Colômbia: balanço e perspectivas

Salvador Pérez (Artigo publicado originalmente no Blog Lucha Contracorriente, em 1/7/2026)

Karl Marx afirmou em sua obra “O 18º Brumário de Luís Bonaparte”, escrita entre 1851 e 1852, para analisar o golpe de Estado de Luís Bonaparte (1851), em comparação com o golpe anterior de Napoleão Bonaparte (1799), que “a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa”, baseada na dialética hegeliana. No primeiro evento, esta se apresenta como uma tragédia, cheia de seriedade e consequências significativas, enquanto no segundo foi simplesmente uma farsa, uma repetição grosseira, além disso, distorcida, da primeira.

Agora, com os acontecimentos que vemos se desenvolver na Colômbia, podemos dizer sem exagero que Abelardo de la Espriella, que é um simples reacionário da extrema-direita, ligado por centenas de vínculos ao antigo paramilitarismo que aterrorizou o país por décadas, e que, como um palhaço grosseiro, quase conseguiu chegar ao poder com promessas vazias,  cujo programa ele não conseguiria escrever em muito mais de meia dúzia de páginas, baseando tudo em prometer PUNHO DE FERRO E MAIS REPRESSÃO, PARAMILITARISMO E NOVAS DOSES DE POLÍTICAS SOCIAIS DE AUSTERIDADE, com muitas supostas semelhanças com Javier Milei, na Argentina, ou com seu admirado Nayib Bukele, em El Salvador. Portanto, De la Espriella não deixa de ser uma farsa, elevada à terceiro potência da equação, em algo que ele quer reproduzir, como foram os nefastos governos de Álvaro Uribe Vélez.

 No último domingo, 21 de junho, foi realizada o segundo turno das eleições presidenciais na Colômbia, onde houve uma participação eleitoral histórica, a maior registrada na história do país, que finalmente resultou em uma vitória apertada do candidato da extrema-direita, Abelardo de la Espriella, contra Iván Cepeda, candidato progressista do Pacto Histórico, apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro. De la Espriella obteve 12,9 milhões de votos, apenas 200.000 votos a mais que Cepeda, o que representa uma diferença percentual pírrica de 0,8%.

O resultado ocorreu em meio a toda uma situação de profunda polarização social, que é o ponto característico de toda a situação que estamos vendo na região. A extrema-direita na Colômbia chega ao governo do país, que é a quarta maior economia da América Latina e, com isso, abre um novo período da luta de classes na Colômbia.

Esse resultado eleitoral causou rios de perguntas, dúvidas e interrogações na mente de centenas de milhares de ativistas, que confiavam firmemente na ideia lançada pela candidatura de Cepeda de que poderiam vencer até mesmo no primeiro turno das eleições. Como foi possível que não só não se  tenha vencido, mas que finalmente o candidato da oligarquia, da classe dominante, do imperialismo, tenha acabado vencendo?

Claro, não é secundário para dezenas de milhares que o triunfo de Abelardo ocorra depois de ter prometido “estripar e erradicar a esquerda, os comunistas, no país.” As trágicas memórias dos massacres, dos assassinatos de sindicalistas, líderes sociais, camponeses despojados de suas terras, da militância da União Patriótica, do terror da época do paramilitarismo sob os governos de Álvaro Uribe, retornam na mente de milhares desde o passado até o presente.

Por que De La Espriella venceu?

Há uma característica quase comum em todos os processos eleitorais realizados no último período na América Latina, onde os peões de extrema-direita de Donald Trump foram vencendo, no caso de Colômbia, Abelardo de la Espriella. Isso não é acidental, mas se deve a uma intervenção direta do imperialismo nos próprios resultados eleitorais.

