Nota do GOI (3/8/2026)

Após a aprovação na Câmara dos Deputados, o projeto empacou no Senado. O próprio ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT), admitiu que a votação ficará “para depois das eleições”. Ou seja, a conquista desta reivindicação está ameaçada pelo jogo eleitoral da “esquerda” e da “direita” no Congresso Nacional.

Como chegamos a esta situação? Por que uma reivindicação de 70% da população pode acabar na lata do lixo do Congresso Nacional?

Para responder, vamos fazer uma retrospectiva da luta pelo fim da escala 6×1 até o dia de hoje.

A reivindicação do fim da escala 6×1 ganhou popularidade a partir do trabalho político do Movimento VAT (Vida Além do Trabalho), que, sob a iniciativa de Rick Azevedo, passou a organizar e mobilizar centenas de jovens trabalhadoras e trabalhadores em todo o país para a conquista deste direito. Um abaixo assinado colheu mais de 3 milhões de assinaturas na internet. Além da mobilização nas redes sociais, o VAT organizou também panfletagens nos locais de trabalho e de grande circulação e foram feitas manifestações nas ruas em todo o país. 

A CSP-Conlutas, a Intersindical e as organizações da “esquerda revolucionária” se incorporaram à luta pela redução da jornada, a princípio buscando a unidade com o VAT, a exemplo dos atos de 1º de maio de 2024.

A burocracia sindical da CUT, Força Sindical, CTB, UGT, CSB, NCST já havia abandonado há muito tempo a luta pela redução da jornada de trabalho. Com o crescimento do apoio nas bases de várias categorias ao fim da escala 6×1, os sindicatos foram pressionados a se posicionar.

O auge da mobilização ocorreu nos atos de 1° de Maio de 2025, quando o VAT chamou uma Greve Geral pelo fim da escala 6×1, fazendo desta a bandeira central dos atos em todo o país. Pela falta de apoio dos sindicatos, a Greve Geral acabou não acontecendo, mas propiciou um importante debate e agitação nos locais de trabalho e um maior envolvimento da classe trabalhadora com as manifestações do Dia de Luta da Classe Trabalhadora. 

Os atos de 1° de Maio de 2025 poderiam ter sido um patamar importante para fazer avançar a mobilização da classe trabalhadora em nível nacional. Porém, não foi isso que aconteceu. Desde então, a mobilização foi retrocedendo e dando lugar às manobras parlamentares. O lugar central da luta pelo fim da escala 6×1 deixou de ser as ruas e os locais de trabalho e passou a ser as tribunas, gabinetes e corredores do Congresso Nacional.

O Plebiscito Popular “Por um Brasil Mais Justo e Soberano”, organizado pelos sindicatos e movimentos e pelos partidos da Frente Popular para pressionar o Congresso, colheu pouco mais de 2 milhões de votos em todo o país. Após o plebiscito, nenhuma mobilização expressiva foi chamada.  A classe trabalhadora foi sendo colocada como mera expectadora e torcedora dos embates parlamentares entre os políticos da “esquerda” e da “direita” em Brasília.

Das ruas para o parlamento

Em 25 de fevereiro de 2025, a deputada federal Érika Hilton (PSOL), ao lado de Rick Azevedo, já eleito vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro, protocolou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que estabelece o fim da escala 6×1, a implantação da escala 4×3 e a redução da jornada para 36 horas semanais. Érika e Rick, juntamente com as bancadas da “esquerda” governista no Congresso (PT, PSOL, PCdoB), apostavam que era possível dialogar com a burguesia sobre as “vantagens” do fim da 6×1 e convencer os políticos patronais do Congresso a votar a favor da PEC. Mas, o que ocorreu foi o oposto: as entidades da burguesia em todo o país desataram uma forte campanha contra as medidas, e os deputados patronais do Centrão, bolsonaristas e “liberais” tudo fizeram para boicotar a PEC. Foi quando Lula decidiu entrar no jogo.

