#ConjunturaNacional | O bolsonarismo e a Frente Ampla de Lula-Boulos-Alckmin

Publicamos a 2ª parte da Análise da Conjuntura Nacional, feita pelo GOI (Grupo Operário Internacionalista), sobre o caráter de classe do bolsonarismo e da Frente Ampla encabeçada por Lula-Boulos-Alckmin, e as perspectivas da luta de classes nos próximos meses.

O bolsonarismo

O bolsonarismo hoje se apresenta como um movimento amplo que reúne desde pequenas organizações fascistas, movimentos de direita, alas de direita e ultradireita dos partidos burgueses, a cúpula, a alta oficialidade e um setor expressivo da baixa oficialidade das Forças Armadas e Policiais, as milícias paramilitares (principalmente no Rio de Janeiro), todos sob a direção “messiânica” de Jair Bolsonaro e seu círculo familiar.

Bolsonaro, durante seu governo, foi depurando as forças políticas que o levaram ao poder nas eleições de 2018, desfazendo-se dos setores mais vacilantes, como o setor lavajatista de Sérgio Moro e o setor de generais do tipo de Mourão e Santos Cruz. Hoje, temperado pela experiência de quatro anos no poder, o bolsonarismo é um bloco mais coeso em seus componentes e objetivos bonapartistas e fascistas, e avançou e consolidou sua influência sobre as Forças Armadas e Policiais.

Apesar da crise permanente que enfrentou durante seu governo (recessão econômica, pandemia do coronavírus, crises políticas), Bolsonaro ainda mantém uma sólida base num setor minoritário, mas decidido, da burguesia, nos setores conservadores da pequena burguesia e da “classe média”, nos setores mais atrasados e ignorantes do proletariado e no lumpemproletariado. É este conglomerado reacionário que lhe fornece as projeções em torno de 30% do eleitorado.


A frente popular de Lula-Boulos-Alckmin

É muito importante caracterizarmos de forma correta a aliança que se forja entre Lula e Alckmin, quer dizer, definir o seu caráter de classe. Em torno a Lula e Boulos se agrupam os sindicatos, os movimentos populares (MTST, CMP etc.), os movimentos camponeses (MST) e indígenas (APIB), os coletivos de luta de mulheres, negras e negros, imigrantes, LGBTQIA+, ou seja, a quase totalidade das organizações do movimento operário e de massas, quer dizer, das forças organizadas da classe trabalhadora e dos povos e setores oprimidos.

É esta “frente única dos explorados e oprimidos” que organizou a Greve Geral de abril de 2017 contra o governo golpista de Temer e que seguiu, de forma isolada e dispersa, enfrentando os ataques do governo Bolsonaro e dos patrões, o que teve como auge os atos do movimento Fora Bolsonaro, no ano passado. O proletariado é a única classe que enfrenta de fato o bolsonarismo, e, quando sai à luta, agrupa sob sua direção os setores majoritários do povo pobre e uma parcela expressiva da pequena burguesia “democrática”.

Lula, como principal dirigente político destes setores mais conscientes e mais organizados da classe trabalhadora, conduz esta frente única proletária para a aliança com a burguesia, buscando, assim, esterilizar seu potencial revolucionário e colocá-la a serviço da salvação da democracia burguesa e do sistema econômico capitalista.


Guilherme Boulos, que se destacou como dirigente das ocupações de terras e manifestações políticas massivas e aguerridas do MTST, firmou-se como liderança política nacional principalmente a partir das lutas contra o governo Temer, e pode ser considerado hoje o mais influente depois de Lula, cumprindo um papel fundamental como fiador da política frente populista de Lula e do PT. Sob seu comando, o PSOL se desfaz dos vaivéns centristas, assumindo plenamente um programa reformista burguês e de alianças políticas com a burguesia “democrática”, quer dizer, assume agora, sem disfarces e sem pudor, sua vocação frentepopulista.

Geraldo Alckmin é um dos expoentes da direção histórica do PSDB (FHC, Serra, Goldman, Jereissati etc.), o sucessor de Mário Covas, o político que governou o estado de São Paulo por mais tempo desde a “redemocratização” do país (de 2001 a 2006 e de 2011 a 2018), sendo hoje, provavelmente, o quadro político mais experimentado da burguesia. Ele representa os setores da burguesia nacional e do imperialismo que se alinham com o bloco democrático frentepopulista, a burguesia industrial paulista, os banqueiros e demais setores burgueses, que consideram que a saída frente populista de Lula é o melhor caminho para derrotar a luta do proletariado.

