Para construir o “terceiro campo” é preciso romper o campo da frente popular

[1] Durante a crise do “impeachment”, quando as massas foram às ruas nos atos do Coxinhaço e nos atos convocados pela Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo e seus aliados, a política do PSTU foi de fazer atos próprios chamando a construção de um “terceiro campo” em torno às consignas “Fora Dilma, Fora todos! Eleições gerais”. Após a queda de Dilma, quando se iniciam as primeiras manifestações pelo “Fora Temer”, a política do “terceiro campo” e do “Fora todos!” se manteve com o argumento de que eram atos pelo “Volta Dilma”. Na conjuntura de ascenso das lutas contra as reformas e por “Fora Temer”, que culminou nas greves de 28 de abril e 30 de junho, o PSTU seguiu não participando das manifestações de massas pelo “Fora Temer”, com a justificativa de que defendiam as “Diretas, já!” e “Lula 2018”. Resumindo: o PSTU se recusa a participar das manifestações de massas convocadas pela Frente Brasil Popular e Frente Povo sem Medo porque não tem acordo com a política frente populista destas direções. E busca construir um terceiro campo “classista” a partir de suas próprias forças e alguns poucos aliados.

Trotsky e Moreno e a crítica à “teoria dos campos burgueses progressistas”

A política do “terceiro campo” aplicada pela direção do PSTU e da LIT por todo este período, tem sido justificada como uma aplicação da política trotsquista e morenista de delimitação com os campos burgueses. Em nossa opinião, a direção faz uma grande confusão teórica que leva a uma falsa interpretação e falsas conclusões acerca da política de Trotsky e de Moreno, o que tem levado a desvios sectários na política e a perda de importantes oportunidades de construção do partido. Senão, vejamos.

O conceito de “campos burgueses” foi utilizado por Trotsky em sua crítica à política estalinista de formar um “campo de aliança de classes entre o proletariado e a burguesia progressista”, que se expressava na política da frente popular e da frente única antimperialista. Trotsky e Moreno explicam que tanto o “campo progressista” da frente popular, como o “campo reacionário” dos partidos e frações burguesas de direita, fascistas, etc são burgueses e que os revolucionários devem lutar para formar um “terceiro campo” classista e independente da burguesia, através da aliança entre os operários e camponeses. Afirmam também que quando surgem estes dois campos burgueses na luta de classes e a situação evolui para uma luta física entre eles, um golpe armado (Kornilov, na Rússia de 1917), uma guerra civil (Espanha, na década de 30) ou guerra colonial (Japão contra a China, na década de 20), os revolucionários devem se alinhar militarmente no “campo progressista”, mas mantendo sua independência política. Vejamos a síntese das posições de Trotsky feita por Moreno:

“Todo partido trotskista, toda corrente revolucionária do movimento operário que não seja ultraesquerdista, nem sectária, tem como política, quando existe um confronto político-econômico muito grave entre os distintos setores da burguesia (levante fascista, invasão imperialista, confronto nas ruas, sabotagem burguesa e guerra civil), alinhar-se no campo que considera mais progressista. Na hipótese de um levante fascista ou bonapartista contra um governo de frente popular, democrático ou bonapartista parlamentar, nos alinhamos no “campo” deste último; inclusive, muito excepcionalmente, podemos chegar a acordos práticos, estritamente delimitados, para a luta.

(…) Para os trotskistas, este alinhamento é puramente físico, militar. Jamais nos subordinamos à direção política da burguesia nem dos partidos operários contrarrevolucionários. Além do mais, consideramos que este alinhamento, que nos impõe a subordinação ao comando militar do campo progressista, é um fato tático, que depende da relação de forças: aceitámo-lo enquanto a direção burguesa, estalinista e socialdemocrata for mais forte que nosso partido, mas o nosso eixo político é sempre o de romper a aliança de classes, ou seja, o “campo progressista” frente-populista ou bonapartista parlamentar. Concretizamos este eixo esclarecendo para as massas que se os operários não derrubarem o governo frente-populista e tomarem o poder não poderá haver uma verdadeira luta de fundo contra a ofensiva reacionária.”[2]

