedia).

Portanto, a burguesia que rouba nosso trabalho, rouba as riquezas que produzimos, rouba nosso direito a uma vida digna, rouba nossos sonhos, rouba as vidas da nossa classe para ficar cada vez mais rica, agora rouba a SOLIDARIEDADE praticada entre nós, acrescentando o seu “S/A”. São empresas, portanto burguesas, e é a hora do show! Nomes, marcas, cifras milionárias numa encenação de preocupação com a Covid19 e a fome, enquanto trabalhadoras e trabalhadores destas mesmas empresas trabalham sem condições de segurança, se expõem ao vírus, se contaminam, contaminam familiares, morrem, porque a produção dos lucros não pode parar

Esta classe de parasitas que se nutre do suor e sangue da classe trabalhadora nunca será solidária, porque nos rouba! Nunca será solidária, porque nos mata!

O espetáculo promovido nas TVs, rádios e jornais tem um único objetivo: enganar uma parte da nossa classe. Fazer com que esta classe pense: “Como são bondos@s @s don@s da Vale, da JBS, da AmBev, da Hering, do Itaú…”.

Um dos casos gritantes desta “caridade de espetáculo” é a JBS, uma das maiores redes de frigoríficos do mundo, dona da marca Friboi, de propriedade dos famosos Joesley e Wesley Batista, dois dos dez homens mais ricos do Brasil. Encabeçando a “Solidariedade S/A”, a JBS anunciou a doação de 700 milhões de reais. Enquanto isso, manteve os frigoríficos do Paraná, Rondônia e de outros estados funcionando a todo vapor, com trabalhadoras e trabalhadores confinados em baixas temperaturas, sem proteção para o Coronavírus, com um número altíssimo de contaminados, tendo unidades interditadas e fechadas por falta de condição de funcionamento. O salário mensal médio pago pela JBS a um/a Auxiliar de Fábrica é de cerca de R$ 965.

Vamos chamar esta campanha burguesa de “Caridade de Espetáculo” para tentar impedir a luta da classe trabalhadora.  Lucram tanto, que somos incapazes de calcular! Mas, toda a campanha, até agora, arrecadou 5 bilhões de reais. Embora aparentemente seja uma soma muito grande para cada um de nós individualmente, para estes capitalistas são migalhas, que podem dispor sem ficar nem um bilhão mais pobres, fazer propaganda de suas empresas, abater nos impostos que já sonegam e com isso tentar evitar a revolução das vítimas da fome.

Para termos uma ideia do que os significam 5 bilhões de reais arrecadados pela Solidariedade S/A, basta constatar que ela não cobre sequer os gastos mensais do SUS, que são de cerca de R$ 20 bilhões (R$ 240 bilhões por ano).

São propagandas milionárias para encher os olhos daquelas e daqueles que se iludem com o capitalismo e acham que podem perfumá-lo. São cestas e doações, em forma de esmolas, para abaixar a cabeça d@s que começam a se preparar pra lutar. Para ocultar a falência do Estado burguês, incapaz de assegurar as mínimas condições de subsistência dos milhões de famintos e tratamento médico para @s que precisam. As doações da caridade de espetáculo são acompanhadas de lamentáveis selfies que humilham e não dignificam trabalhadoras e trabalhadores que recebem a doação.

Aqui chamamos a atenção para as campanhas de doações de alimentos e materiais de higiene, sem luta, feitas por militantes da esquerda, que se confundem com a caridade de espetáculo da burguesia e de políticos oportunistas preocupados com as eleições.

A Solidariedade S/A, está mais pra pilantragem para seguir lucrando, espetáculo para seguir explorando, licença para continuar matando.

A Solidariedade entre a classe trabalhadora é outra. Há inúmeras comunidades e favelas hoje se organizando para enfrentar a pandemia e a crise econômica e lutar por seus direitos. Se organizam, fazem o levantamento de como estão as famílias, fazem campanhas para buscar o necessário, desde a alimentação, material de higiene até o transporte, passando pela luta por direitos. Aqui destacamos o exemplo da Comunidade de Paraisópolis que se organiza e luta, tendo feito uma manifestação na porta do palácio do governo de São Paulo.

Esta organização que não pode se limitar a substituir o Estado burguês incompetente para a classe trabalhadora, vai dar experiência para organizar a revolução que a classe trabalhadora fará para derrubar o capitalismo e construir em seu lugar a sociedade socialista.

A solidariedade máxima no interior da classe trabalhadora é a organização e luta pela derrubada do capitalismo que explora, oprime e mata nossa classe. É a construção da Sociedade Socialista! Nela todos empregos, todos os produtos do trabalho, todas as riquezas, serão repartidas a cada uma e a cada um de acordo com o seu trabalho e suas necessidades. Toda a produção e todo o governo passam a ser controlados pelas trabalhadoras e trabalhadores. Na sociedade socialista ninguém com saúde e capacidade viverá sem trabalhar, portanto, a classe burguesa deixará de existir, deixará de nos explorar, oprimir e nos matar.

“Abomináveis na grandeza

Os reis da mina e da fornalha

Edificaram a riqueza

Sobre o suor de quem trabalha!

Todo o produto de quem sua

A corja rica o recolheu

Querendo que ela o restitua

O povo quer só o que é seu!

De pé, oh vítimas da fome!”

(A Internacional)

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