A frente popular de Lula-Alckmin reúne, possivelmente, um setor mais amplo da burguesia e de seus partidos e dirigentes políticos, do que foi a aliança Lula-José Alencar (grande empresário da indústria têxtil), no primeiro governo Lula, em 2002.

A aliança de Lula-Boulos-Alckmin tem, portanto, um caráter de classe completamente burguês e contrarrevolucionário. Constitui-se com o objetivo de manter a classe trabalhadora na passividade política, para controlar as lutas que crescerão inevitavelmente como resistência ao aumento da exploração e da opressão, para evitar que a luta do proletariado se unifique em direção à revolução socialista.

Prognósticos para a luta de classes


Vamos pontuar hipóteses relacionadas à evolução da luta de classes nos próximos meses:


Primeiro, quanto à evolução das lutas diretas do proletariado. As penúrias causadas pela crise econômica (principalmente a carestia) e os ataques aos empregos, salários e direitos (como exemplo: nesta semana, a montadora Caoa Chery anunciou o fechamento de sua fábrica em São José dos Campos, com a demissão de cerca de 600 trabalhadores/as) (*) empurram objetivamente a classe trabalhadora à luta contra os patrões e governos. Contudo, a política das direções burocráticas dos sindicatos, ao não apontar nenhuma perspectiva de unificação das lutas, atua no sentido da desmobilização. A isso se acrescenta também a expectativa da classe trabalhadora nas promessas de Lula e da frente popular de um governo que vai derrotar Bolsonaro e “defender o povo”. Ou seja, por um lado, as condições objetivas empurram a classe para a luta, mas a política das direções a empurram para a passividade. A hipótese mais provável é de que sigam ocorrendo greves e manifestações populares isoladas, para reagir a ataques patronais (como a da Caoa-Chery) e campanhas salariais (como a greve dos trabalhadores da educação da rede municipal de BH).


Segundo, a polarização eleitoral entre o bolsonarismo e a frente popular pode levar a que o processo eleitoral não seja tão pacífico como almejam Lula e seus aliados da burguesia “democrática”. Principalmente devido aos questionamentos de Bolsonaro (apoiado pela cúpula das Forças Armadas) em relação à legitimidade das eleições. Bolsonaro pode seguir o mesmo roteiro de Trump, nas eleições passadas nos Estados Unidos, o que coloca a possibilidade de crises políticas durante e após a campanha eleitoral. Temos de ver também como esta polarização eleitoral vai incidir sobre a campanha da frente popular, se haverá grandes atos de rua e formação de comitês ou ficará restrita às redes sociais e rádio/TV.


Terceiro, vença Lula ou vença Bolsonaro as eleições, a crise econômica, social e política deve seguir se aprofundando, pelas razões objetivas já apontadas. Uma nova vitória de Bolsonaro colocaria a classe trabalhadora e sua vanguarda diante da disjuntiva de suportar mais quatro anos de um governo genocida ou tentar derrubá-lo através da luta revolucionária. Um novo governo de Lula, com a nova conformação da frente popular e num cenário de crise mundial do imperialismo e de retrocesso da economia nacional, impede que Lula possa. de novo, placidamente, “governar para todos”, trabalhadores e banqueiros, agradando a “gregos e troianos”. Além disso, o bolsonarismo, mesmo derrotado, continuaria sendo uma força política organizada em busca de sua estratégia de uma ditadura no país, atuando desde o princípio como oposição ao governo Lula-Alckmin, inclusive nas ruas, e arregimentando, em todas as classes sociais, o descontentamento crescente que deve ocorrer com o aprofundamento da crise econômica e social.


Quarto, seguimos em uma conjuntura defensiva do proletariado, causada principalmente pela política de colaboração de classes, imobilista e eleitoralista das direções majoritárias. Porém, como já foi apontado, a combinação da crise econômica e social com a crise crônica do regime político empurra a classe trabalhadora para a ação direta e para o acirramento da luta de classes no país. Esta conjuntura da luta de classes pode ser alterada radicalmente caso a crise econômica imperialista se agudize, seja através de um crash financeiro ou de um avanço qualitativo da recessão atual, quadro que vem se tornando cada vez mais provável e para o qual têm alertado inclusive vários porta-vozes do imperialismo e das grandes corporações financeiras, nas últimas semanas. Um novo governo de frente popular teria como principal objetivo prevenir, evitar ou desviar um ascenso de lutas da classe trabalhadora.

(*) Após a escrita desta resolução, a Caoa Chery consumou a demissão de 489 trabalhadoras e trabalhadores.

GOI (escrito em 4/6/2022)

[Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação – Lula discursa em Maceió]

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