A esquerda e a vitória de Bolsonaro (Parte 1)

Uma retrospectiva dos erros e traições da esquerda que prepararam a vitória de Bolsonaro (Parte 1)

Por Wiliam Felippe

A vitória eleitoral do capitão Bolsonaro e a ascensão ao poder dos setores mais reacionários e pró ianques da burguesia brasileira não era de modo nenhum uma fatalidade histórica. O resultado eleitoral dos partidos que falam em nome da classe trabalhadora (PT, PCdoB, PSOL, PSTU, PCB e PCO), que somou cerca de 31 milhões de votos no primeiro turno e 42 milhões no segundo turno, demonstra que a disputa eleitoral foi acirrada e que a vitória era possível. A política dos partidos da esquerda foi o elemento decisivo para a derrota eleitoral da classe trabalhadora e dos setores oprimidos.

A burguesia necessitava vencer as eleições com um candidato totalmente comprometido com o “ajuste” e as “reformas” exigidos pelo imperialismo. Mas, sobretudo, precisava de um candidato que pudesse derrotar a esquerda, que havia recuperado grande parte de seu potencial eleitoral nos dois anos do odiado governo Temer. Lula liderava as pesquisas eleitorais, mas as manobras jurídico-policiais da “Operação Lava Jato” finalmente levaram à sua prisão e cassação. Com Lula fora do páreo, a candidatura de Bolsonaro se consolida como a mais viável para derrotar a esquerda. Mas, enquanto a burguesia se unificava em torno a Bolsonaro, a esquerda se apresentava dividida com três candidatos: Haddad, Boulos e Vera Lúcia.

A unidade de fato da esquerda e dos movimentos de luta em torno à candidatura de Haddad/Manuela, só vai ocorrer no segundo turno, forjada às pressas, sem plano e sem mobilização popular, após a vitória de Bolsonaro no primeiro turno. Uma frente da classe trabalhadora, sem patrões, quer dizer, sem partidos burgueses como o PDT, PSB, etc, e sem políticos patronais como Ciro Gomes, Renan Calheiros, Márcio França e outros, apoiada na mobilização unificada da militância dos partidos operários e movimentos de luta nas ruas, nos locais de trabalho e nos bairros populares seria uma poderosa alavanca para enfrentar e derrotar a ascensão da direita bolsonarista. Mesmo no caso de uma derrota eleitoral, esta frente classista assentaria as bases para a unidade das organizações de massas e partidos e grupos políticos da classe trabalhadora para enfrentar de forma unificada o novo governo.

Mas, a unidade classista da classe trabalhadora foi boicota pelas principais direções da classe trabalhadora. O PT e Lula, seguidos pelo PCdoB, buscaram de todas as formas reeditar sua velha política traidora de alianças com a burguesia. Porém, aliados históricos da frente popular, como PDT, MDB e PSB rechaçaram a aliança para a presidência da república, e só fizeram alianças regionais, principalmente nos estados do Nordeste, para aproveitar os votos do PT para manterem seus currais eleitorais. Este foi o caso, por exemplo, de Ciro Gomes (PDT) e sua família, no Ceará, de Renan Calheiros (MDB), em Alagoas, e da família Campos (PSB), em Pernambuco. Em nível nacional, Lula e o PT encontrou apenas no inexpressivo PROS a sombra da burguesia de que necessitavam para se manterem agarrados ao semi cadáver da classe exploradora.

O PSOL, seguido pelo PCB, tentou se apresentar como uma alternativa ao PT, com o programa reformista/burguês das “50 receitas de Boulos”, colhendo seu pior resultado eleitoral em eleições presidenciais. O PSTU, junto com as correntes que o orbitam, seguiu com seu doutrinarismo propagandista com a candidatura de Vera Lucia pregando a “rebelião”, obtendo menos votos do que nas eleições de 2014.

Estas três políticas equivocadas se combinaram para impedir a unidade classista dos/as trabalhadores/as, facilitando a vitória de Bolsonaro.

Contudo, o balanço das táticas eleitorais equivocadas da esquerda não explica tudo. É preciso analisar a política das principais direções do proletariado numa perspectiva mais ampla da luta de classes no último período histórico para entender como seus erros e traições foram preparando a volta da direita militarista ao poder. Com este objetivo, vamos analisar a política dos principais partidos que falam em nome da classe trabalhadora, o PT, o PSOL e o PSTU, para extrair os principais ensinamentos para a luta de classes no próximo período.

A política de conciliação com a burguesia do PT e de Lula

Sem sombra de dúvida, a responsabilidade maior pela derrota cabe ao PT e a Lula, que na atual etapa histórica, aberta com a queda da ditadura militar em 1984, foram (e em grande medida seguem sendo) o partido e o caudilho sindical e político dirigentes das massas exploradas e oprimidas no país, que controlam as principais forças dos sindicatos e dos movimentos populares, camponeses e dos setores oprimidos (mulheres, negros, LGBTQIs, indígenas). Ao seu lado perfila-se o PCdoB, mas a política deste partido carece de importância própria, na medida em que se limita a ser um fiel coadjuvante da política burguesa do PT.

