Todo apoio à jovem J.F.C.,  denunciada à polícia por tentativa de aborto!

Por Latoya

Duas notícias recentes escancaram a maneira desrespeitosa e absurda com que são tratadas as mulheres trabalhadoras e pobres no Brasil, em relação à gravidez indesejada.

Equipe médica denuncia mulher por tentativa de aborto em Taboão da Serra. A polícia foi chamada para atender a ocorrência. Aos PMs a jovem confirmou as informações e disse que já tem dois filhos de 3 e 1 ano, não tem local certo para ficar e também não tem qualquer apoio dos pais das crianças, em um ato de desespero resolveu interromper a gestação. Para isso usou o único meio que lhe pareceu possível e que não se importou com a própria vida. (…) A mãe dela disse que a filha precisa de ajuda médica e psicológica em razão dos problemas por que passa. E que a J. morava com uma tia em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, mas foi expulsa há duas semanas após a notícia da gravidez.” (Portal O Taboanense, 26/6/2019)

Um Projeto de Lei (PL) apresentado pelo vereador Fernando Holiday (DEM-SP) permite a internação psiquiátrica de mulheres grávidas caso seja constatado, durante atendimento médico, que a paciente tem “propensão ao abortamento ilegal”. (…) O parlamentar diz que o recurso à internação seria só nos casos de “prejuízo mental ou dependência química”. (O Estado de São Paulo, 24/6/2019)

O parlamentar de direita Fernando Holiday (espantosamente jovem, negro e gay!), apoiador do Presidente Jair Bolsonaro, propõe um projeto que interdita e trancafia mulheres que manifestem a intenção de interromper a gravidez. Estas seriam internadas, obrigadas a levar a gravidez até o fim e depois, com certeza, jogadas na rua com @s filh@s para se virarem com seus problemas de desemprego, falta de moradia, falta de creches, falta de assistência médica e psicológica. Hipocrisia pura!

A equipe médica do Hospital Antena, em Taboão da Serra, cuja identidade foi preservada, denunciou à polícia local uma jovem mãe de outros dois filhos, internada com hemorragia após tentativa de interrupção da gravidez. Agora a jovem, ainda grávida, está internada e pode ser presa (ou, caso sejam aprovados projetos como o de Holiday, ser internada por problemas psiquiátricos).

As duas atitudes, a do parlamentar e a da equipe médica, merecem em nossa opinião o mais veemente repúdio e indignação das mulheres e homens da classe trabalhadora.

Temos certeza absoluta de que nenhuma mulher rica, burguesa, foi ou será internada ou presa por tentar ou fazer um aborto. Estas seguem interrompendo a gravidez indesejada em clínicas seguras, sem sequelas, riscos, incômodos e julgamentos de terceiros.

Já as mulheres trabalhadoras, sobretudo as mais jovens e pobres, estão cada vez mais submetidas ao moralismo religioso, às leis e reféns do machismo daqueles que as condenam, mas que não se preocupam de verdade com suas vidas: se já têm outros filhos; se a criança tem pai que vai contribuir com a criação e educação; se a mãe tem ou manterá o emprego após a gravidez indesejada; se haverá condições de lhe garantir as necessidades básicas.

As manifestação machistas de desrespeito à vontade da mulher precisam ser denunciadas e repudiadas por todas as feministas, mulheres e homens dign@s da classe trabalhadora, que respeitam e sabem que quando uma mulher decide interromper uma gravidez é porque ela não tem a mínima condição de arcar com esta imensa responsabilidade de gerar esta vida.

Quando decide manter a gravidez, a mulher tem que ser respeitada, reverenciada e apoiada por esta decisão: garantia de emprego e salário digno, garantia de moradia, garantia de assistência medica e hospitalar durante e depois da gravidez e creche de qualidade depois que a criança nascer para que ela possa lhe assegurar vida digna. No entanto, quando a mulher manifesta incapacidade de seguir adiante com uma gravidez, não pode de forma alguma ser condenada por isso: nem com cadeia, nem com internação compulsória por loucura, nem com a obrigação de levar a gravidez adiante.

Precisamos conversar seriamente sobre o direito ao aborto, sobre o direito da mulher da classe trabalhadora decidir sobre seu corpo e sua vida, pois são nossas mulheres que estão morrendo por abortos inseguros, que estão sendo presas e sujeitas a novamente serem internadas compulsoriamente por manifestarem a intenção de interromper uma gravidez.

  • Abaixo o projeto do vereador Holiday!
  • Total repúdio à atitude da equipe médica do hospital Antena em Taboão da Serra!
  • Todo apoio dos movimentos feministas e organizações da classe trabalhadora à jovem J.F.C de Taboão!
  • Direito ao aborto legal e seguro para as mulheres da classe trabalhadora!

P.S.: indicamos a noss@s leitor@s o filme “O aborto dos outros” (direção de Carla Gallo, 2008), que retrata muito bem a situação das mulheres pobres e trabalhadoras que fazem aborto no Brasil; e o livro “Holocausto brasileiro” (da jornalista Daniela Arbex, 2013, há também um documentário) que investiga casos de internação psiquiátrica autoritária de mulheres e homens pobres no estado de Minas Gerais no século passado.

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