A esquerda em “home office”

Por Wiliam Felippe

Desde a adoção da quarentena e do isolamento social, por conta da pandemia de Coronavírus, a esquerda brasileira tem se submetido à campanha do “Fique em casa”, propagada pela burguesia e seus governos. Os sindicatos, movimentos, coletivos, partidos, a maioria das organizações do movimento da classe trabalhadora estão “longe das ruas”, limitando-se a fazer política pelas redes sociais, através de “lives”, reuniões, assembleias e petições online.  A máxima expressão desta política foi o 1º de Maio virtual organizado pela centrais sindicais majoritárias (CUT, Força Sindical, CTB, UGT, etc.) e pelo PT e PCdoB.

Esta suposta “luta em home office” é justificada pelas direções destas organizações como necessária para o combate à pandemia. Lula declarou em mais uma “live” que “se não fosse pela Covid-19, estaria nas ruas gritando Fora Bolsonaro!”. 

As medidas de isolamento social, adotadas em vários países, são cientificamente necessárias para controlar a disseminação do Coronavírus e deveriam estar sendo garantidas a toda a classe trabalhadora, o que não tem sido feito pelos patrões e seus governos.  Mas, isto para nada pode significar que as trabalhadoras e trabalhadores devem permanecer imobilizados em suas casas diante dos ataques que estamos sofrendo, causados pela incompetência dos governos para cuidar da crise sanitária e pela ganância dos patrões, que estão se aproveitando da crise para cortar mais ainda nossos empregos, salários e direitos.

É preciso lembrar a Lula, aos burocratas dos sindicatos e movimentos e parlamentares da esquerda domesticada que milhões de trabalhadoras e trabalhadores NÃO ESTÃO em isolamento social e saem de suas casas todos os dias para trabalhar, aglomerando-se nos ônibus, trens e metrôs (cujas frotas foram reduzidas), e sendo obrigados a trabalhar sem garantia das condições de proteção contra o vírus, correndo o risco de serem contaminados pela Covid-19 e contaminarem seus familiares que estão no isolamento. A parte da classe trabalhadora que está em isolamento social é também obrigada a viver aglomerada nos bairros proletários, como relatam os moradores de Paraisópolis, onde mais de 100 mil pessoas vivem em 21 mil casas.  Além disso, ao sair para fazer compras e abastecer suas casas, ir ao médico, ir às escolas para pegar e entregar trabalhos escolares, ir aos bancos para receber o “auxílio” de 600 reais, na maior parte dos casos enfrentando filas por horas e horas, trabalhadores e trabalhadoras também correm riscos de serem contaminados. A exploração do trabalho e a labuta diária em meio às péssimas condições de vida não deixaram de existir com a pandemia, pelo contrário, tornaram-se ainda mais dramáticas! 

É perfeitamente possível organizar protestos nos locais de trabalho e moradia, além de lutas de rua, adotando medidas de proteção aos manifestantes, como já está sendo demonstrado pela experiência de vários atos que vêm ocorrendo nas últimas semanas. 

O 1° de Maio foi realizado com manifestações de rua em vários países: Líbano, Áustria, Paquistão, Grécia, Turquia, entre outros. Atos de rua e assembleias nas portas de empresas ocorrem diariamente na Argentina e outros países. E também no Brasil. 

Trabalhadores e trabalhadoras de telemarketing e serviços de entrega por aplicativos vêm se manifestando desde o início da quarentena. As enfermeiras e enfermeiros manifestaram-se em Brasília no 1º de Maio, quando foram covardemente atacadas por bandos bolsonaristas, e voltaram às ruas em 12 de maio, Dia Mundial da Enfermagem. A manifestação de torcedores organizados do Corinthians que impediu um ato de bolsominions na Avenida Paulista, em 9 de maio. O ato dos Antifascistas em Porto Alegre, em 17 de maio, que também barrou os novos “galinhas verdes”, em frente ao quartel do IIIº Exército. E a corajosa passeata de moradores de Paraisópolis, que caminharam do bairro até o Palácio dos Bandeirantes, em 18 de maio. E outras que ocorrem pelo país afora. 

Por que, então, Lula e os burocratas sindicais e parlamentares que falam em nome da classe trabalhadora chamam o povo pobre e trabalhador a “ficar em casa”? A melhor resposta a esta pergunta veio da boca de Adílson Araújo, presidente da CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras Brasileiros, ligada ao PCdoB, que afirmou: “Tudo que não conseguimos fazer no mundo real podemos fazer agora no mundo virtual”. Esta frase foi pronunciada para justificar e enaltecer a participação no ato de 1º de Maio de políticos burgueses como FHC, Rodrigo Maia, Alcolumbre, Ciro Gomes e Marina Silva, a suposta “frente ampla em defesa da democracia”, defendida pelo PCdoB, PT, Lula e os burocratas das centrais majoritárias. Sem nenhuma dúvida, a aplicação desta malfadada política de colaboração de classes é bastante facilitada pela ausência das massas trabalhadoras e dos ativistas de vanguarda das ruas! “Fiquem em casa, e deixem que nós junto com os patrões cuidemos de sua saúde, empregos, salários e direitos”, é o que querem estes dirigentes. 

É preciso que as organizações da esquerda que se propõem como alternativas a estas direções conciliadoras, que estão agrupadas principalmente na CSP-Conlutas (PSTU) e na Frente Povo Sem Medo (PSOL, MTST), que corretamente não participaram do 1º de Maio virtual e patronal de Lula, rompam com a política de isolamento político e imobilismo das lutas da classe trabalhadora e do povo pobre. É preciso que as/os ativistas de base do PT, PCdoB e dos sindicatos, movimentos e coletivos exijam de suas direções que rompam suas alianças com a burguesia e seus partidos e políticos corruptos e organizem a classe trabalhadora pra lutar. 

Não podemos ter nenhuma confiança nos governos, patrões e no parlamento para garantir nossa segurança, nossa saúde e nossas vidas. Nossa defesa é a luta! E nossa luta se faz nas greves e nas ruas! 

Um dos organizadores da manifestação de torcedores do Corinthians na Avenida Paulista, Danilo Pássaro, resumiu bem as razões que os levaram às ruas: “Avaliamos que o país passa por uma escalada autoritária, o governo mostra o interesse de implementar sua ditadura. Mesmo conscientes da importância do isolamento social, consideramos que hoje impedir o avanço de uma nova ditadura faz parte dos serviços essenciais”.  Falou e disse!

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