Sob a direção do PSTU, continuam os impasses políticos da CSP Conlutas

O GOI participou com a tese Conlutas Pela Base do 3º Congresso da CSP Conlutas, realizado entre 12 e 15 de outubro, em Sumaré/SP e apresentamos nosso balanço.


O protesto de um grupo de delegadas e delegados na plenária final do 3º congresso da CSP Conlutas, apesar de rechaçado pelo bloco majoritário encabeçado pelo PSTU, teve o mérito de expor os graves problemas políticos e organizativos do congresso. Aquele pequeno grupo de mulheres, negros e LGBTTs exigia que as resoluções dos setoriais de luta contra as opressões fossem discutidas em plenária pelos delegados e delegadas e não remetidas como um pacote para deliberação na Secretaria Executiva Nacional da central. Passando por cima de suas direções, denunciavam a contradição entre os discursos e encenações teatrais e a ausência de discussão política e deliberação democrática.

Os problemas democráticos do congresso

É possível entender este protesto na plenária final se analisarmos a programação de atividades do congresso. Metade do tempo (14 horas e meia) dos quatro dias de congresso foi dedicada a apresentações, saudações, teatralizações e painéis. As plenárias gerais, onde poucos podem falar, consumiram outras 7 horas. Os grupos de trabalho e reuniões de setoriais, onde delegados e delegadas de base costumam se expressar com mais facilidade e trocar experiências das lutas, ficaram reduzidos a apenas 6 horas de trabalho. Os movimentos contra as opressões foram os mais prejudicados porque os temas de mulheres, negros e negras e LGBTTs só foram discutidos nos setoriais específicos e não com o conjunto de delegados e delegadas.

Esta organização, bem aos moldes dos congressos da CUT e outras centrais burocráticas, comprometeu a discussão e decisão democrática e soberana dos delegados e delegadas sobre o conjunto dos temas em debate, fazendo com que a base militante da central ficasse a maior parte do tempo como expectadora no congresso. Foi imposto sobre o congresso um clima de agitação e propaganda permanentes, relegando a segundo plano o debate político das teses e resoluções, o balanço da política da central e a troca de experiências sobre o rico processo de lutas que ocorre no Brasil e no mundo.

A democracia do congresso se viu ainda ameaçada pelas vaias impostas pelo bloco majoritário às teses minoritárias, numa tentativa de calar as vozes críticas através do método estalinista das claques organizadas, impondo um clima plebiscitário a favor ou contra a política da direção majoritária liderada pelo PSTU.

A política equivocada do PSTU foi referendada

Esta falta de democracia no congresso facilitou a consagração da política que vem sendo aplicada pela central nos últimos anos, sob a direção do PSTU, que tem levado a central a uma trajetória centrista que vai da adaptação oportunista à burocracia sindical ao ultraesquerdismo e sectarismo autoproclamatório do “terceiro campo”.

Em primeiro lugar, foi referendada a chamada política de “unidade de ação” com as burocracias da CUT, Força Sindical, CTB, UGT, etc, que entende que a construção da unidade da classe trabalhadora para lutar se dá através de acordos de cúpula das centrais para baixar “calendários de mobilização”, sem discussão com os trabalhadores, nem organização pela base, através de assembleias nos locais de trabalho e formação de comandos de base. Como resultado desta política, a CSP Conlutas não prioriza a disputa de direção nas bases dirigidas pela CUT, Força Sindical e demais centrais burocráticas. O bloco majoritário derrotou todas as resoluções (inclusive apresentadas por delegados de seu próprio bloco) que propunham que a central passasse a priorizar este trabalho de base, dando maior suporte político e financeiro à construção das oposições sindicais e grupos de base.

Assim, o congresso referendou o caráter que a CSP Conlutas vem desenvolvendo nos últimos anos de se tornar um aparato central dos sindicatos filiados e não, como era o seu projeto original, de ser uma ferramenta para a luta contra a burocracia sindical que segue dominando mais de 90% dos sindicatos. Expressando esta realidade, a participação das oposições sindicais, grupos de base e movimentos no congresso foi bastante dificultada pelos altos custos de inscrição de delegados e pela imposição absurda às entidades recém filiadas de pagamento antecipado da taxa de anuidade à central.

Em segundo lugar, o congresso referendou a política do chamado “terceiro campo”, de recusa da central a discutir com outras correntes de esquerda (como o MTST, PSOL, Frente Povo Sem Medo) a construção de uma alternativa política independente, classista e socialista da classe trabalhadora que se contraponha à política de conciliação de classes de Lula, do PT, PC do B e da Frente Brasil Popular. Vários dirigentes do bloco majoritário tomaram a palavra para dizer que “quem é de luta está na CSP Conlutas”, desconhecendo a existência de uma vanguarda de luta fora das fronteiras da central.

Esta visão ignora também o crescimento da influência de Lula sobre os trabalhadores e o povo pobre, que voltam a ter expectativas na sua candidatura como saída política para o país, após a experiência com o governo Temer e suas reformas antioperárias. As propostas que defendiam a necessidade da central ter uma política para dialogar com estes milhões de trabalhadores para arrancá-los da influência da política de conciliação de classes foram recebidas com vaias e apupos e descaracterizadas como “propostas de apoio a Lula”.

Burocratização e dependência do Estado

Os debates sobre a estrutura sindical trouxeram também grande preocupação acerca da situação de burocratização e dependência do estado em que se encontram os sindicatos filiados à central. A discussão objetiva sobre estes problemas foi dificultada pela falta de dados concretos sobre estes sindicatos e até mesmo numa pesquisa feita com os delegados e delegadas não se perguntou se eram liberados sindicais, por quanto tempo e se recebiam ajuda de custo.

