Agressão bolsonarista ao ato das enfermeiras mostra a necessidade da autodefesa

No dia 1º de Maio um grupo de enfermeiras e enfermeiros do Distrito Federal realizou uma manifestação na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Segundo o Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal (SindEnfermeiro-DF): “O protesto tinha três objetivos centrais: defender o isolamento social com base científica, homenagear os trabalhadores da enfermagem de todo o Brasil que morreram lutando contra a Covid-19 e mostrar a importância da categoria”. É preciso destacar, antes de tudo, a grande coragem e determinação destas/es ativistas em realizar uma manifestação de rua, neste momento em que o conjunto do movimento sindical e demais movimentos de luta se limitam às “manifestações virtuais”, como ocorreu neste 1º de Maio.

A manifestação pacífica das/os trabalhadoras/es da Saúde foi brutalmente interrompida por uma minúscula gangue de bolsonaristas, que partiu pra cima das/os manifestantes com agressões morais e físicas, gritando que estavam ali para defender Bolsonaro. As/os ativistas foram pegas/os de surpresa e sem que tivessem se organizado para se defender dos/as agressores/as. Apesar disso, os/as enfrentaram dignamente e garantiram a realização do ato. Outras pessoas que passavam pelo local também foram hostilizadas, e uma jovem ciclista, corretamente, partiu pra porrada com os bolsomínions. Só neste momento a Polícia Militar resolveu intervir, pois até então assistia passivamente as agressões do grupelho fascistóide contra as enfermeiras e enfermeiros.

Este episódio deve servir de alerta para o conjunto dos ativistas do movimento sindical e demais movimentos de luta da classe trabalhadora e do povo pobre, do qual é preciso tirar algumas lições.

A primeira, é que os grupelhos bolsonaristas e fascistas estão cada vez mais ousados em suas agressões contra o movimento organizado da nossa classe. É útil fazer uma retrospectiva da história recente. As agressões fascistas tiveram início nas Jornadas de Junho de 2013, quando os grupos fascistas e de ultradireita hostilizaram e depois expulsaram a esquerda das manifestações. Prosseguiram durante as manifestações da pequena burguesia e da classe média pelo impeachment de Dilma (o Coxinhaço), em 2016, quando várias pessoas de esquerda foram atacadas nas ruas. Pequenos grupos fascistóides vêm protagonizando vários ataques violentos a manifestações, palestras e eventos culturais nos últimos anos. Lembremos o assassinato de mestre Moa do Katendê, na Bahia, por um apoiador de Bolsonaro. E o episódio que se tornou símbolo da ousadia e da violência da direita paramilitar, o assassinato cruel da vereadora/ativista Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. Estas agressões de cunho fascista vêm se somar à violência histórica cotidiana que se abate sobre o povo pobre e trabalhador em nosso país. Os assassinatos nos meios rurais de indígenas e trabalhadores do campo, que nunca cessaram e vêm aumentando muito desde a posse de Bolsonaro. Os assassinatos da juventude preta e pobre das quebradas e favelas, praticados cotidianamente pela PM, assim como as agressões às mulheres e LGBTQIs. A violência policial contra nossas greves e manifestações de rua.

Os fatos citados, que mostram apenas parte do que vem ocorrendo no país, evidenciam a escalada da violência da direita autoritária. Contudo, a agressão fascista direta a manifestações organizadas da classe trabalhadora, como a que ocorreu contra as enfermeiras e enfermeiros, é um fato novo. Se não for respondida à altura pelo movimento organizado, esta ação de meia dúzia de bolsonaristas pode servir de alento a ataques mais organizados. Dois dias depois do ataque às enfermeiras assistimos ao ataque de hordas bolsonaristas a jornalistas do Estadão. É visível que os grupos bolsonaristas, militaristas e fascistas estão crescendo em ousadia e organização. 

