O acordo que unificou o PSOL … na capitulação ao governo Lula-Alckmin

W. Ioffe

O camarada Valério Arcary, da Resistência/PSOL, em seu artigo “O acordo que unificou o PSOL” (https://esquerdaonline.com.br/2022/12/20/o-acordo-que-unificou-o-psol/), afirma que o acordo concluído pelas correntes majoritárias sobre a relação com o governo Lula-Alckmin preserva a “autonomia e liberdade de opinião e de ação” do partido diante do novo governo.

Costurado na Executiva Nacional sob os auspícios da Resistência, o acordo pode ser resumido no seguinte: 1) o PSOL estará ao lado de Lula contra os ataques bolsonaristas, combaterá a oposição ao governo (sic!) e apoiará as “medidas progressivas” aos “interesses populares”; e 2) o partido não ocupará cargos no governo, mas autoriza seus “filiados” a fazê-lo, desde que se afastem de seus cargos nas direções partidárias.

O apoio político ao governo Lula-Alckmin era consenso entre as correntes que dirigem o PSOL e o grande impasse era a participação ou não no governo. A resolução busca encerrar a crise no partido liberando seus principais dirigentes públicos, como Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, para integrar o novo governo.

Seria algo assim como se o PT liberasse Lula para participar como ministro dos governos de FHC. Ou que o Partido Bolchevique liberasse Lenin para participar do governo de Kerenski. Obviamente, preservando a “autonomia” destes partidos!

Trocando em miúdos, o PSOL vai apoiar o governo “de fora” e seus principais representantes públicos “de dentro”.

Este artifício, digno da esperteza de um jogador de truco, é exaltado por Arcary, modéstia à parte, como um grande lance de estratégia política. Mas, na verdade, não passa de uma fórmula centrista para disfarçar a capitulação ao governo burguês de colaboração de classes de Lula-Alckmin. Bem ao gosto da Resistência, que se esmera em cumprir o papel de ponte entre a ala direita e a ala esquerda do partido.

A política da Resistência é bem resumida em outro artigo, de autoria de Henrique Canary (https://esquerdaonline.com.br/2022/12/16/o-lugar-do-psol-na-disputa-de-um-novo-futuro-1/).

Canary afirma, sem pudor: “Descartamos completamente a ideia de ser oposição”. E coloca como tarefa principal a luta contra a oposição de extrema direita, justificando assim o apoio ao governo de Lula-Alckmin com a defesa da sua legalidade.

Esta política, falsa até a medula, não tem nada de novo. As direções reformistas, em particular o estalinismo, sempre buscaram justificar sua política de capitulação aos governos de frente popular com a “luta contra o fascismo”. Obviamente, o fascismo, em sua versão bolsonarista-militarista no Brasil, segue sendo um perigo para o movimento proletário. Porém, é preciso analisar este perigo à luz da luta de classes concreta.

A derrota eleitoral abalou o clã de Bolsonaro e seu núcleo duro de generais fascistas, que acreditavam ter a vitória assegurada (por muito pouco não a conseguiram). Os bloqueios de vías públicas e as manifestações nos quartéis, realizadas por um punhado de bolsonaristas radicais, têm o apoio tácito de Bolsonaro. Mas, apesar de manter a cantilena da fraude nas urnas eletrônicas, sua política não era o impedimento da posse de Lula, como se viu no dia 1 de janeiro. O clã Bolsonaro está bem assessorado por Steve Bannon e Donald Trump, que algo aprenderam com o fiasco da invasão do Capitólio para impedir a posse de Biden, em janeiro de 2021.

Bolsonaro sabe que, neste momento, a burguesia busca se reunificar em torno ao apoio ao novo governo para “pacificar” o país. A frente eleitoral bolsonarista se dilui: os setores fisiológicos (como o Centrão de Artur Lira e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas) se acomodam rapidamente ao novo governo; as Forças Armadas e Policiais, a contragosto, se submetem à disciplina do seu novo “comandante em chefe”; a maioria dos eleitores bolsonaristas acatam “democraticamente” o resultado das urnas. Por isso, após a derrota, Bolsonaro faz um recuo tático, entrincheirando-se para tirar proveito das inevitáveis crises que atravessarão o governo de conciliação de classes.

É nisto que reside o real perigo bolsonarista e fascista: no fracasso do governo Lula-Alckmin em atender as expectativas das classes exploradas e oprimidas e mantê-las sob controle. Fracasso inevitável devido ao seu caráter burguês de colaboração de classes. É esse fracasso que pode abrir caminho para o fascismo.

