W. Ioffe
A crise desencadeada na Rússia pela rebelião da milícia mercenária Wagner trouxe à tona dois fatos: a Rússia, apesar de sua enorme superioridade de armamentos, está atolada na guerra da Ucrânia e pode estar próxima de uma dura derrota; o revés na guerra está abrindo uma crise no regime ditatorial de Wladimir Putin. Esta dinâmica dos fatos, caso se confirme, seria um grande avanço para as lutas do proletariado mundial.
Mais de um ano depois de iniciada a invasão da Ucrânia pelas tropas russas, em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia não consegue obter resultados significativos na guerra. Os planos iniciais de Putin eram anexar todo o leste do território ucraniano, numa faixa que ligaria as regiões de Donetsk e Luhansk até a Criméia e a cidade portuária de Odessa, e de entrar com suas tropas na capital Kiev para impor um protetorado russo. A tomada de Kiev fracassou logo nas primeiras semanas do conflito, por conta da colossal reação do povo ucraniano, que tomou armas e formou milícias de combate, junto ao exército regular, para barrar o avanço das tropas russas. Hoje, o controle russo de áreas a leste e ao norte da Ucrânia se encontra ameaçado pela contraofensiva das tropas ucranianas.

O fracasso na condução da guerra, como não poderia ser diferente, abriu uma crise entre os comandantes das Forças Armadas russas. Sobre quem será jogada a responsabilidade da derrota? A crise se torna mais aguda pela existência da milícia Wagner, um verdadeiro exército paralelo com ampla autonomia para ações militares na guerra da Ucrânia (e noutras partes do mundo). Ao que parece, pelas informações filtradas na imprensa imperialista, Yevgueni Prigozhin, chefe militar e dono da milícia Wagner, conta com apoio de generais influentes do Alto Comando russo, além, obviamente, da complacência do próprio Putin. Afinal, a Wagner é uma criação de Putin e de seu “cozinheiro” Prigozhin, formada por mercenários profissionais e soldados recrutados entre os presidiários e o lumpemproletariado russos. É utilizada como exército mercenário do novo “czar” para suas intervenções em conflitos no Oriente Médio (Síria) e na África (Líbia, Mali, Sudão, República Centro-Africana etc.). Na guerra da Ucrânia, a Wagner tem cumprido um papel chave para reforçar o Exército regular, cuja moral é baixíssima por conta da descrença dos jovens soldados nos objetivos da guerra e dos fracassos dos chefes militares. A Wagner conquistou um alto prestígio entre as tropas e a população russa insuflada pelo nacionalismo grão-russo, pelos resultados de sua ação sanguinária na Ucrânia, como a destruição das cidades de Mariupol e Bakhmut. Isso é o que explica porque a rebelião de Prigozhin quase não enfrentou resistência das tropas regulares das Forças Armadas russas.
A blitzkrieg (guerra relâmpago) de Prigozhin começou com a tomada do principal centro de comando da guerra do exército russo, na cidade de Rostov-sobre-o-Don, no sul da Rússia, e avançou com cerca de 8 mil homens na principal estrada que leva até Moscou. A marcha só foi interrompida por Prigozhin após uma negociação mediada por Putin que deu garantias a ele e seus mercenários de que não seriam punidos pelo motim. A contrapartida foi o “exílio” de Prigozhin em Belarus, governada pelo ditador Alexander Lukashenko, aliado de Putin, e o compromisso de subordinação das tropas da Wagner ao Alto Comando russo. Quanto às mudanças no Alto Comando da Guerra exigidas por Prigozhin, é o que se está por ver nos próximos dias.
Até onde Putin está no controle da situação? Esta dúvida está assombrando não apenas a burguesia mafiosa da Rússia, que sustenta o regime ditatorial de Putin, como também o imperialismo ianque e europeu. A reação das potências imperialistas ocidentais à rebelião deixou nítido que, apesar de seus enfrentamentos com Putin devido à sua política militar expansionista, preferem uma Rússia estável (quer dizer, com as massas proletárias sob controle) governada por ele, a uma crise de consequências imprevisíveis. Biden e seus consortes europeus exigem de Zelemski, presidente da Ucrânia, que não se aproveite da crise do regime de Putin para avançar na contraofensiva militar. Esta política de Biden de “contenção de danos” em relação à crise na Rússia revela qual é a verdadeira política do imperialismo para a guerra na Ucrânia: caminhar em direção a uma paz negociada, em que o governo da Ucrânia aceite a ocupação russa das regiões de Donetsk, Luhansk e da Criméia. Tal posição, se aceita por Zelemski neste momento em que é possível avançar na retomada de territórios e na expulsão das tropas invasoras, seria uma grande traição à resistência do povo ucraniano. Podemos diagnosticar que, quanto mais avance a crise do regime de Putin, mais se acentuarão as pressões do imperialismo ianque e europeu para que Zelemski aceite as anexações em troca do fim da guerra.