Lula, após ficar calado sobre o assunto a maior parte do tempo, resolveu fazer um pronunciamento no 1° de Maio de 2026 em defesa do fim da escala 6×1 e da redução da jornada para 40h. Já quase no final do mandato, sem nenhuma medida significativa de seu governo em benefício da melhoria das condições de trabalho, e com as pesquisas eleitorais indicando que sua reeleição estava ameaçada, Lula precisava de uma bandeira popular para tentar reconquistar o apoio da classe trabalhadora, principalmente os setores mais jovens. Ou seja, Lula e o PT decidiram tomar a bandeira do fim da escala 6×1 com um mero objetivo eleitoreiro.

Sob iniciativa do governo, foi negociado com o Centrão uma nova proposta mais rebaixada do que a PEC de Érika Hilton, estabelecendo um período de transição de 1 ano para o fim da escala 6×1, a escala 5×2 (e não 4×3) e a redução da jornada para 40 h (e não 36h). Os governistas desataram uma forte campanha nas redes sociais para pressionar os deputados a votar a favor da proposta. A pressão foi eficiente, e a proposta foi aprovada na Câmara dos Deputados por 461 a 19 votos.

Mas, como diria o Chapolin Colorado, “vocês não contavam com minha astúcia”. A direita, após votar a favor da PEC na Câmara, e posar para as fotos como defensora do fim da 6×1, se entrincheirou no Senado para derrotar a proposta.

Lula, após os impactos do Escândalo do Banco Master sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro, subiu nas pesquisas eleitorais, e já não considera tão urgente a aprovação do fim da 6×1 para a sua reeleição.

Os atos de 1° de maio de 2026 foram pequenos, muito aquém dos atos ocorridos no ano passado. Desta vez, o VAT não chamou à Greve Geral. A burocracia sindical voltou para a sua “zona de conforto” do imobilismo. A CSP-Conlutas e as organizações da “esquerda revolucionária”, apesar de fazerem propaganda da necessidade de uma greve geral, até agora não foram capazes de fazer um trabalho unitário nas bases para pressionar os sindicatos e o VAT a chamarem a greve geral.

E foi assim que chegamos ao impasse atual. O eleitoralismo e a colaboração de classes dos partidos e políticos da “esquerda conciliadora” (PT, PSOL PCdoB) e o imobilismo da CUT, Força Sindical, CTB e demais centrais pelegas está ameaçando ajudar a burguesia a virar o jogo no último segundo da partida.

Os partidos da Frente Ampla de Lula agora apostam na chantagem eleitoral: a classe trabalhadora tem que votar no Lula e nos seus candidatos para “garantir” que o fim da escala 6×1 e a redução da jornada sejam aprovados, após as eleições. Ou seja, seguem apontando para a classe trabalhadora as eleições e o jogo parlamentar como únicas opções para a conquista destes direitos.

Nada de esperar até o fim das eleições! A luta tem que ser agora!

É preciso que as trabalhadoras e trabalhadores, sobretudo a juventude superexplorada, tirem as conclusões sobre o impasse a que chegou a luta pelo fim da escala 6×1, por responsabilidade da política das direções conciliadoras.

A conclusão é que o único caminho que pode levar à vitória é a luta de classes, é enfrentar os patrões, os governos e os políticos patronais com a única força que pode derrotá-los: a luta unificada da classe trabalhadora, a Greve Geral pelo fim da escala 6×1, pela escala 4×3 e pela jornada de 36 horas semanais.

Temos de pressionar desde as bases as direções dos sindicatos, o VAT e os políticos do PT, PSOL e PCdoB para que rompam com sua política de conciliação com a burguesia e chamem a Greve Geral. Temos de nos auto organizar nos locais de trabalho para conscientizar e mobilizar toda a classe trabalhadora e para construir uma nova direção para as nossas lutas. 

Reações no Fediverso

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