Frente ampla democrática ou frente da classe trabalhadora, sem patrões?

Por Wiliam Felippe

Renegado pelos principais partidos da burguesia no primeiro turno das eleições, o candidato de Lula e do PT, Fernando Haddad, busca no segundo turno, com mais ímpeto, reerguer as pontes em direção à classe dominante. Haddad acena a “todos os democratas” com a formação de “um governo mais amplo que nunca”, clamando pela unidade “em defesa da democracia” para deter a avalanche bolsonarista. Como atrativo para os ricos propõe retirar a “taxação das grandes fortunas” de seu programa de governo. Jacques Wagner, outro dirigente petista, vai mais longe, propondo abrir mão de qualquer programa, reduzindo-o a um único ponto, a “defesa da democracia”.

Para agradar aos olhos e ouvidos dos “democratas”, a cor vermelha foi substituída pelo verde e amarelo, e frases do tipo “Todos pelo Brasil” dão o tom na campanha do segundo turno, no lugar dos apelos classistas da campanha do primeiro turno. O “Lula livre” e o “Haddad é Lula” foi abandonado junto com a própria defesa da liberdade do principal dirigente petista, que segue em sua cela em Curitiba. Uma vez que já foi garantido o voto dos operários e operárias mais conscientes no primeiro turno, os apertos de mãos nas portas de fábricas dão lugar às reuniões com artistas, religiosos e figuras ilustres representativas da burguesia e da pequena burguesia.

Neste vale tudo pela “democracia”, vários representantes da burguesia “democrática” estão sendo procurados: de Joaquim Barbosa, o verdugo do mensalão, a Fernando Henrique Cardoso, principal eminência do PSDB. Contudo, apesar do desapego programático de Haddad, de Lula e da direção do PT, as principais lideranças burguesas seguem mantendo distância do partido, insensíveis aos apelos para a defesa da democracia.

FHC esconjurou o apoio a Haddad, e o PSDB manifestou “neutralidade” no segundo turno, em meio a uma grave crise interna, após amargar sua maior derrota eleitoral. Enquanto isso, Dória, candidato tucano no principal bastião do partido, o governo do estado de São Paulo, defende Bolsonaro desde o primeiro turno, com a dobradinha informal “bolsodória”. Até agora, além do inexpressivo PROS, apenas o PSB, aliado histórico do PT, se uniu à frente ampla democrática de Haddad. Mesmo assim, o PSB o fez menos por sua preocupação com a democracia e mais por seu apego ao acordo feito com Lula, já no primeiro turno, que garantiu tranquilidade aos oligarcas da família Campos para seguirem governando o estado de Pernambuco, onde o PT tem a sua maior influência. Prova disso é que Márcio França, candidato do PSB a governador de São Paulo, se mantém “neutro” na disputa do segundo turno, facilitando a vitória de Bolsonaro no maior colégio eleitoral do país. O PDT de Ciro Gomes, que saiu fortalecido do primeiro turno, em terceiro lugar na disputa presidencial com mais de 13 milhões de votos, se recusou a integrar a frente ampla, manifestando apenas um “apoio crítico” formal e distante ao candidato do PT. Isso, depois de Ciro garantir o seu quinhão de poder elegendo seu irmão Cid Gomes como senador no Ceará, com a ajuda do PT. Vários oligarcas regionais do corrupto MDB de Temer se mantém no poder graças às alianças com o PT, principalmente no Nordeste, a exemplo de Renan Calheiros, pai e filho, que também já colocam suas barbas de molho, se precavendo de uma vitória de Bolsonaro.

Este quadro resumido do fracasso da política de frente ampla da direção do PT é por si só uma demonstração da completa inutilidade da burguesia para a defesa da democracia e para o enfrentamento a Bolsonaro e a ultradireita. Esta atitude dos partidos e políticos burgueses responde a uma orientação de classe: os principais setores da classe dominante vinculados ao capital financeiro, industrial e agroindustrial apostam (inclusive literalmente, nas bolsas de valores e na especulação com o dólar) na vitória de Bolsonaro, visto como o mal menor diante do PT. A burguesia compreende que a vitória do PT seria entendida pelos setores mais conscientes e organizados da classe trabalhadora e do povo pobre e oprimido como uma vitória que os fortaleceria para seguir enfrentando os planos de “ajustes e reformas”, que serão cobrados do novo governo, logo após as urnas serem fechadas. Já a vitória de Bolsonaro, apesar de não ser o candidato dos sonhos da burguesia “democrática”, seria uma derrota eleitoral da classe trabalhadora e uma vitória política do conjunto da classe exploradora, que colocaria no poder os setores mais reacionários da burguesia e da pequena burguesia, fortalecidos para dar continuidade aos planos antioperários de Temer.