E tudo isso, longe do que possa parecer à primeira vista, reflete que as elites dominantes, e seus senhores imperialistas dos EUA, refletem que essas vitórias eleitorais estão sendo alcançadas ao custo de elevar ao limite a polarização extrema e crescente na sociedade, o que prenuncia uma intensificação crescente da luta de classes neste período em que estamos entrando por todo o continente. O mapa anexado mostra as mudanças eleitorais que ocorreram em toda a região de 2023 até este ano.

Por isso, entre outras considerações que precisamos ver e levar em conta, o resultado do segundo turno das eleições na Colômbia não foge, longe disso, ao que é a ofensiva do imperialismo dos EUA em uma região que a burguesia norteamericana considera “seu quintal”. De certa forma, neste último período, vimos fracassos retumbantes da política de Donald Trump, incluindo o que, sem dúvida, é uma derrota humilhante dos EUA no Irã, que está tendo o efeito de pressionar a administração Trump com mais força para o objetivo da classe dominante dos EUA tentar recuperar a iniciativa e, assim, consolidar suas posições. E isso significava que, para Trump, um triunfo eleitoral da esquerda na Colômbia precisava ser descartado. O apoio do imperialismo à candidatura de Abelardo de La Espriella foi nítido e claro.

Evolução 2023 – 2026 Governos no Continente

Os imperialistas estadunidenses continuam tentando aplicar sua agenda colonial na Venezuela, enquanto vemos como eles apertam suas mãos em torno a Cuba, onde lançaram uma pressão brutal não vista há décadas, com o objetivo de tomar o controle da ilha. E, claro, como previmos, o imperialismo está intensificando a pressão direta sobre os governos da esquerda reformista que ainda existem no México, Uruguai e Brasil, que, após o resultado eleitoral na Colômbia, também esperam poder incorporar, nos próximos meses, a essa aliança reacionária de governos de direita e extrema-direita, que eles batizaram como “Escudo das Américas“, que Trump criou diretamente desde março deste ano, com o objetivo de executar seus planos de dominação, combatendo a crescente influência que a China conquistou no continente.

Após serem conhecidos os primeiros dados sobre o resultado eleitoral na Colômbia, como se impulsionados por um mecanismo automático, tanto o presidente que está saindo, Gustavo Petro, quanto o candidato Iván Cepeda, pediram calma e que se aguardassem os resultados finais das eleições.

É até irônico que os principais líderes da esquerda reformista colombiana tenham chamado a confiar na contagem eleitoral realizada pelo Estado colombiano“, ou seja, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), o  próprio Registro Nacional do Estado  Civil, e a confiar na empresa “Thomas Greg & Sons“, ligada aos conhecidos e condenados irmãos Bautista.

Confiar no Estado, o mesmo que durante quatro anos do governo de Gustavo Petro foi um verdadeiro obstáculo para impedir a implementação de reformas progressistas sérias em favor da maioria?

Confiar no mesmo estado que Cepeda explicou ao longo da campanha que “é tomado e controlado inteiramente por grupos e clãs criminosos, corruptos e mafiosos”?

Isso não parece ter sido uma boa ideia, como comprovamos que não era. Os apelos por “tranquilidade e calma” equivaleram ao mesmo que Cepeda tentou transmitir durante a campanha: colaboração de classes, em uma política de acordo nacional, mesas de diálogo e acordos, com a oligarquia e as elites dominantes, para fazer acordos sobre medidas que garantam a melhoria das condições de vida da maioria.” Porém, desde a chamada transição espanhola, em todas e cada uma das experiências vividas, essa política sempre se mostrou falsa, onde as massas fazem os sacrifícios e as elites levam todos os benefícios. Nunca, em lugar nenhum, essas políticas serviram aos trabalhadores para melhorar suas condições de vida ou aspirar a um futuro digno.