Trotsky, no Programa de Transição, critica duramente “os sectários” que “recusam-se a estabelecer uma diferença entre os campos em luta na Espanha pela razão de que os dois campos têm um caráter burguês”. Por outro lado, Moreno dedica todo um capítulo de seu livro já citado (cap.2) para explicar como a pressão da frente popular sobre os partidos revolucionários gera em seu interior correntes oportunistas que capitulam à política dos campos progressistas, se alinhando ao “campo da frente popular” com o argumento de não se isolar das massas, a exemplo da política da “frente popular de combate” (Pivert). Em sua crítica à OCI, Moreno acusa Lambert de capitular à frente popular por se colocar no mesmo “campo” de Mitterrand.

Os erros da direção do PSTU e da LIT

A direção do PSTU e da LIT caracterizam que o campo formado pela Frente Brasil Popular é burguês. O que está correto. Caracterizam que não há neste momento nenhuma ameaça de golpe armado ou choque físico entre dois campos burgueses que nos obrigue a nos alinhar militarmente no “campo progressista”. O que também está correto. Porém, destes dois fatos corretos deduzem que o partido não deve participar das manifestações de massas convocadas pela frente popular porque isso seria capitular à política dos “campos progressistas”. E aqui reside uma grande confusão teórica, histórica e política!

O partido revolucionário desenvolve sua política junto às massas trabalhadoras basicamente de duas formas. Incide diretamente sobre as massas nos locais de trabalho e de estudo, nos bairros populares e grandes concentrações urbanas, através de seus próprios meios de agitação e propaganda. E incide sobre as ações das massas, as lutas da nossa classe, as assembleias, greves, manifestações, campanhas eleitorais, etc, sejam elas espontâneas ou organizadas pelo movimento operário e de massas (sindicatos, movimentos, partidos, etc). Ora, o movimento organizado operário e de massas, na medida em que é dirigido e controlado pelas direções burocráticas, reformistas e centristas, tende a ser arrastado para a política de conciliação e de aliança com a burguesia, ou seja, para o campo burguês da frente popular. O que significa que o campo burguês da frente popular contém em seu interior as organizações do movimento operário e de massas que são dirigidas majoritariamente pelas direções frente populistas. Como resolvemos esta contradição: localizarmo-nos no movimento operário e de massas que é parte do campo burguês da frente popular?

Vejamos um exemplo histórico. Os sovietes russos (as organizações de massas mais revolucionárias já construídas pelo proletariado mundial), entre fevereiro e setembro de 1917, eram dirigidos pelos mencheviques e social-revolucionários e apoiavam o governo da frente popular. Ou seja, eram parte do campo burguês da frente popular, e por isso Lenin e Trotsky os chamavam de sovietes conciliadores. Contudo, a política dos bolcheviques não foi boicotar os sovietes conciliadores por serem parte deste campo, mas sim atuar em seu interior, submetendo-se à sua disciplina na ação (o que incluía a participação em manifestações), e assim disputando a direção das massas em luta contra a política frente populista dos mencheviques e social-revolucionários. Só quando se tornaram maioria nos principais sovietes, os bolcheviques se propuseram a romper a disciplina dos sovietes. Mesmo tendo conquistado a maioria nos sovietes de Petrogrado e Moscou, houve um intenso e rico debate entre Lenin e Trotsky sobre se a tomada do poder deveria ser organizada através dos sovietes ou pelo próprio partido, debate que culminou numa tática combinada, a do Comitê Militar Revolucionário (o comitê do soviete que organizou a insurreição de outubro, do qual só participavam bolcheviques e alguns aliados que estavam a favor da tomada do poder). Citamos este caso para demonstrar a importância decisiva dada pelo bolchevismo à ação do partido através e por meio das organizações do movimento operário e de massas.

Como este método dos bolcheviques se aplica na realidade atual do Brasil?