A classe trabalhadora e a defesa da democracia

A defesa da “democracia”, que Haddad e a direção do PT se auto atribuem, ficou inteiramente nas mãos da classe trabalhadora, dos seus setores mais conscientes e organizados, e do povo pobre, oprimido e marginalizado, que repudiaram Bolsonaro e os demais candidatos da burguesia dando mais de 29% dos votos a Haddad no primeiro turno. A vitória isolada no Nordeste, em que o PT arrastou inclusive o voto de grande parcela da pequena burguesia e da “classe média”, não é um mero acaso, pois se trata da região mais espoliada e discriminada do país, particularmente pelas classes abastadas do sul, sudeste e centro oeste, onde Bolsonaro venceu com larga vantagem.

Os mais de 31 milhões de votos no PT são a expressão eleitoral das poderosas reservas de consciência, de organização e de disposição de luta do proletariado, que conseguiram se impor sobre a campanha permanente da burguesia de criminalização do PT e do conjunto da esquerda, que vem sendo orquestrada pelo menos desde as manifestações do Coxinhaço que derrubaram Dilma Rousseff, em 2015. Essa demonstração de “lealdade de classe” a Lula e ao PT se dá apesar de sua aliança permanente com a burguesia, de seus compromissos com a manutenção do sistema capitalista de exploração econômica, de sua subserviência colonial ao imperialismo (principalmente ianque) e de seu zelo na preservação do regime político da democracia corrupta dos ricos.

Depois de quase 13 anos de governos da Frente Brasil Popular, de coligação do PT com os partidos burgueses, a dominação de classe da burguesia se manteve intacta, enquanto o PT se afundava na corrupção, fazendo valer o velho ditado: “quem se mistura com os porcos, farelo come”. Passado o período de bonança econômica que marcou os três primeiros mandatos da frente popular (governos Lula e o primeiro mandato de Dilma), a crise mundial do capitalismo liquidou as ilusões de que a maioria dos pobres tinha ascendido a uma “nova classe média”, dando lugar ao pesadelo atual de mais de 27 milhões de desempregados e subempregados.

O fracasso da política burguesa de Lula e do PT de gestão democrática do Estado burguês é o principal responsável pelo crescimento da ultradireita, que se apoia principalmente na desilusão da maioria da pequena burguesia e da “classe média” e de parcela considerável da própria classe trabalhadora, sobretudo a juventude, com as falsas promessas petistas de solução dos problemas nacionais através da aliança entre o capital e o trabalho e da subserviência ao imperialismo.

Mesmo após o impeachment forjado contra o governo Dilma, o PT se manteve fiel ao compromisso de manutenção da ordem democrática burguesa. Lula usou sua liderança sobre as organizações do movimento para impedir a queda de Temer nas jornadas de lutas do primeiro semestre do ano passado que culminaram na greve geral de 28 de abril. A derrubada do odiado governo Temer por uma greve geral da classe trabalhadora teria colocado a burguesia na defensiva, inclusive a ultradireita bolsonarista.

Contudo, apesar dos erros e traições de Lula e do PT, a classe operária soube utilizar a velha ferramenta enferrujada para enfrentar a ameaça que vem do bolsonarismo, do militarismo e do fascismo.

Este comportamento e dinâmica das classes fundamentais da sociedade não deixam dúvidas de que a classe trabalhadora é a única classe progressista, a única que pode, colocando sob sua direção as camadas mais pobres da pequena burguesia e da “classe média”, “defender a democracia” diante do autoritarismo.