Não, esse não é, nem pode ser, o caminho. A esquerda, se realmente aspira a representar os interesses de classe dos trabalhadores, jovens, camponeses pobres e comunidades indígenas, deve explicar as coisas como realmente são, não como Cepeda, Petro ou os demais líderes do Pacto Histórico gostariam que fossem: as miseráveis condições objetivas de existência das massas têm suas raízes no fato de que uma elite de super-ricos controla tudo o que é fundamental na economia e sociedade colombiana. E claro, eles não estão dispostos a compartilhar seus enormes benefícios e vantagens com a maioria da sociedade, nem em mesas de diálogo, nem em lugar algum. Essa política de Cepeda representava o mesmo que um samaritano tentando convencer uma matilha de tigres a não comer carne, muito menos humana, de que esses tigres deveriam comer vegetais a partir de agora.

Como sabemos que esse bom samaritano não terá sucesso, assim como Cepeda não terá sucesso em suas “mesas de diálogo e acordos”, só precisamos avisar ao samaritano e a Cepeda que, se com suas boas palavras se aproximarem daqueles tigres, eles mesmos serão devorados por eles. Essa é a verdade, que os líderes parecem determinados a ignorar, ao contrário do que vimos dos trabalhadores e especialmente dos jovens, que sim compreendem perfeitamente a situação real.

Milhares de jovens, começando por Cali e Bogotá, assim que os resultados das eleições foram antecipados, instintivamente sentiram os perigos reais da situação e quase espontaneamente saíram às ruas para protestar, contra a ascensão da extrema-direita de Abelardo. Esses desejos de enfrentar os perigos e ameaças da extrema-direita por meio da luta, juntamente com a margem estreita dos resultados das próprias eleições, só confirmam que milhões de trabalhadores, camponeses e jovens compreendem o perigo que Abelardo de la Espriella representa, seu desejo de devolver a sociedade a fases sombrias de violência contra a maioria e que, apesar até mesmo dos líderes que clamam pela calma, eles estão dispostos a enfrentar as ameaças existentes.

Esses ânimos de luta, que estão sempre presentes, são característicos dos períodos iniciais da revolução social. O que é urgentemente necessário é que o movimento desde abaixo se dote de uma verdadeira liderança que esteja à altura das circunstâncias, baseada na compreensão de um programa necessário que de base à luta contra a extrema-direita e contra as elites dominantes, que estão prontas para fazer novos banhos de sangue entre a juventude, os trabalhadores, camponeses e oprimidos da Colômbia.

O estado atual na Colômbia é um estado burguês, projetado para abrigar, proteger e permitir toda a dominação das elites ricas contra o povo. Isso deve ser compreendido e explicado pela liderança, em vez de fazer apelos constantes por tranquilidade e esperar que caiam do céu resultados diferentes daqueles que a oligarquia, os grandes empresários e os banqueiros querem impor. Quando Petro e Cepeda falam em esperar pelo resultado final da contagem dos votos, criam falsas ilusões entre setores dos oprimidos, que veem a necessidade de tomar o destino da situação em suas próprias mãos: para dissipar dúvidas, temos que dizer que a contagem dos resultados foi a mesma fraude que foi publicada na noite da eleição, com uma variação mínima de 624 votos a mais para de la Espriella e 400 a menos para Cepeda. A diferença entre os dois mudou para 0,004%.

Insistimos que as ideias apresentadas por Cepeda e Petro, que buscavam semear ilusões na própria contagem dos votos, junto com a ideia insistente de que, como resultado do próprio resultado eleitoral, se impõe um “acordo nacional” (com a oligarquia, os grandes empresários-banqueiros, com os remanescentes do uribismo e com a própria extrema-direita), é um erro político brutal e tremendo, que, longe de ajudar no triunfo nas eleições, tornou isso menos provável. Isso pressupõe uma política de colaboração de classes, que os líderes reformistas sempre pregam e que sempre tem o mesmo resultado: favorecer e abrir caminho para o triunfo da extrema-direita.

