W. Ioffe

Mais uma vez somos obrigados a recorrer à célebre frase-imagem, cunhada por Karl Marx em sua obra O 18 Brumário de Luís Bonaparte: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” Na França do século XIX, o sobrinho repetiu o tio. No Brasil do século XXI, o Lula de 2026 quer reviver o Lula de 1979. 

As jovens gerações da classe trabalhadora brasileira ainda não viveram grandes acontecimentos da luta de classes da envergadura dos que marcaram o país de meados dos anos 1970 até meados dos anos 1990. Em geral, conhecem estes fatos através dos livros, artigos e imagens disponíveis na internet ou na escola, uma história contada e filtrada pelas lentes da intelectualidade burguesa ou da esquerda pequeno burguesa hegemônica. A inexperiência na luta de classes e a superficialidade dos reels, storys e status tornam a juventude proletária uma presa fácil das manipulações midiáticas do tipo da que foi montada pela Frente Popular no estádio da Vila Euclides. À luz da análise marxista é preciso revelar a farsa que repete a tragédia.

A tragédia

No dia 12 de maio de 1978, os metalúrgicos da Scania, no ABC paulista, deflagraram uma greve, que foi o estopim do renascimento das greves de massas da classe trabalhadora, que se espalharam por todo ao país. A classe operária assumia a linha de frente da luta geral do proletariado e do povo pela derrubada do regime semifascista dos generais, patrões e imperialistas, que havia esmagado o movimento proletário desde o golpe de 1964.

O estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, onde eram realizadas as assembleias do Sindicato dos Metalúrgicos, tornou-se um símbolo deste período.

Sob o calor destas lutas de classes, desenvolveu-se pela base um poderoso movimento de organização da classe trabalhadora. As comissões de fábricas e de empresas organizavam as greves contra os patrões e o arrocho salarial. As oposições sindicais expulsavam os pelegos encastelados nos sindicatos e protegidos pelo Estado militar-patronal. O funcionalismo público, impedido de ter sindicatos, organizava suas greves através de novas associações sindicais, criadas por fora da estrutura sindical oficial. O movimento estudantil se reorganizava nos centros acadêmicos e grêmios livres secundaristas, na UNE e na UBES. O movimento popular organizava o povo pobre nas favelas e bairros populares. A luta chegava também ao campo com as greves de trabalhadores rurais.

A fundação do PT – Partido dos Trabalhadores, em 1980, e da CUT – Central Única dos Trabalhadores, em 1983, unificou e centralizou este processo revolucionário que varreu o país. Em 1984 é fundado o MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

A queda da ditadura militar-patronal, em 1984, e a grande Greve Geral de 1989, foram o ápice deste período da luta de classes nos quais foram forjadas as organizações e as lideranças que, desde então até hoje, hegemonizaram a consciência política e as organizações do proletariado e do campesinato. Seu chefe indiscutível: Luiz Inácio da Silva, o Lula.

No palco desta grande tragédia histórica, a Vila Euclides dos anos 1970 foi um símbolo das lutas de classes contra a exploração e o Estado capitalista, que elevaram a consciência de classe e a organização do proletariado contra a burguesia a um novo patamar histórico. O que, por sua vez, determinou todo o processo da luta de classes na Nova República, nascida sobre os escombros da ditadura militar-patronal.

A farsa

No ato de 16 de agosto, Lula tentou resgatar esta história para colocá-la a serviço da política da Frente Ampla de colaboração de classes com a burguesia nacional e com o imperialismo. É preciso desmistificar as aparências enganadoras que escondem a verdadeira essência da encenação da frente popular montada na Vila Euclides.

A tribuna improvisada que Lula e outras lideranças grevistas ocuparam nas históricas assembleias operárias dos anos 1970/1980 foi substituída pelo palanque eleitoral, onde Lula contracenou com Geraldo Alckmin, o carrasco do Pinheirinho e das Jornadas de Junho de 2013, hoje fantasiado de “bom burguês”.

As arquibancadas do estádio não estavam mais lotadas por operários grevistas, mas sim por trabalhadoras e trabalhadores transformados em meros eleitores e cabos eleitorais. As palavras de ordem de “Abaixo a ditadura”, “Greve até a vitória” e “O povo unido jamais será vencido” deram lugar aos slogans eleitorais dos candidatos.

Os sindicatos e movimentos, de ferramentas para a luta e a organização do proletariado e do campesinato, foram transformados em meros suportes para os governos do PT e seus aliados burgueses e trampolins para a promoção das carreiras políticas da “esquerda conciliadora”.

A luta de classes contra os patrões dá lugar à colaboração de classes com os capitalistas. A consciência de classe é eclipsada pelo eleitoralismo rasteiro das alianças políticas com partidos e políticos patronais e corruptos. A poderosa classe trabalhadora que fez tremer os patrões e o imperialismo hoje se encontra atacada e acuada pela ofensiva contra revolucionária dos capitalistas contra nossos empregos, salários e direitos trabalhistas, sociais e democráticos.

Mais uma vez parafraseando Marx, na Vila Euclides dos anos 1970 “o conteúdo ia além da frase”; na Vila Euclides de 2026, “a frase vai além do conteúdo”.  

