Rosa Luxemburgo. A honra do socialismo internacional (homenagem à revolucionária socialista aos 99 anos de seu assassinato)

Por J. Santana

 

“A Rosa vermelha agora desapareceu.

Onde ela está, não se sabe.

Por dizer aos pobres a verdade,

Os ricos a expulsaram do mundo.”

(Bertold Brecht – Epitáfio, 1919)

 

Dentro da prisão de Wronke na Alemanha, Rosa Luxemburgo recebeu a notícia da vitória da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia. Meses depois escreveria: “Tudo o que, num momento histórico, um partido pode dar em termos de coragem, energia, perspicácia revolucionária e coerência foi plenamente realizado por Lênin, Trotsky e seus companheiros.”[1] E disse mais: “Com sua insurreição de Outubro, não somente salvaram, de fato, a Revolução Russa, mas também a honra do Socialismo Internacional.”[2]

No último dia 15 de janeiro completou-se 99 anos do covarde assassinato de Rosa. E olhando sua vida e obra todo marxista revolucionário, todo trabalhador e trabalhadora consciente podem afirmar sem sombra de duvida: não somente Lênin, Trotsky e seus companheiros, mas também Rosa Luxemburgo salvou a honra do socialismo internacional.

No Partido Social Democrata Alemão (SPD), totalmente dominado por homens, começou a brilhar com toda a intensidade uma estrela feminina, que receberia anos depois o apelido de “Rosa, a Vermelha”. E começa a brilhar na batalha teórica mais importante do final do século XVIII, no chamado ‘debate Bernstein’ entre os anos de 1896 e 1898. O biografo de Rosa, Paul Frölich, assim relata este debate:

“Foi um homem próximo ao entorno de Engels, Eduard Bernstein, quem levou a cabo a “revisão do marxismo” (…) Bernstein pronunciou a frase fatal: “o objetivo final, qualquer que seja, não significa nada, o movimento é tudo”. (…) O ‘debate Bernstein’ deu lugar a mais severa e penosa crise na socialdemocracia internacional do pré-guerra. Todos os pensadores e militantes do marxismo congregaram-se no campo de batalha. Na Alemanha, Parvus, Kautsky, Mehring, Bebel, Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo; na Rússia, Plekanov, que defendia o materialismo histórico principalmente desde o ponto de vista filosófico; na Itália, Antônio Labriola; na França, Jules Guesde e inclusive Jean Jaurés. Neste combate intelectual, Rosa ocupava a vanguarda. Era a mais jovem, mas ultrapassava a todos seus camaradas por seu elevado espirito de luta, por sua segurança no manejo das armas e pela profundidade de seu pensamento”.[3]

Mesmo Rosa tendo atingido duramente o revisionismo de Bernstein em sua obra ‘Reforma ou Revolução’ (1899), a degeneração e adaptação à democracia burguesa continuou no SPD, seja através do parlamentarismo ou pela pressão da burocracia sindical.

Em 1905, participou ativamente da revolução no império russo. Das lições desta revolução escreveu a obra ‘Greve Geral de Massas, Partidos e Sindicatos’ (1906), onde defende o uso da greve geral como instrumento das massas trabalhadoras para avançar das lutas econômicas para as lutas políticas e a tomada do poder. Sua obra foi fortemente rechaçada pela ala reformista do SPD, em especial os burocratas sindicais.

No ano de 1913 escreveu ‘A Acumulação do Capital’. Disse que o período em que escreveu esta obra foram os melhores anos de sua vida. A ideia de escrever sobre este assunto ocorreu durante suas aulas, como professora de economia política na escola do partido, onde constatou que a questão da acumulação do capital estava pouco elaborada por Marx em ‘O Capital, livro II’ (1885). Segundo Rosa, de um total de 450 páginas, Marx dedicou apenas 35 a este tema tão importante. Em seu resumo de A Acumulação do Capital, chamado de Anticrítica, Rosa afirmou que: “de fato o volume II de Das Kapital não constitui um trabalho completo e acabado, como o volume I, mas um simples torso composto de fragmentos soltos e mais ou menos terminados, além de esboços, desses que os pesquisadores costumam redigir para seu próprio uso, no desenvolvimento de suas ideias. Marx interrompeu esse trabalho seguidas vezes por motivos de doença.” [4]. E, polemizando com os críticos de seu trabalho, escreve algumas páginas adiante: “Se a exemplo dos “especialistas” admitirmos que existe uma acumulação capitalista sem limites de ordem econômica, o socialismo perde o fundamento objetivo, sólido, de sua necessidade histórica. Fugimos, dessa maneira, para o nebuloso reino dos sistemas e das escolas pré-marxistas que procuram deduzir o socialismo a partir da injustiça e da maldade do mundo hodierno…” [5].

O ponto mais alto de sua militância (e o mais trágico) começa com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. A direção da social democracia aprova em Agosto de 1914 os créditos de guerra no parlamento alemão. É a capitulação definitiva. Rosa Luxemburgo, Karl Liebnecht, Franz Mhering, Clara Zetkin e um grupo pequeno de militantes rompem politicamente com a direção do partido. A luta contra a guerra imperialista e, portanto contra o governo e seus lacaios no movimento operário, a levará para a prisão durante quase todo o período da guerra.

Libertada da prisão em Novembro de 1918 pela força da revolução que derrubou o Kaiser, Rosa assume seu posto na preparação da segunda revolução. Tinha consciência dos sacrifícios que acarretam da decisão de ajudar a derrubar a ordem capitalista. Em uma carta de 1918 escreveu: “Todos nós estamos sob o domínio do destino cego, meu único consolo é o amargo pensamento de que também eu talvez seja em breve mandada para o além – talvez por uma bala da contrarrevolução que espreita de todos os lados.” [6]

Por fim, em 15 de Janeiro de 1919, a burguesia alemã, com a conivência dos reformistas do SPD que estavam no poder, decretou e executou o assassinato de Rosa. Os assassinos, na tentativa de ocultar o crime, ou para tentar apagar as chamas da revolução que sacudia a Alemanha, jogaram o corpo, daquela que, segundo Lenin, representava a bandeira da revolução social, nas águas do canal Landwher. As chamas da revolução até hoje nunca se apagaram. A burguesia pode fazer desaparecer os corpos, mas não as ideias.

Rosa Luxemburgo, do alto de sua generosidade revolucionária, teria pedido como homenagem que as próximas gerações continuassem a sua luta. Nós, marxistas revolucionários, se merecemos este nome, honraremos o seu sacrifício e quando completarem-se os 100 anos de seu assassinato gritaremos com orgulho, mais forte do que hoje: camarada Rosa Luxemburgo, sempre presente!!!


[1] Rosa Luxemburgo, “A Revolução Russa” (1918).

[2] idem.

[3] Paul Frölich, “Rosa Luxemburgo: Vida e Obra” (1928).

[4] Rosa Luxemburgo, “A Acumulação do Capital” (1913), pág. 338. São Paulo: Nova Cultural, 1985. Coleção Os Economistas.

[5] idem, pág. 347.

[6] Rosa Luxemburgo, “Obras Escolhidas, vol. III” (2011). Organizado por Isabel Loureiro.

 

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