Às classes exploradas e oprimidas só interessa defender esta “democracia” que está aí diante de um golpe militar ou fascista, que ameace fazer retroceder até mesmo o direito democrático de eleger os governantes, para impor o domínio “desavergonhadamente simples” de uma ditadura burguesa sustentada pelas armas. Mas, a “democracia” que está aí é falsa, é uma democracia corrupta a serviço da burguesia e do imperialismo. Os anos de governos da frente popular anestesiaram a consciência da vanguarda proletária com a ideia de que é possível usar esta “democracia” para fazer um “governo para todos”. Mas, a curta experiência com o governo Temer escancarou o caráter de classe burguês do atual regime democrático, evidenciando que é um instrumento para a exploração e a opressão da classe trabalhadora e do povo pobre.

Para defender suas condições de trabalho e de vida contra o massacre dos planos de “ajuste e reformas” da burguesia e do imperialismo, e para defender as liberdades democráticas de organização e manifestação duramente conquistadas, a classe trabalhadora e o povo pobre e oprimido terão de seguir se enfrentando com os poderes da “democracia” que está aí a serviço da exploração patronal. O próximo período será de uma dura luta de classes contra a repressão militar às greves e manifestações e a perseguição de ativistas, contra a casta de parasitas do Judiciário a serviço dos ricos e poderosos, contra o “novo” Congresso Nacional ainda mais patronal e corrupto que acaba de ser eleito. E também contra a presidência da República, com toda certeza, no caso de ser assumida por Bolsonaro, ou, no caso de ser assumida por Haddad e ele trair seus compromissos de preservação dos direitos trabalhistas, sociais e democráticos.

Neste processo de lutas contra a “democracia corrupta dos ricos” será necessário e possível avançar de forma revolucionária em direção à construção de um regime político verdadeiramente democrático, organizado e controlado pelo proletariado e pelo povo pobre, que tome as medidas necessárias para acabar com a exploração e a opressão da burguesia e do imperialismo.

A necessidade da Frente da Classe Trabalhadora, sem patrões

É com base nestes processos concretos da luta de classes (que também se manifestam nas eleições) e da consciência e da ação das massas trabalhadoras que os grupos e partidos marxistas revolucionários necessitam construir uma política que aponte uma direção correta para nossa classe, que não pode ser outra senão a conquista de sua independência política diante da burguesia e a estratégia da tomada do poder pelo proletariado. Esta política será construída fundamentalmente nas lutas contra a ofensiva econômica da burguesia e contra o crescimento do autoritarismo do regime político.

Neste sentido, é preciso também contrapor à política petista da frente ampla democrática com a burguesia, a política da Frente da Classe Trabalhadora, sem patrões, exigindo do PT que rompa suas alianças com a burguesia e seus partidos e avance em direção a um governo da classe trabalhadora e do povo pobre, sem patrões.

É possível que os dirigentes burocratizados e aburguesados do PT caminhem nesta direção? Acreditamos, como já foi alertado por Trotsky (Programa de Transição), que é muito pouco provável. Os laços que unem a direção do PT à burguesia e ao imperialismo são mais fortes que as correntes que prenderam Prometeu a uma rocha. Apesar de o governo Dilma ter sido derrubado, apesar da perseguição seletiva da Lava Jato do juiz Moro e seus asseclas que levou Lula à prisão, a direção do PT e sobretudo Lula se mantém fiéis à sua política nefasta de alianças com os patrões.

Contudo, a exigência de que rompam com a burguesia e o imperialismo e lutem por um governo operário, popular e camponês, um governo da classe trabalhadora e do povo pobre, sem patrões, vai adquirir uma nova concretude diante da grave crise econômica e social que se aprofunda, assim como diante da decrepitude da democracia burguesa abalada pela ascensão do bolsonarismo, acelerando a experiência da classe trabalhadora e sua vanguarda ativista com a política burguesa de seus dirigentes e abrindo o caminho para a construção de uma nova direção revolucionária de massas.

Papel determinante neste processo cabe às correntes políticas da esquerda independentes da burguesia e do PT, agrupadas principalmente no PSOL, e o PSTU e às correntes que orbitam em torno à sua política, que tiveram uma política lamentável nestas eleições, indo do sectarismo e do eleitoralismo do primeiro turno à capitulação aberta à política do PT no segundo turno. Mas, isso é tema para outro artigo.

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