Greve na Renault: metalúrgicos mostram o caminho para a defesa dos empregos

Os metalúrgicos da Renault de São José dos Pinhais/Paraná, aprovaram no dia 21/7, em assembleia realizada na porta da fábrica, greve por tempo indeterminado após a empresa anunciar, em meio a um processo de negociação com o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (Força Sindical), a demissão de 747 operários e operárias, junto com o fechamento do 3º turno de produção do Complexo Ayrton Senna, localizado na região metropolitana de Curitiba.

A planta da Renault de São José dos Pinhais foi inaugurada em 1996. Atualmente, possui cerca de 7.300 funcionários/as, segundo dados divulgados pelo sindicato. A demissão de 747 metalúrgicos, logo, representa mais de 10% deste total. Desde as negociações para a vinda da empresa ao Paraná, os governos estadual e municipal concedem isenções fiscais milionárias à Renault, exigindo em contrapartida a geração de empregos e manutenção dos mesmos em tempos de crise. No entanto, a decisão arbitrária da Renault rompe o acordo, descumpre a lei 15.426/2007 e vai na contramão dos interesses locais e da classe trabalhadora, sobretudo diante do aumento do número de casos de Covid-19 no Paraná (59.927 confirmados até 22/7) e do número de mortos (1.486 confirmados).

Alegando supostos prejuízos com a pandemia, que teria feito cair suas vendas em 47%, a Renault vinha buscando chantagear os trabalhadores e trabalhadoras durante as negociações que estavam ocorrendo nas últimas semanas. Os operários e operários rechaçaram os ataques da patronal, que tinha em seus planos, desde maio, quando foi derrotada pela organização dos trabalhadores e trabalhadoras, a redução de salários e redução da jornada, além do atual PDV (Plano de Demissão Voluntária), também rejeitado pelos metalúrgicos.

A retaliação da empresa diante de seguidas derrotas ao tentar atacar os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras foi com as demissões realizadas na tarde de terça-feira, 21/7. Segundo relatos dos operários e operárias, muitos funcionários que estavam lesionados ou de atestado médico foram demitidos. Além disso, os contratos temporários também foram suspensos.

A esposa de um dos funcionários demitidos fez o seguinte relato em uma rede social: “não foram só os novos a perderem seus empregos. Meu marido, 10 anos de Renault, está entre esses que perderam essa semana seu sustento. Infelizmente, o pior é saber que foi em um momento onde já não se consegue encontrar um trabalho na área que ele atua e ganhe o mesmo para honrar as dívidas! Já não consigo mais trabalhar período integral, pois tenho dois filhos e com a epidemia já estão ficando aos meus cuidados, pois as escolas não podem abrir. Faço acompanhamento psicológico e fonoaudiológico que o plano ajudava. Agora vou ter que, infelizmente, parar o tratamento até que consiga se restabelecer novamente. Por que pra eles, infelizmente, é apenas mais um funcionário que pode ser substituído.”

Muitos funcionários, inclusive, acreditam que o plano da empresa com as demissões de agora é para, lá na frente, recontratar a força de trabalho com salários menores e por contratos temporários e precarizados.

Para manipular a opinião pública e dos trabalhadores diante da crueldade de tantas demissões de pais e mães de família, a Renault em nota disse que: “como forma de suportar os colaboradores nesse momento, além das verbas rescisórias legais – o que inclui indenização prevista na MP936 – a Renault concederá adicionalmente a extensão do vale-mercado integral até out/20, extensão do plano de saúde, mantendo a cobertura atual para o titular e dependentes, até dez/20″.

Importante ressaltar que somente em 2019, segundo os dados de balanço disponibilizados pelo próprio grupo Renault, só no Brasil, “os volumes de vendas aumentaram 11,3%, para 239.174 veículos, e a participação de mercado atingiu um nível recorde de 9% (+0,3 ponto), devido aos bons resultados do Kwid. O mercado se mantém dinâmico, avançando 7,4%”. Além destes dados, foi divulgado que “o Grupo consolida posições em seus mercados principais: avanço de 1,3% na Europa; manutenção de uma sólida liderança na Rússia, com 29% de participação de mercado; no Brasil, a Renault subiu duas posições, assumindo o 4ª lugar entre as marcas; na Índia, a Renault é a única marca a avançar em veículos de passeio”.

A Renault, como se vê, vem expandindo seus negócios e sua produção, e agora descarrega a crise nas costas dos metalúrgicos e metalúrgicas que lhes garantiram os lucros nos últimos anos. Assim como outras multinacionais e grandes empresas nacionais, utiliza a cartilha do “efeito pandemia” para demitir e atacar direitos da nossa classe, se aproveitando, sobretudo, dos incentivos dados pelo governo federal de Bolsonaro, com a MP 936 e a malfadada Carteira Verde e Amarela. Muitos trabalhadores e trabalhadoras estão ameaçados/as pelo desemprego, que aumentou muito durante a pandemia.

A ofensiva da burguesia sobre os nossos direitos, que vem sendo implementada desde a aprovação da PEC do Fim do Mundo, Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência, busca manter a classe trabalhadora na defensiva. Não podemos deixar que nossos direitos, conquistados com o suor e sangue de nossos antepassados, sejam arrancados de nós sem nenhuma resistência. Por isso, a greve por tempo indeterminado aprovada pelos metalúrgicos da Renault em solidariedade aos 747 demitidos e contra os ataques aos seus empregos e salários é um grande exemplo a ser seguido pela nossa classe.

Está na hora dos sindicatos metalúrgicos de todo o país e as centrais sindicais mobilizarem a classe operária para resistir de forma unificada às demissões que estão assolando a categoria desde o ano passado, e que crescem agora com a crise pandêmica e econômica (a exemplo da demissão de 398 operários pela Nissan de Resende/RJ).

Os lucros dos patrões é fruto da exploração da nossa classe. E somente com a solidariedade de classe entre os debaixo e muita luta e resistência será possível conquistarmos uma vida digna para nós e nossas famílias.

Chamamos todas as organizações, partidos de luta, coletivos e ativistas da classe trabalhadora a apoiar, divulgar e se solidarizar com esta luta e a seguir o exemplo da classe operária. A única forma de barrarmos os ataques da burguesia e seus governos é com luta e greve!

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