Aqui, as principais organizações do movimento operário e de massas são os sindicatos. Suponhamos que o partido atua em um sindicato que em assembleia vota por maioria, contra a nossa posição, participar de um ato público convocado pela frente popular em apoio à candidatura de Lula em uma nova coligação com a burguesia nas eleições de 2018. Ao ficar em minoria, o partido pode tomar duas posições: manter a unidade do sindicato e participar do ato com suas bandeiras e sua própria política independente, dando sequência ao combate que deu na assembleia; ou, romper a unidade do sindicato e chamar o boicote ao ato da frente popular, organizando ou não um ato paralelo. A política revolucionária não faz da “unidade do sindicato” um princípio, quer dizer, uma norma que nunca pode ser contrariada. Não é por isso que nos submetemos à disciplina do sindicato, mas, sim, porque nosso método de ação bolchevique é acompanhar as massas em seu movimento próprio, para disputar a sua direção contrapondo nossa política à das direções frente populistas. Enquanto formos minoria, sobretudo enquanto formos uma ínfima minoria, não há outro método possível de disputa das massas mobilizadas, que em maioria ainda seguem a política das direções frente populistas. Este é o método de Lenin, Trotsky e Moreno, a disputa tenaz e paciente da consciência das massas, nos vinculando estreitamente aos seus processos de luta e de organização. O método do boicote e da ruptura da unidade das organizações de massas por uma ínfima minoria é e sempre foi o método das seitas anarquistas e pseudo-revolucionárias.

Resumindo. Em nenhuma hipótese devemos dar apoio político à frente popular, ou seja, à aliança entre o PT e a burguesia, em nenhuma forma que ela se concretize, sejam atos públicos, chapas eleitorais ou mesmo diante de um golpe armado ou uma guerra civil. Nossa política é sempre denunciar a política conciliadora da frente popular, atuando no sentido de levar o proletariado a romper a aliança com a burguesia que lhe é imposta por suas direções contrarrevolucionárias para construir a aliança de classe dos explorados e oprimidos, ou seja, a aliança operária, popular e camponesa (utilizando as táticas adequadas para isso). Esta política deve ser levada por todos os meios e a todos os lugares em que possamos atingir as massas trabalhadoras, seja nos locais de trabalho, estudo e moradia, seja nas lutas, greves e atos de massas, independentemente de quais sejam as direções destes processos. Ou, melhor dizendo, sobretudo se as direções destes processos são as direções frente populistas, o PT, Lula e seus aliados, devemos intervir com todas as nossas forças para disputar a direção do proletariado. E isto nada tem a ver com a integração política ao campo burguês da frente popular, antes o contrário: nossa intervenção independente e delimitada politicamente no interior das organizações do movimento operário e de massas que, pela política traidora de suas direções é levado a fazer parte do campo burguês da frente popular, tem como objetivo a ruptura das organizações de massas do proletariado com este campo burguês. O “terceiro campo” da independência de classe do proletariado só pode ser construído (na prática e não apenas em palavras!) se o partido aplicar uma política correta que ajude o proletariado a romper o campo burguês da frente popular. Recusar-se a dar o combate no interior deste campo (ou seja, no interior das organizações do movimento operário e de massas que compõem este campo) é deixar as massas mobilizadas à mercê de suas direções traidoras. É substituir o combate no terreno da luta de classes por um propagandismo sectário e doutrinário.

É preciso acrescentar que a política sectária e ultraesquerdista de construção do “terceiro campo” aplicada pelo PSTU está plenamente de acordo com a caracterização de “ruptura de massas com o PT”. Ora, se a maioria da classe trabalhadora já não segue a direção do PT, não há porque disputar a direção dos atos convocados pela frente popular. Se a classe operária já rompeu com suas direções burocráticas não é preciso aplicar as táticas do trotsquismo e do morenismo que visam desmascarar as direções traidoras, como o Governo Operário Camponês e que visam ao reagrupamento revolucionário da vanguarda, como a Frente Única Revolucionária.


[1] Este texto dá sequência à publicação dos textos da I Conferência do GOI. Leia neste blog os textos anteriores: “A crise crônica dos regimes burgueses”, “A situação pré-revolucionária no Brasil” e “A degeneração do PT e a crise de direção revolucionária”.

[2] Nahuel Moreno, A traição da OCI.

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