CULTURA | Batalha de MCs: arte, cultura e resistência da juventude periférica

Juventude reunida no Valo das Batalha – Zona Sul de SP

Da zona sul à zona norte, em dias e horários marcados, centenas de jovens se reúnem nas praças e quebradas das periferias de São Paulo para batalhar e apresentar sua arte e poesia, através dos mais diversos temas. Este espaço de cultura, arte, resistência e formação da consciência política e crítica da juventude periférica ainda hoje é muito marginalizado. A segregação social e racial criada pela burguesia contra os filhos e filhas da classe trabalhadora, com os altos custos para o acesso aos espaços de cultura e lazer nos centros urbanos, faz das Batalhas de MCs um grito de liberdade e de independência artística e política da juventude das periferias. Foi, inclusive, das Batalhas que saíram grandes nomes da cena hip hop no Brasil.

Durante as eleições, as Batalhas estiveram na vanguarda da luta e resistência nas periferias pelas liberdades democráticas e em defesa do #eleNÃO (movimento inicialmente criado pelas mulheres, mas que se expandiu para outros setores oprimidos da sociedade capitalista). Diante da vitória de Bolsonaro, as Batalhas tem e terão um papel fundamental na luta e resistência contra os ataques deste governo ilegítimo que atingirá sobretudo os setores mais pobres e oprimidos da classe trabalhadora e da juventude.

Abaixo, reproduzimos uma poesia escrita por Felipe Brandow, jovem trabalhador, poeta e MC, de Embu das Artes, participante das Batalhas de São Paulo.

Poesia sobre Depressão

 

“Nunca tive vontade de ser rico,

meu sonho sempre foi ser milionário de milhões de ideias,

Que faça minha banca crescer.

Sempre quis ter uma mente libertina cheia de pensamentos.

sem pensar que posso um dia magoar alguém .

Não namoro, não tenho filhos, sigo só.

Magoou-se mesmo? Sem eu querer magoar alguém.

Tenho medo do preço das coisas,

e descobri que não dou valor pra ninguém.

Tenho medo de não dar valor,

eu me dou tanto valor.

Que hoje consigo só, não consigo.

Vida breve, quando se aprende a fazer cálculos,

se aprende a se prender nas estatísticas,

vida mais breve ainda

quando descobre o seu ponto fraco.

E infelizmente o seu ponto fraco, é a cabeça baixada tantas feridas no peito se limita,

descobre com mais facilidade que tudo é dificultoso.

Tudo mesmo, até mesmo acordar e tentar lutar, mas não consegue lutar de novo.

Acredito que estamos lutando o tempo inteiro.

Na verdade ainda estou aqui de braços cruzados,

vi que ficou mais difícil,

hoje quando tenho todos motivos do mundo pra estar feliz e aliviado.

Eu estava feliz, incrível que pareça até 10 minutos atrás com a cabeça pensando no progresso,

e do nada me veio uma tristeza tão forte que não sei explicar,

mas consigo descrever.

Um sapo na garganta como se você sentisse realmente que vai chorar,

e só molhar não vai fazer efeito e só chorar não vai fazer chover.

Você quer gritar,

sair correndo e até te falta o ar.

Você tenta respirar mais fundo e sente aquele aperto no peito.

Sim está ali, uma dor forte no peito e uma dor forte no fundo no fundo do fundo.

Isso é normal nas pessoas, mas elas não cabem no meu peito.

Fica pior quando você começa a ouvir sua própria voz, dizendo que não é capaz.

Que você não vai conseguir, eu não ouvi vozes ainda.  

Porque minha mente grita muito mais alto,

e é automático isso com pensamentos ruins o tempo inteiro sobre as pessoas que você ama.

Modo automático da depressão.

Não consigo me olhar no espelho,

acho que minha imagem não tem culpa.

Marcas de expressão de tristeza por todo meu corpo está espalhada.

Realmente não era minha intenção falar sobre depressão,

estava escrevendo uma coisa, e veio essa crise do nada.

Não é boba, não é bobagem pode ser apenas o início de uma longa viagem.

Sem volta! Se mata! Se joga! Se corta! Bebe! Fuma! Come!

Come mais que a ansiedade passa.

Não passa nem na hora do sexo, o sexo já não tem mais graça!

o tesão perde o prazer, a vida perde o prazer.

Até o prazer perder o tesão até a dor perde o prazer nada dói.

mas tudo te faz remoer sem ninguém tocar na ferida.

Depressão doença da morte da vida,

morte do prazer do tesão,

morte de tudo aquilo que acredito.

Me inibindo das minhas necessidades

Em pensar sempre “eu não preciso. Eu não consigo .”

Me ajudem a ajudar.”

Embu das Artes – 17 de Novembro de 2018.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s