Ao contrário do que afirmam os chefes da Resistência, o principal perigo para o proletariado na atual situação política não é o fascismo, mas sim as ilusões pacifistas e reformistas no governo de colaboração de classes de Lula-Alckmin. Por isso, a principal tarefa das organizações revolucionárias é “explicar pacientemente” às massas trabalhadoras e à vanguarda ativista a completa falsidade das promessas de Lula e do PT. Explicar, à luz dos acontecimentos, que não é possível avançar na melhoria das condições de vida e de trabalho sem romper com a política de colaboração e conciliação com a burguesia e o imperialismo. Organizar o movimento proletário para a luta por um programa socialista e por um Governo da Classe Trabalhadora sem patrões.

Ou seja, nossa tarefa não é defender o governo burguês de colaboração de classes de Lula-Alckmin, mas desmascará-lo diante do movimento operário e de massas, utilizando para isso o método de Lenin e Trotsky.

Os/as quadros e militantes da Resistência devem refletir e comparar a política de sua direção com a política proposta por Trotsky diante do governo Blum, na França, em 1936: “Nossa tarefa não é de nenhum modo a ‘proteção’ do governo de coalizão entre o proletariado e a burguesia. (…) Nós e a Frente Popular temos inimigos comuns. Por isso, estamos dispostos a combatê-los junto com os grupos regulares da Frente Popular, sem assumir a menor responsabilidade por esse governo nem nos levantarmos como protetores de León Blum. Consideramos que esse governo é um mal menor comparado ao de La Rocque. Contudo, ao combatermos o mal maior, não protegemos o mal menor” (Trotsky, Oeuvres, T.10, p. 271, citado por N.Moreno em “A traição da OCI, cap. V, ítem 8).

Da mesma forma, podemos dizer: “Para combater o mal maior (Bolsonaro) não protegemos o mal menor (o governo Lula-Alckmin). Estaremos junto com os partidos e organizações da Frente Ampla na luta contra qualquer tentativa de golpe fascista, mas isso não significa nenhum tipo de apoio político ao governo.”

O segundo pilar da política da Resistência, segundo Canary, é o apoio às “medidas progressivas” do governo Lula-Alckmin. Neste ponto fica nítida a ruptura desta corrente com a política revolucionária de Lenin, Trotsky e Nahuel Moreno (sua corrente de origem), em troca da adoção da política de Stalin e Kamenev durante as primeiras semanas do Governo Provisória na Rússia revolucionária de 1917.

Qualquer medida reformista que possa ser adotada pelo governo Lula-Alckmin com o objetivo de jogar migalhas ao proletariado, enquanto mantém intactas as estruturas da dominação econômica e política da burguesia, não passará de uma manobra política para desviar o proletariado da luta por sua emancipação e libertação. É inadmissível, portanto, qualquer apoio a este tipo de medidas.

Cabe às organizações revolucionárias contrapor a elas a luta por um Programa Mínimo Socialista, que arranque dos grandes capitalistas nacionais e imperialistas as transformações necessárias para avançar na melhoria das condições de vida e de trabalho do proletariado, e que sejam passos na direção da socialização dos meios de produção. Só a ruptura e o combate de classe à burguesia e ao imperialismo poderia levar as organizações revolucionárias a apoiar o governo de Lula e do PT.

Durante a campanha eleitoral, criticamos a Resistência por sua política centrista, que não denunciava a aliança de Lula e do PT com Alckmin e a burguesia, e que não contrapunha a ela a tática trotsquista do governo operário e camponês. Agora, diante do novo governo eleito, a Resistência avança a passos largos em sua adaptação ao reformismo e ao frente populismo.

É preciso que os quadros e militantes desta organização reflitam sobre estas questões, dado o importante papel que cumprem no PSOL, na CSP-Conlutas e no movimento operário e de massas.

[Convidamos noss@s leitor@s a assistir ao programa Mesa de Debates, onde polemizamos com a Resistência e outras organizações sobre a política diante do governo Lula-Alckmin. Acesse: https://youtu.be/cMoXoBBft-k].

[Para conhecer a política eleitoral aplicada pelo GOI-Palavra Operária e nossa proposta de Programa Mínimo Socialista acesse https://issuu.com/grupoperariointernacionalista/docs/palavra_oper_ria_-_especial_elei_es_2022_2_]

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