Essa política vai na direção contrária à que vimos nas eleições anteriores, que, baseadas no rescaldo da Greve Nacional de 2021 e com as promessas de Petro de implementar uma política séria de reformas sociais, levaram ao triunfo da esquerda pela primeira vez na história da Colômbia. Ter optado por uma política de rendição e submissão, com apelos aos uribistas e trumpistas de Abelardo a sentar-se juntos em um “Acordo Nacional” (quando Abelardo fala em estripar a esquerda) longe de estimular, motivar e conscientizar a juventude e os trabalhadores para vencer, acabou tendo o efeito oposto entre diferentes camadas da maioria social.

Na campanha de Petro em 2022, prevaleceram promessas de profundas mudanças sociais, mudanças profundas para erradicar a corrupção e de liberdade e plenos direitos democráticos para a maioria, incluindo a libertação de jovens presos da Linha de Frente das mobilizações de 2021. E todos esses aspectos finalmente prevaleceram, apesar de que, naquela época, também foram feitos acordos com políticos que representavam a sombra da burguesia dentro do que era o governo do presidente Petro: vimos, por exemplo, Álvaro Leyva colocado no Ministério das Relações Exteriores e como ele até ousou, desde os Estados Unidos, tentar organizar um golpe contra o presidente…

É claro que, em pouco tempo, se foi aceitando implementar uma política de gestão interna do capitalismo e, desta forma, grande parte das promessas de mudanças profundas na sociedade foi abandonada. Lembramos como o Uribismo, principal baluarte político das elites, entrou em uma crise profunda da qual não se recuperou. Mas, as políticas mornas da liderança do Pacto Histórico, que na prática significavam renunciar à implementação de grande parte das reformas necessárias para o povo, buscando uma política interminável de “paz social”, só serviram para encorajar os setores mais violentos da burguesia colombiana, que é, sem dúvida, a mais corrupta, mafiosa, violenta e antidemocrática de todo o continente.

Se quisermos encontrar uma explicação séria para o fenômeno que estamos vendo em torno de Abelardo de la Espriella, aqui a temos: a fraqueza política sempre convida o inimigo à agressão. As meias tintas, as medidas pela metade e a renúncia à dar a batalha contra os obstáculos que impediam avançar no conjunto das reformas prometidas,… tudo isso explica por que o caminho foi aberto para um personagem obscuro e estúpido como De la Espriella, que desde o início afirmou querer “estripar a oposição, a esquerda e os comunistas”, inspirado pelas políticas de Trump e, mais especificamente, de seu vassalo argentino Milei, alegando querer impor uma política baseada em um programa ultraliberal contra os trabalhadores e camponeses pobres, “enfraquecendo o Estado” para saqueá-lo em benefício das elites.

Como a experiência mostrou claramente, os discursos e as meias medidas apresentados por Cepeda ao longo da campanha, que moderou cada vez mais o programa para “alcançar acordos com o Centro” (Fajardo, López, Gaicedo, …) não serviram para cortar os pés da extrema-direita na Colômbia. A verdade é que isso não serviu nem serve para parar a extrema-direita em nenhum lugar do planeta.

Agora é imperativo que, na esquerda colombiana e internacional, abordemos um debate político sério que nos permita entender por que chegamos a que Abelardo fosse eleito o próximo presidente da Colômbia e nos permita enfrentar o próximo período em que entramos, para dar a batalha e a luta que nos permitam derrotar esse fascista, ex-advogado dos paramilitares e traficantes de drogas do país. Precisamos entender e aprender com os erros da liderança do Pacto Histórico, superá-los e nos preparar para erguer a bandeira da luta dos oprimidos, oferecendo uma RESISTÊNCIA EFICAZ contra De la Espriella, Trump, Uribe e toda a gangue de reacionários que ainda aguardam e preparam ataques firmes contra todos os oprimidos da Colômbia e do continente.

Leia o artigo na íntegra em https://luchacontracorriente.blogspot.com/2026/07/colombia-balance-y-perspectivas-luchar.html

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