Lula e Romeu

Em seu discurso no ato da Frente Ampla, Lula expressou sua gratidão ao delegado Romeu Tuma, chefe do DOPS, a polícia política da ditadura militar, pelo fato de o ter liberado da prisão para o enterro da mãe, em 1980, quando estava preso por causa da greve dos metalúrgicos. Lula contrastou este ato do delegado com a decisão do ministro Dias Toffoli, indicado por ele ao STF, que, em 2019, o proibiu de ir ao enterro de seu irmão Vavá, quando estava preso por conta da Operação Lava Jato.

A moral desta história, segundo Lula, é que um inimigo pode se comportar melhor do que um amigo, a depender do “caráter da pessoa”. Ao contrário desta lição de moral de Lula, é preciso explicar o ato do “amigo” Romeu Tuma a partir de uma análise marxista, de classe, dos acontecimentos históricos.

Nahuel Moreno, analisando as origens da burocracia operária, escreveu: “O capitalismo, em sua fase imperialista, em sua fase final, continua a usar os métodos que o caracterizaram ao longo de toda sua existência, que têm a ver com o seu caráter de comerciante, de negociador. Foi caracterizado e segue se caracterizando por negociar com setores das classes que lhe são adversos, tentando corrompê-los e incorporá-los ao seu sistema.” (em Atualização do Programa de Transição, tese XIII). A esta análise precisa de Moreno, nós acrescentamos que a burguesia tem um instinto infalível para detectar as lideranças dos explorados e oprimidos que podem ser úteis à manutenção de sua dominação sobre o Estado e a sociedade, aqueles e aquelas que estão sempre prontos a “negociar” os termos da exploração e da opressão “em nome dos explorados e oprimidos”. A burguesia seleciona, promove e mantém estes líderes como seus “interlocutores”, “negociadores” e “colaboradores”. As frentes populares, como a Frente Ampla, e os governos de colaboração de classes, como o de Lula-Alckmin, são a maior expressão desta aliança entre os exploradores econômicos e os exploradores políticos da classe trabalhadora, para usar uma definição certeira feita por León Trotsky. 

O instinto burguês do delegado Tuma detectou em Lula o tipo de liderança que poderia cumprir este papel de “negociador”, “colaborador” e “aliado” do patronato. Naquele momento, a classe operária estava assumindo a linha de frente da derrubada da ditadura militar, colocando em risco a dominação burguesa e imperialista sobre o país. A revolução democrática em curso ameaçava se transformar em revolução socialista. E o “negociador” Luiz Inácio da Silva, Lula, era uma figura chave para tentar desviar este poderoso movimento revolucionário em direção a uma transição pacífica do regime militar para um regime democrático, que permitisse à classe dominante “mudar alguma coisa para que tudo permanecesse igual”.

A colaboração de Lula e Romeu rendeu, desde então, os frutos almejados pela burguesia. Nas jornadas de luta pelo fim da ditadura militar, as Diretas, já!, em 1984, o proletariado, sob a direção de Lula, do PT e da CUT, foi posto a reboque da burguesia “democrática”, de Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e Leonel Brizola, facilitando assim a transição pacífica do regime de ditadura para o da democracia burguesa.

Desde então, Lula, à frente das principais organizações de massas do proletariado e dos povos oprimidos, foi um pilar fundamental para a sustentação da “Nova República”. Nos momentos de agudização da crise crônica do regime burguês, Lula sempre está lá para estender a mão à burguesia.

A Greve Geral de 1989, a maior já realizada no país, foi desviada para as eleições gerais de 1990, as primeiras realizadas desde o golpe de 1964, quando Lula foi candidato a presidente. Quando, no final da década de 1990, o governo neoliberal de FHC estava sendo enfrentado por grandes greves e mobilizações da classe trabalhadora e do campesinato, a luta pelo Fora FHC e o FMI foi canalizada para a eleição de Lula como presidente, em 2002. Na Greve Geral de 2017, desde a prisão de Curitiba, Lula ordenou a suspensão do movimento para que Temer não fosse derrubado pela ação revolucionária das massas, desviando uma vez mais a luta de classes para a via morta das eleições de 2018, vencidas por Bolsonaro.

Na conjuntura atual, Lula busca reviver seu passado glorioso não para chamar a classe trabalhadora para a luta, mas sim para que vote nos candidatos da Frente Ampla, apresentada como a única salvação diante da ameaça do “fascismo” de Bolsonaro e Cia.

Após décadas de governos da frente popular de Lula, a política de colaboração com os patrões e o imperialismo deixou um rastro de destruição dos empregos, salários e direitos da classe trabalhadora. Seu legado é a desmobilização e desorganização do proletariado, e a desmoralização de uma camada crescente da nossa classe, seduzida e manipulada pelo direita pró fascista.

Este retrocesso da organização, da consciência de classe e das lutas de classe do proletariado, promovido pelos heróis da Nova República, abre caminho para que os “cérebros de toucinho” do tipo de Bolsonaro, Tarcísio e toda a gangue de pró fascistas reestabeleçam o Estado à sua forma antiga, a do “domínio desavergonhadamente simples do sabre e da sotaina”, a ditadura pura e simples dos patrões sobre o conjunto da sociedade.

Esta é a tragédia que se esconde por detrás da farsa na Vila Euclides.

[Para ler O 18 Brumário de Luis Bonaparte, K. Marx, acesse https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/index.htm]

Reações no Fediverso

Deixe um comentário