À beira do abismo. Análise da conjuntura mundial e nacional (parte 1)

Disponibilizamos às/aos nossas/os leitoras/es a Análise da Conjuntura Mundial e Nacional feita pelo GOI. Vamos publicá-la em 3 artigos.

Crise do imperialismo e seus reflexos no Brasil

Estamos vivendo a maior crise do sistema capitalista-imperialista desde o período de 1914 a 1945, quando três eventos da luta de classes (I e II Guerra Mundiais e Revolução Russa) abriram o que Lenin definiu como uma época de guerras e revoluções. A crise econômica de 2008-2009 abriu o período mais recente desta época de crise, e, desde então, tivemos grandes acontecimentos que marcam o seu agravamento: a recessão econômica, que alterna momentos de estagnação e de retração da economia mundial; a Pandemia do Coronavírus, que infectou mais de 500 milhões e matou pelo menos 6 milhões e 250 mil pessoas no mundo; e, agora, a Guerra na Ucrânia, com milhares de mortos e cerca de 5 milhões de refugiados (além da Ucrânia, há pelo menos mais sete conflitos na África e na Ásia: Etiópia, Iêmen, Mianmar, Síria, Sudão do Sul e Afeganistão).

Ao compasso do aumento do desemprego, das jornadas de trabalho estafantes, da carestia de vida, das doenças e do morticínio das guerras, acirra-se a luta de classes na forma de greves, lutas por direitos do proletariado e dos povos e setores oprimidos, levantes e semi-insurreições que explodem aqui e acolá, em vários países.

Antes de mais nada, é preciso que a vanguarda ativista e revolucionária tenha consciência de que os próximos anos e décadas serão de agravamento do sofrimento da classe trabalhadora e de todas as classes e povos oprimidos pela burguesia imperialista e seus sócios burgueses dos países semicoloniais. Todas as promessas de “esperança” de melhoria das condições de vida do povo trabalhador através de “políticas públicas”, “revoluções solidárias” e outras roupagens que vestem hoje o velho reformismo, propalada pelos arautos da frente popular, do tipo de Lula e de Boulos, no Brasil, não passam de uma mentira traidora a serviço da burguesia.

No marco desta crise mundial, o Brasil é um dos países que se destacam pela rápida piora das condições de vida. Entre 2014 e 2021, enquanto o PIB global cresceu 20,5%, o brasileiro caiu 0,9%. De 2019 a 2022, o crescimento médio do PIB brasileiro foi de míseros 0,55%, enquanto o crescimento médio da população foi de 0,74%, evidenciando a queda do PIB per capita, ou seja, o empobrecimento do povo trabalhador. As previsões são de “crescimento” do PIB em torno de 1% neste ano e no próximo.

A burguesia busca sair desta crise crônica do país aumentando a exploração do proletariado com o avanço da precarização das condições de trabalho, o avanço sobre as terras indígenas e camponesas (principalmente na Amazônia) e com a destruição/privatização dos serviços públicos. De um total de cerca de 90 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, apenas cerca de 39 milhões tem carteira assinada ou são funcionários públicos, e há cerca de 51 milhões de precarizados. Cerca de 17 milhões estão desempregados e 30 milhões subutilizados. 116 milhões vivem em “insegurança alimentar”, sendo 19 milhões já diretamente passando fome

Crise do regime democrático burguês

Sobre este verdadeiro terremoto econômico e social, o regime democrático burguês vive uma crise crônica no mundo. A burguesia imperialista e seus capachos nos países semicoloniais se dividem cada vez mais em dois grandes blocos políticos em nível mundial, que denominaremos, a princípio, como o bloco bonapartista-fascista, e o bloco democrático frente-populista. O que divide estes dois blocos não é a “política econômica”, pois ambos defendem, com discursos diversos, o aumento da exploração do proletariado e a submissão colonialista dos povos oprimidos, como saída para a crise do imperialismo e das economias nacionais. O que divide estes dois blocos burgueses é a política para derrotar a luta de classes do proletariado mundial e dos povos e setores oprimidos.

O bloco bonapartista-fascista tem à frente o magnata Donald Trump, com um séquito de partidos, governantes e aspirantes a “Führer” que se espalha pelo mundo, desde Marine Le Pen (França), passando por Wladimir Putin (Rússia), o carniceiro Bashar al-Assad (Síria), até o “Messias” brasileiro. Esta fração da burguesia mundial, diante da crise do regime democrático burguês, não busca salvá-lo, mas age conscientemente para terminar de derrubá-lo, substituindo-o por regimes bonapartistas ou fascistas que esmaguem as organizações e a luta do proletariado, eliminando as liberdades democráticas duramente conquistadas, abrindo caminho para a exploração sem limites da classe trabalhadora.

O bloco democrático-frentepopulista é encabeçado pelo letárgico Joe Biden, presidente dos Estados Unidos (e a cúpula do Partido Democrata, com Barack Obama à frente), e por Emmanuel Macrón (França), a ex-chanceler Ângela Merkel (Alemanha), entre outros personagens “democráticos” dos países imperialistas. Na rabeira deste bloco da burguesia “democrática” se arrastam os partidos e dirigentes reformistas ou “bonapartistas sui generis” que falam em nome da classe trabalhadora, a começar por Lula (PT) e Boulos (PSOL), no Brasil, o “jovem presidente socialista” Gabriel Boric (Chile), o “velho guerrilheiro” José Mujica (Uruguai), Evo Morales (Bolívia) e a peronista Cristina Kirchner (Argentina), entre tantos. Este bloco, que une os partidos burgueses “democráticos” com os partidos operários-burgueses reformistas, as burocracias dos sindicatos e movimentos populares e camponeses e uma miríade de “mandatos parlamentares de esquerda”, se apresenta como “o defensor da democracia contra o fascismo”, e seu programa burguês está recheado com promessas de “políticas públicas” para o povo pobre e trabalhador e de “empoderamento” das mulheres, negros, indígenas e LGBTQIA+. 

Ambos os blocos burgueses têm como objetivo desmobilizar, paralisar e derrotar a luta do proletariado e dos povos oprimidos; o primeiro, pela força das armas, defendendo, se preparando ou empregando diretamente quando são governos, métodos de guerra civil contra o proletariado e suas organizações; o segundo, através do engano e da manipulação das massas trabalhadoras e da vanguarda ativista através de alianças e pactos de colaboração de classes para desviar a luta direta para a via morta das eleições e dos parlamentos e “constituintes” burguesas.

Brasil: Bolsonaro versus Lula

A polarização política entre estes dois blocos contrarrevolucionários se expressa no Brasil através da polarização entre o bolsonarismo e a frente popular de Lula-Boulos-Alckmin. Esta polarização se expressa não somente nas eleições, mas também nas ruas, através de mobilizações de massas, como tem ocorrido ao longo dos últimos anos, com o movimento Fora Bolsonaro e os atos bolsonaristas. Ela perpassa o conjunto das instituições políticas e sociais, desde os poderes estatais, os partidos políticos, as igrejas, as redes de mídia e informação etc. Uma evidência desta polarização entre o bonapartismo-fascismo e a frente popular é o naufrágio tragicômico das tentativas da burguesia “democrática” de formar uma “3ª via” para disputar as eleições deste ano.

[Imagem: Charges do Bruno]

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