A segunda lição do episódio de Brasília é que a polícia deixou o grupelho bolsonarista agir livremente contra as/os manifestantes, o que mostra que não podemos confiar a segurança das nossas manifestações à polícia e a nenhuma força armada do estado burguês, quer dizer, não podemos depositar nossa segurança e nossas vidas nas mãos da oficialidade bolsonarista e fascista que comanda grande parte destas forças militares. A cumplicidade da oficialidade das polícias militares com a ultradireita é evidenciada pela tolerância com que trata as manifestações bolsonaristas, em contraste com a truculência que emprega contra as manifestações e greves da classe trabalhadora e os massacres permanentes que promovem nas quebradas, favelas e periferias. Enquanto a PM nada fez para impedir a agressão às/os enfermeiras/os e aos jornalistas em Brasília, prendeu militantes antifascistas que protestavam contra o ato da ultradireita em Porto Alegre, no dia 4 de maio. Dois pesos, duas medidas.

O mesmo deve ser dito sobre a “justiça” burguesa, que não somente é incapaz de conter a violência contra nossa classe, mas também é totalmente cúmplice e mandante desta violência, a exemplo das inúmeras autorizações para reintegração de posse nas ocupações de terras nas cidades e no campo. Basta ver que os assassinos e torturadores a serviço da ditadura militar, os heróis de Bolsonaro, nunca foram punidos. O julgamento do massacre do Carandirú foi anulado para beneficiar a cúpula assassina da PM. Os patrões do agronegócio, das madeireiras e mineradoras que mandam assassinar as lideranças indígenas e camponesas, seguem protegidos pelos juízes. Da mesma forma que as milícias bolsonaristas que assassinaram Marielle e Anderson! Ou os comandantes da PM responsáveis pela tocaia que levou à morte de 9 jovens em Paraisópolis, em 1º de dezembro de 2019. Lembremos que há quase 14 anos as Mães de Maio das periferias de São Paulo lutam por Justiça para seus filhos assassinados! O grito “Onde está o Amarildo?, lançado em 2013, ainda ecoa, sem resposta! E mais um longo etc.! 

A terceira lição é que os movimentos podem e devem organizar a sua autodefesa. Um pequeno grupo de autodefesa na manifestação das enfermeiras, preparado e organizado, teria sido suficiente para conter os agressores bolsonaristas, e dar-lhes o que mereciam. A segurança precisa ser feita pelos/as próprios/as trabalhadores/as, tanto nas pequenas como nas grandes manifestações, assim como nas panfletagens, colagens, pichações e outras atividades da luta. O mesmo deve ser feito em cada sindicato, cada sede partidária, cada reunião de coletivo e demais organizações dos movimentos. Devem ser tomadas também medidas de segurança individual das lideranças e de todas/os ativistas. As medidas de autodefesa são necessárias tanto para nos defender da violência dos fascistas como da própria polícia. E devem estar combinadas permanentemente com o chamado à base das polícias, os praças (soldados, cabos e sargentos), a que se recusem a reprimir as lutas do povo trabalhador. 

As tarefas de defesa dos movimentos, manifestações e ativistas são uma necessidade urgente e não podem ser confiadas à polícia e à “justiça”, devem ser tomadas diretamente pelas trabalhadoras e trabalhadores, retomando assim os ensinamentos e as tradições da história do movimento organizado do proletariado sobre a autodefesa.

As/os ativistas devem exigir das direções dos sindicatos e demais movimentos organizados a adoção destas medidas de segurança e autodefesa. Mas, não devemos depositar nenhuma confiança de que os dirigentes aburguesados e burocratizados da maioria das organizações do movimento operário e de massas, que já não sabem sequer organizar um piquete de greve, levem a sério as tarefas de autodefesa. Estes dirigentes, que quando se vêm ameaçados pela rebelião de suas bases sabem muito bem proteger a si mesmos através de bate-paus contratados, são incapazes de garantir a segurança das/os trabalhadoras/es em luta. Esta é uma tarefa que deve ser tomada diretamente pelas/os ativistas de vanguarda das lutas e dos movimentos.

Organizar a autodefesa das manifestações e ativistas! Já!

Nota do GOI (5/5/2020)

Reportagem sobre a manifestação da enfermangem em Brasília

Vídeo que mostra cenas das agressões dos bolsonaristas

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