As propostas que visavam a que a central adotasse medidas para pressionar e assessorar os sindicatos filiados para acabarem com a dependência do imposto sindical e outras taxas impostas aos trabalhadores foram rechaçadas pelo bloco majoritário com o argumento, tomado de empréstimo da burocracia sindical, da defesa da “autonomia” dos sindicatos.  O mesmo rechaço receberam as propostas de combate efetivo à burocratização dos dirigentes sindicais e de movimentos populares, como rodízio e limitação de mandatos, critérios para liberação, entre outros mecanismos de democracia operária.

Isso demonstra um grande retrocesso deste debate no interior da central, que surgiu como referência de luta contra a burocracia dos sindicatos e movimentos.

Quebra do monolitismo e risco de divisão

A manutenção pelo 3º congresso das políticas equivocadas capitaneadas pelo PSTU é uma derrota importante para a CSP Conlutas, que dificulta a reversão do curso de estagnação e retrocesso vivido pela central nos últimos anos, quando houve uma diminuição do número de entidades filiadas de 373, no congresso de 2015, para 308, em 2017. Ao não se trabalhar com o método de construção de um Programa Mínimo Comum que possibilite a intervenção unificada na luta de classes do conjunto das forças que compõem a central, a CSP Conlutas sai enfraquecida do congresso e acentuam-se os riscos de divisão.

Todavia, apesar de o PSTU ter conseguido se manter como direção majoritária, o 3º congresso abriu um novo capítulo na história da central em que já não impera o monolitismo deste partido. A divisão do PSTU, que levou à criação de novas organizações (MAIS, NOS, GOI), a entrada de novas correntes (MES, Unidos pra Lutar) e a militância de diversos agrupamentos políticos e sindicais no interior da central, forças que somaram cerca de um terço dos delegados e delegadas do congresso, dão um novo oxigênio à central, possibilitando que, apesar da política errática de sua direção, a CSP Conlutas siga sendo um importante polo de frente única de esquerda no país.

O Bloco de Oposição

O Bloco de Oposição formado pelo MAIS e vários agrupamentos de esquerda cumpriu um papel importante de articulação das forças que propõem mudanças na política da central. Contudo, o caráter ainda embrionário dos acordos políticos dentro do bloco limitou sua capacidade de se constituir como uma direção alternativa para a central.

O acordo do bloco com a política de “unidade de ação” e a falta de propostas para dar prioridade à construção de oposições e grupos nas bases das centrais pelegas e burocráticas e para enfrentar o processo de burocratização da central são alguns pontos que demonstram estes limites programáticos.

O bloco também não apresentou uma política para dialogar com os trabalhadores e trabalhadoras que apoiam Lula e a vanguarda que se aglutina na Frente Brasil Popular, limitando-se a propor uma frente por uma candidatura alternativa para disputar com o “lulismo”.

O ato “Por um polo político alternativo da classe trabalhadora”, organizado pelo bloco durante o congresso, que teve como principal estrela a pré-candidata a presidente pelo PSOL, Luciana Genro (MES), evidenciou a falta de um programa mínimo revolucionário em torno do qual se aglutinem as correntes políticas que propõem uma alternativa à frente popular de Lula, assim como de um plano de ação que dê prioridade à construção desta alternativa no terreno das lutas da classe.

A reunião convocada pelo Andes-SN em 11 de novembro

A convocatória pelo Andes-SN de uma “reunião nacional de entidades classistas, movimentos sociais e estudantis, no dia 11 de novembro, no Rio de Janeiro, com o objetivo de avançar no processo de reorganização da classe trabalhadora”, apesar de formalmente aprovada pelo 3º congresso, vai na contramão do conjunto de políticas aprovadas pelo bloco majoritário da central. Todavia, a inciativa do Andes-SN aponta um caminho importante no sentido da construção de uma frente única de esquerda no terreno das lutas em defesa do salário, emprego e direitos, contra Temer e as reformas.

Mobilizar para o 10 de novembro nas bases da burocracia

Apesar de várias intervenções no congresso terem afirmado que a CUT, Força Sindical e demais centrais burocráticas não estão organizando de fato a mobilização do dia 10 de novembro, as propostas de a CSP Conlutas fazer uma ampla agitação nas bases destas centrais para pressionar pela base as burocracias foi rechaçada pelo bloco majoritário. Esta política de capitulação à burocracia sindical foi encoberta com gritos de “greve geral” e com discursos febris de que a CSP Conlutas deve tomar para si a tarefa de “parar o Brasil”.

A construção de um efetivo dia de luta em 10 de novembro requer que a vanguarda militante da central tome para si a tarefa de convocar a mobilização diretamente nas bases das centrais e movimentos dominados pela CUT, Força Sindical e outras centrais burocráticas. Só assim será possível impor a “unidade de ação” à burocracia que traiu a primeira onda de lutas do primeiro semestre.

GOI – Grupo Operário Internacionalista / Tese Conlutas Pela Base

Um comentário em “Sob a direção do PSTU, continuam os impasses políticos da CSP Conlutas

  1. Que curioso, os internacionalista do GOI, não registraram a presença da delegação internacional no congresso. Não citaram as atividades dedicadas a questão da Venezuela, nem a polêmica do fora Maduro. Não viram nada disso?
    E a resposta que a representante do Andes deu em relação a polêmica que abriu a nota? Eu estive no
    Congresso, vi o pessoal do pessoal do PSTU ser vaiado e rechaçado por todos aqueles grupos de oposição, que não estão nem um pouco preocupados em construir a central. A ÚNICA preocupação destes grupos é fazer oposição Ao PSTU.

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