Eu sou funcionário público, escrivão. Mas se me mandam escrever
elogios pra político, eu não escrevo – não vou, não aceito, não faço! Já falei que
isso não escrevo
(Escritos Negros Modernistas – Uma leitura encenada)[2]
Os patrões fazem sua riqueza com o sangue e o suor dos trabalhadores e trabalhadoras, explorados em empresas, escritórios, restaurantes, casas, plataformas e etc., e a maior parte dos políticos trabalham para manter essa riqueza, produzida pela classe trabalhadora, nas mãos dos patrões.
O setor público não escapa dessa lógica de superexploração da força de trabalho, em todas as esferas, municipal, estadual e federal. Aqui, em Taboão da Serra, há um histórico de precarização: Salários congelados por mais de uma década, trabalhadoras e trabalhadores ganhando menos de um salário mínimo, fim do décimo quarto salário, terceirização, equipamentos sem estrutura e assédios traduzem uma parte dessa política de exploração no setor público municipal da nossa cidade.
No entanto, a realidade não é estanque, mas permeável à luta dos trabalhadores, explorados, contra os patrões, exploradores, e seus defensores políticos. E dessa luta se faz a história dos nossos dias, que se desenrola com as várias armas que os contendores têm para o combate. Dentre essas armas, a classe trabalhadora conquistou, historicamente, o direito de greve, que, no funcionalismo de Taboão da Serra, foi a tônica do enfrentamento neste quartel do século XXI.
Em 2005, trabalhadores e trabalhadoras da Usina, Educação e Saúde paralisaram os seus serviços, em 2011 e 2012 foi a vez das Assistentes de desenvolvimento infantil (ADIs) e Assistentes de desenvolvimento Escolar (ADEs); em 2014, trabalhadores e trabalhadoras da Educação, Assistência Social, Manutenção e Cultura; em 2017 houve uma greve de 62 dias do quadro de apoio da Educação, que se juntou à greve geral contra a reforma trabalhista do então presidente (golpista) Michel Temer; e em 2021 houve várias paralisações e manifestações do funcionalismo.
Já em 2025, com a pauta de reivindicações não atendidas, com a perda das gratificações por parte significativa do funcionalismo, com a provocação do vereador Wanderley Bressan acusando os servidores concursados de onerar a folha e sugerindo demissão voluntária àqueles que estavam afastados ou insatisfeitos, enquanto ele e o conjunto dos vereadores, prefeito e vice tiveram um aumento de até 70%, passando a ganhar 17, 30 e 21 mil reais, respectivamente[3], os trabalhadores e trabalhadoras reagem.
Diante desses ataques e omissões e contando agora com a experiência daqueles e daquelas que participaram das outras greves, o funcionalismo insurge-se novamente reivindicando uma pauta, cujo conteúdo era nenhum trabalhador ou trabalhadora ganhando abaixo do salário mínimo nacional, aumento do vale alimentação para R$1.000, implementação do Vale refeição, e vale transporte para todos os funcionários. Reivindicações que não foram atendidas, diga-se de passagem. Pois, embora algumas categorias tenham conseguido incorporar o abono ao salário base para se chegar ao valor do mínimo nacional, ainda existem os beneficiários do antigo programa PAP, agora Qualifica, na sua maioria mulheres, que são contratados, em desacordo com a lei, como trabalhadores precarizados, cujos salários são de R$900[4].
No início foram feitas assembleias no pátio do sindicato dos funcionários públicos de Taboão da Serra (SindTaboão), que se viu pressionado pelos trabalhadores a dar um prazo para prefeitura encaminhar uma resposta às reivindicações da base, que votou o estado de greve e foi para os seus locais de trabalho, nos outros dias, vestidos de preto, numa ação simbólica, cujo objetivo era comunicar a todos e todas que estávamos nos preparando para uma paralisação caso a prefeitura não nos ouvisse.
Passados os dias e sem nenhuma resposta do prefeito Engenheiro Daniel, no dia 5 de junho trabalhadores e trabalhadoras da Cultura, Saúde, Assistência, Gestão de Pessoas, Educação, dentre outras secretarias, paralisaram os serviços e fizeram uma passeata até a prefeitura[5], onde uma comissão foi votada para conversar com o prefeito, que, sem negociação, apontou a reivindicação de nenhum trabalhador ganhar abaixo do mínimo como a única que seria atendida, mas, ainda, só depois de trinta dias. A comissão volta então para a frente da prefeitura, onde estavam os outros trabalhadores, e arma-se uma assembleia. O sindicato se posiciona pelo fim da greve, aceitando a migalha concedida pelo prefeito, mas é vencido pela base que vota pela continuidade.