Os anos de governos da Frente Brasil Popular

O PT, sob a batuta de Lula, governou o país de 2002 a 2016 como fiel gerente estatal dos negócios da burguesia e do imperialismo, mantendo intactas as relações de propriedade e de exploração capitalistas. A gestão do poder baseada em alianças e negociatas com as oligarquias regionais do PMDB e outros partidos burgueses do chamado “baixo clero” do Congresso consumaram a adaptação completa do PT e do PCdoB à democracia burguesa, fazendo com que todo o “ativo político” destes partidos fosse sendo gasto na sustentação deste regime corrupto de dominação política dos ricos. A política servil de Lula diante do imperialismo chegou ao cúmulo de enviar tropas do Exército brasileiro para comandar a invasão e ocupação do Haiti pela Minustah da ONU para garantir os interesses ianques naquele país reprimindo as lutas do povo trabalhador.

Contudo, o maior crime de Lula, do PT e do PCdoB foi desmobilizar a classe trabalhadora iludindo-a com a falsa ideia de que era possível ascender socialmente a uma “classe média” sem enfrentar os privilégios de classe da burguesia e a dominação imperialista sobre o país. A consciência de classe forjada nas lutas do final dos anos 70 e nas décadas de 80 e 90, e que deu base à ascensão política de Lula e do PT ao poder, foi sendo anestesiada durante os anos de governos da Frente Brasil Popular, até se transformar no seu oposto, a consciência burguesa da convivência pacífica entre as classes. Ao compasso do retrocesso das lutas e da consciência de classe do proletariado aprofundou-se a burocratização dos sindicatos e demais organizações do movimento popular, camponês e dos setores oprimidos. As organizações de classe, totalmente controladas por carreiristas aburguesados, foram transformadas em meros suportes às “políticas públicas” dos governos de Lula e Dilma, que jamais passaram de um minguado distributivismo de renda aliado à seletiva discriminação positiva (inclusão e cotas) de setores oprimidos, tudo isso regado por ampla oferta de crédito pelos bancos. Assim foram educadas politicamente as gerações de jovens proletários nos anos de ouro da “era Lula”.

Mas, estas pequenas concessões à classe trabalhadora passaram a se desmanchar como castelos de areia quando o período de “exuberância irracional” da desenfreada acumulação capitalista, que durou de 2002 a 2008, culminou na grande crise de 2009.

Então, a política de Lula e do PT, fiel às ordens de seus amos capitalistas e imperialistas, passou a ser, por um lado, a farta distribuição de dinheiro público para “salvar” da crise as grandes empresas capitalistas, e, por outro lado, o “ajuste fiscal” e os cortes de direitos da classe trabalhadora. Os economistas “desenvolvimentistas” foram substituídos no comando da economia pelo banqueiro Joaquim Levy, da mesma escola dos “chicago boys” de Paulo Guedes.

Os anos de crise da Frente Popular

As Jornadas de Junho de 2013 foram a primeira demonstração de descontentamento das massas da pequena burguesia, para a qual foram arrastados alguns setores dispersos de trabalhadoras e trabalhadores. Ao mesmo tempo, expuseram também o papel de expectador dos acontecimentos políticos a que o proletariado e suas organizações de classe haviam sido reduzidos pela política desmobilizadora de conciliação de classes de Lula/PT/PCdoB.

Dois anos depois, as massas pequeno burguesas se tornam donas das ruas nas manifestações pelo “Fora Dilma, Fora PT”, o Coxinhaço, insufladas pela “Operação Lava Jato” do juiz Moro e seus asseclas do Ministério Público e da Polícia Federal. A “cruzada contra a corrupção” de Moro dispunha de farto material para incriminar os dirigentes petistas, que chafurdavam no mar de lama da política burguesa, depois de 12 anos no poder.

Diante da manobra golpista do impeachment de Dilma, as massas proletárias não moveram um dedo para salvar o governo do PT e da Frente Popular, desconcertadas pela campanha “anticorrupção” e desmoralizadas pela traição e vilania de seus dirigentes. Desde então, os setores mais atrasados do proletariado voltam suas costas a Lula e ao PT e passam a ser acaudilhados por distintos partidos e grupos burgueses e pequeno burgueses. Nas manifestações da pequena burguesia desesperada já despontavam como  “heróis nacionais” e “salvadores da pátria” o juiz Moro e o capitão Bolsonaro, e os militares eram aclamados nas ruas.