Todo este quadro da guerra coloca à prova a política das organizações e correntes que se reivindicam marxistas revolucionárias.
Mostra a falácia da política de “paz sem anexações”, levantada por correntes como a Resistência/PSOL, o MRT- Movimento Revolucionário dos Trabalhadores, o Socialismo ou Barbárie e o POR/CERQUI, que escondem sua política centrista por detrás da caracterização equivocada de que se trata de uma “guerra interimperialista” ou de uma “guerra por procuração” (guerra proxy) e não de uma guerra de defesa nacional da Ucrânia, e de uma visão derrotista de que a “paz” é a única solução possível, na medida em que a Ucrânia não teria condições de expulsar as tropas russas. Da mesma forma, é condenada também a política de “derrotismo revolucionário”, uma adaptação equivocada da política de Lenin, adotada por organizações como a TLTI (Tendência Leninista Trotsquista Internacional), com quem já polemizamos. A realidade mostra o oposto: a vitória da Ucrânia é possível e a consigna de “paz” nada mais é do que uma capitulação ao imperialismo e ao regime de Putin.
O quadro da guerra e a crise na Rússia mostram também a essência contrarrevolucionária da política do reformismo (Lula, PT, Boulos, PSOL etc.) e dos restos do estalinismo (PCdoB, PCB etc.) que, também por trás da palavra de ordem de “paz”, sustentam “pela esquerda” a agressão imperialista russa e o regime bonapartista de Putin. As relações entre Putin e Prigozhin na milícia mercenária Wagner, de inspiração fascista, assim como as atrocidades nazistas praticadas por estes mercenários na Ucrânia, são mais do que suficientes para demonstrar que o regime de Putin nada tem de progressista nem de antimperialista.
A associação entre os reformistas, estalinistas e centristas tem bloqueado, até agora, a solidariedade do proletariado mundial à heroica resistência do povo ucraniano.
A dinâmica da guerra, por outro lado, mostra o acerto da política das organizações socialistas que se colocam na trincheira da Ucrânia. O GOI/Palavra Operária, desde o início do conflito, o caracterizou como uma guerra de defesa nacional da Ucrânia contra a agressão imperialista da Rússia de Putin. Nossa política é a da vitória da resistência do povo ucraniano e da derrota e expulsão das tropas russas, chamando a solidariedade internacional com a causa ucraniana. Neste marco, combatemos o governo pró-imperialista de Zelenskye a OTAN, defendemos o armamento da classe trabalhadora e do povo e a unidade de ação militar de todos os que lutam pela expulsão e derrota das tropas invasoras. A derrota de Putin na Ucrânia será o prenúncio do fim do seu regime ditatorial na Rússia. Esta é a única política revolucionária diante desta guerra, defendida em seus pontos essenciais pelo GOI e outras organizações, das quais destacamos o PSTU/LIT.
A vitória da luta nacional na Ucrânia será um incentivo para as lutas das nacionalidades oprimidas, como o povo palestino, o povo curdo, os povos basco e catalão, os povos originários da América e tantos outros. A derrota de Putin na Ucrânia vai acelerar a crise do seu regime ditatorial na Rússia, abrindo as portas para a ação revolucionária da classe trabalhadora russa. A vitória da Ucrânia na guerra, mesmo que num primeiro momento seja capitalizada politicamente pelo regime pró-imperialista de Zelemski, será sobretudo a vitória da resistência armada do povo ucraniano, a qual vai abrir caminho para fortalecer a classe trabalhadora na luta por uma Ucrânia livre, independente e socialista.
[Imagem: Máscaras representando o presidente russo Vladimir Putin e o lider do Grupo Wagner, Yevgeniy Prigozhin exibidas em São Petersburgo, em 4 de junho. (AP)]


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