No dia seguinte, 6 de junho, agora com o senhor Paulo Silas, secretário de Governo, nova mesa de negociação, na qual se ouvem as mesmas desculpas, de que os problemas não são dessa gestão, mas que estão abertos ao diálogo e vão estudar as propostas – Ladainhas para ganhar tempo e desmobilizar o movimento, pois muito estudam e nada aprendem. No entanto, um dos fatos mais relevantes desse dia foi a posição do sindicato, que não só parecia estar de acordo com o governo, como também tentou silenciar duas companheiras que defendiam as posições tiradas pela base.
Depois de mais uma negociação sem êxito voltamos para o sindicato, onde estava instaurada uma divisão entre uma parte significativa da base, que queria avançar com a greve e pressionar o governo, e a direção do sindicato, que parecia satisfeita com aquele monte de conversa sem avanço para além da pauta do salário mínimo. Entretanto, a base aguerrida, que queria a resolução daquela reivindicações, venceu mais uma vez e, em assembleia, marcou-se uma paralisação com manifestação na câmara para o dia 10 de junho.
Na câmara, com o jingle “Pior salário da região é Taboão” (paródia de Bella Ciao), voltamos a exigir que nossas reivindicações fossem atendidas e mais uma vez fomos enrolados. Ao fim da sessão, a base do funcionalismo queria fazer uma assembleia, em frente à câmara, para decidir os próximos passos e dar continuidade ao movimento de campanha salarial, mas o sindicato desmobilizou os trabalhadores e anunciou estado de greve, que, de forma descuidada, perdura até hoje.
Olhando em retrospectiva é importante fazer algumas observações com relação à atuação do sindicato:
- Ele estava despreparado para negociar com o governo;
- A direção não ouviu a base, silenciando algumas camaradas;
- O sindicato não foi claro no direcionamento da luta, deixando a base perdida, com informações desencontradas;
- Faltou deixar os trabalhadores mobilizados com uma comissão permanente de mobilização proposta pela base;
- Não houve nenhum balanço posterior do que foi aquela greve, dentre outros pontos que numa avaliação coletiva deveríamos elencar.
Depois da greve, mesmo sem a presença firme do sindicato, os trabalhadores continuaram a campanha salarial, com ações como live, petição que pedia a inclusão do funcionalismo no orçamento de 2026 (negado pelo governo) e uma ação na câmara durante a votação da lei orçamentária anual para 2026, que terminou em confusão entre servidores concursados e livre nomeados convocados pelos vereadores e o governo.
Uma das lições que fica dessa luta de 2025 é que, neste ano de 2026, precisamos organizar comissões nos locais de trabalho de forma independente, para mobilizar mais e mais trabalhadores que pressionem as organizações representativas como os sindicatos para o enfrentamento e não a conciliação, que sempre termina com desvantagens para os trabalhadores.
Portanto, trabalhadores e trabalhadoras de todos os setores do funcionalismo vamos nos unir em uma nova assembleia em maio, para elencar as tarefas da nossa luta por melhores condições de trabalho e desmascarar o discurso fácil de que o problema é a arrecadação. Não, o problema é a prioridade na distribuição do que é arrecadado. Vamos juntos nessa luta, até a vitória sempre!!!!
Por André Luiz? (Estou na dúvida do pseudônimo)
[1] Para acompanhar a luta do funcionalismo em Taboão da Serra siga a página: https://www.facebook.com/share/1C6qF4EYRu/
[2] http://blogdabrava.blogspot.com/p/repertorio-atual-da-brava-companhia.html
[3] Câmara aprova aumento de até 70% para vereadores, prefeito e vice de Taboão da Serra a partir de 2025 – VERBO ONLINE https://verboonline.com.br/2024/01/09/camara-aprova-aumento-de-ate-70-para-vereadores-prefeito-e-vice-de-taboao-da-serra-a-partir-de-2025/
[4] https://drive.google.com/file/d/1z9YqeGFyo2vZvG3Gh0ho8ZwaG0L3kS7Q/view?usp=drivesdk

Deixe um comentário