O PT diante do governo Temer

Apeado do poder pelo golpe judicial-parlamentar do impeachment, o PT passa à oposição ao governo Temer. A rápida experiência das massas trabalhadoras com o governo entreguista e anti operário de Temer vai dar a Lula e ao PT uma nova oportunidade histórica de se colocarem como dirigentes das lutas do povo trabalhador. A desilusão da pequena burguesia com o resultado imediato do impeachment de Dilma colocou na defensiva os grupos e partidos que sustentaram a subida de Temer. São os meses de “sumiço” dos coxinhas.

Com as jornadas de luta contra as “reformas” trabalhista e da previdência, nos primeiros meses de 2017, os setores mais conscientes e organizados da classe trabalhadora, tendo a frente a classe operária, retomam uma ofensiva não vista desde as greves dos anos 1980 e 90, reunindo em torno de si a massa do povo pobre insatisfeita com Temer. A consciência de classe se renovava com a identificação de Temer como um governo dos patrões e carrasco dos/as trabalhadores/as, e principalmente com a retomada dos métodos de luta da classe operária, como a greve geral. É neste contexto de acirramento da luta de classes, crise da burguesia e isolamento do governo que Lula e o PT, controlando a CUT e as principais organizações do movimento sindical, popular, camponês e dos setores oprimidos, traem mais uma vez a classe trabalhadora. Lula chama a não derrubar Temer e ordena o recuo da luta após a greve geral de 28 de abril e as manifestações em Brasília de 24 de maio de 2017, com o objetivo de canalizar a insatisfação das massas para as eleições de 2018.

A burguesia se aproveita deste recuo e retoma a ofensiva, impondo a derrota da reforma trabalhista, que, além de abrir as portas para um avanço qualitativo da precarização das relações de trabalho, impôs também um duro ataque à burocracia sindical com o fim do imposto sindical. Apesar de não ter forças para aprovar a “reforma” da previdência, em 2018 a ofensiva burguesa segue. Em 16 de fevereiro é decretada a intervenção militar no Rio de Janeiro. Em 7 de abril, o juiz Moro consuma o objetivo da “Lava Jato” decretando a prisão de Lula. Os tribunais superiores vão completar o trabalho nos meses seguintes decretando a cassação de sua candidatura.

Estes êxitos da burguesia, garantidos por um governo repudiado por mais de 90% da população, só se explicam pela política traidora do PT e de Lula, de desmobilização da classe trabalhadora para evitar a queda de Temer e a agudização da crise do regime. Lula e o PT seguem utilizando seu controle sobre as organizações de massas e sua liderança sobre os setores mais conscientes da classe trabalhadora como moeda de troca junto a burguesia e seu estado. Agora, para barganhar o fim da perseguição política contra seus dirigentes.

Quando a situação política do país parecia caminhar sem mais atropelos em direção às eleições de outubro, em maio explode o movimento dos caminhoneiros, que paralisa o país por cerca de duas semanas, reabrindo a crise do governo e escancarando as graves divisões no interior da burguesia. Lula se cala diante do movimento e o PT e a CUT manifestam apenas um apoio formal à greve, postulando-se como “mediadores” junto ao governo, desperdiçando, assim, mais uma conjuntura em que esteve colocada a possibilidade de derrubada de Temer através da convocação de uma greve geral.

Ao imporem o imobilismo das organizações da classe trabalhadora diante da luta dos caminhoneiros, os dirigentes do PT e da CUT deixaram o caminho livre para Bolsonaro se consolidar como referência política dos setores mais pauperizados da pequena burguesia.

A queda do governo Temer pela ação revolucionária da classe trabalhadora, que esteve colocada pela luta de classes nas jornadas de abril a junho de 2017 e na greve dos caminhoneiros de maio/junho de 2018, poderia impor uma relação de forças francamente favorável à classe trabalhadora, bloqueando o ascenso da direita bolsonarista e militarista. Mas, justamente por compreender as possibilidades revolucionárias da luta do proletariado, que poderiam levar ao aprofundamento da crise do regime politico, é que Lula e o PT aplicaram de forma consciente uma política contra revolucionária, buscando assim reconquistar os favores da burguesia ao se mostrarem como fiéis sustentáculos da democracia burguesa.

Como afirmamos no início do artigo, a vitória de Bolsonaro não era inevitável, e foi preparada principalmente pela política traidora de Lula e do PT. No próximo artigo, analisaremos as políticas do PSOL e do PSTU.

2 comentários em “A esquerda e a vitória de Bolsonaro (Parte 1)

  1. E vocês não se incluem na esquerda brasileira? O que voces efetivamente fizeram para unir a chamada esquerda, nas eleições? Ou vocês são excepcionais? Ou não fazem auto critica?

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    1. Somos un pequeno grupo, não temos força para unir a esquerda. Quem tem essa força são os principais partidos da esquerda, a começar pelo PT. Enquanto um pequeno grupo de propaganda, o que fizemos foi propor e exigir das direções do movimento que formassem a frente da classe trabalhadora, a patrões, que, a nosso ver, era a política necessária para unir a esquerda contra os patrões e a direita. Nossa crítica se fundamenta nesta concepção de independência de classe.

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