O “amor à primeira vista” entre Lula e Trump
W. Ioffe
“Valentão”, “gangster”, “idiota”, “porco”, “cão”, “artista da enganação”, “demoníaco”. Estes ultrajes e outros tantos já foram lançados contra Trump pelo ator Robert de Niro, um ácido opositor democrático do presidente dos EUA. Aproveitando a deixa, podemos acrescentar: assassino, genocida, racista, machista, lgbtfóbico, xenofóbico, pedófilo, ladrão, burguês etc.
A história sempre encontra os personagens adequados para encenar os grandes dramas da luta de classes. Donald Trump é a própria encarnação da degeneração do imperialismo estadunidense. Degeneração econômica, política, militar e moral da nação que “liderou o mundo” nos últimos 80 anos.
O simples fato de que a cara do imperialismo ianque seja um burguês branco e escroto como Trump, e não a de um intelectual negro sofisticado, como Barack Obama, evidencia a incapacidade de a burguesia estadunidense seguir conquistando corações e mentes através do “soft power” (poder brando) fundado no ” american way of life” (estilo de vida estadunidense). O racismo, o machismo, a lgbtfobia, a xenofobia, as guerras genocidas, a exploração econômica e todos os crimes do imperialismo estadunidense contra os povos do mundo, que se escondiam por detrás de figuras “amigáveis” como Obama, Clinton e Biden, agora aparecem claramente na imagem, no comportamento, na biografia e na política de Donald Trump. O rei está nu.
O que levaria Lula a “se apaixonar à primeira vista” por uma figura tão hedionda e grotesca como Trump? Como explicar suas palavras literais?: “Sabe aquela história de amor à primeira vista, aquele negócio da química? Foi isso que aconteceu, e eu espero que continue assim.”
Ora!, dirão alguns, Lula fez apenas uma brincadeira para descontrair, no tenso téte a téte com Trump na Casa Branca. Uma piadinha entre machos héteros, daquelas dos tempos de “homofobia livre”, como diria a cartunista Laerte. Mesmo isto seria condenável diante da consciência lgbtqiapn+ conquistada nas últimas décadas. Contudo, essa piada de cunho sexual é ainda mais vil e de mal gosto quando lembramos que Trump está atolado até o pescoço nos crimes de exploração sexual, tráfico de mulheres e pedofilia patrocinados pelo seu amigo Jeffrey Epstein. É de se perguntar: Lula e Trump estão rindo de quê? Ou de quem?
Piadinhas machistas à parte, a performance de Lula na Casa Branca foi elogiada à direita e à esquerda. O jornal Estadão afirmou que a reunião “colocou as relações com os EUA em termos pragmáticos”. Guilherme Boulos traduziu o espírito festivo da “esquerda”, afirmando que: “O Lula não negociou a soberania e foi tratado como um estadista de respeito.”
O “pragmatismo” elogiado pelo jornalão da burguesia paulista refere-se ao fato de que Lula, fiel às pretensões dos setores dominantes da burguesia brasileira, busca negociar com as diferentes potências imperialistas os melhores termos para a entrega das riquezas nacionais. Por exemplo, as terras raras. Diante da voracidade de Trump, que exige o monopólio ianque sobre estes minerais, a burguesia nacional, uma sócia minoritária das grandes corporações imperialistas na exploração das riquezas e da força de trabalho do Brasil, pretende manter abertas as negociações com a China e a União Europeia. Uma regra capitalista básica: se você tem mais compradores para a sua mercadoria, tem melhores opções de venda.
É esta esperteza de comerciante do “estadista” Lula que Boulos chama de “defesa da soberania”. A isto se resume hoje o “nacionalismo” e o “antimperialismo” dos dirigentes e partidos da frente popular (PT, PSOL, PCdoB) e seus aliados, as burocracias dos sindicatos, movimentos populares, camponeses e dos povos oprimidos, que governam o país. Esta “esquerda domesticada” quer que o país tenha a “liberdade” de vender a “soberania” para a potência que pagar mais.
Sobre o comportamento de Lula, Boulos ainda acrescentou: “Esse encontro é muito simbólico, porque mostra que ninguém respeita puxa-saco. Quando você se dá ao respeito, você é respeitado.”
Todo trabalhador e trabalhadora conhece o comportamento de um “puxa-saco” na frente do patrão e do chefe: fala o que ele quer ouvir, faz piadinhas, troca sorrisinhos e recebe tapinhas nas costas. Trump ficou bastante contente com o desempenho de Lula na reunião, e o elogiou como “muito dinâmico”. Afinal, não faltaram as piadinhas, sorrisinhos e tapinhas nas costas. E, para não contrariar o anfitrião, Lula evitou certos assuntos, como as guerras colonialistas contra a Venezuela e o Irã, o sequestro de Maduro e Cília Flores, o genocídio na Palestina, a “doutrina Donroe”, a perseguição racista a imigrantes latinoamericanos e outros crimes praticados pelo governo Trump.
Convenhamos que este comportamento do “dinâmico” Lula não se coaduna muito bem com a imagem de “anti-puxa-saco”, pintada por Boulos para agradar seu próprio chefe. Lula já teve melhores momentos, a exemplo de sua postura firme e altiva diante do tribunal da inquisição montado por Sérgio Moro na Operação Lava Jato.
Mas, justiça seja feita, o comportamento de Lula diante de Trump não é diferente do que sempre teve diante de outros chefes do imperialismo ianque, ou de chefes das demais potências imperialistas. Sempre rolou a mesma “química”.
Sobre George Bush, que desencadeou a guerra que destruiu o Iraque, Lula disse: “Queria brigar com Bush, mas ele virou meu amigo”. A pedido do amigo Bush, Lula enviou tropas do Exército brasileiro para reprimir o povo do Haiti, numa ocupação mascarada sob a bandeira da ONU, que durou de 2004 a 2013, comandada por futuros bolsonaristas como o general Heleno e o capitão Tarcísio de Freitas. Não à toa, Barack Obama, que manteve a ocupação do Haiti, elogiou Lula com o famoso “Esse é o cara!”.
Apesar de não manifestar a mesma “química” por Benyamin Netanyahu, o amigo de Trump que promove o holocausto palestino na Faixa de Gaza, Lula não moveu um dedo para impedir o genocídio, mantendo intactas as relações econômicas, políticas, militares e acadêmicas do Brasil com o Estado racista de Israel.
Sob as aparências de relações pessoais e diplomáticas cordiais, esconde-se a verdadeira essência do comportamento e da política de Lula: ele não trata os chefes imperialistas como inimigos, mas sim como parceiros. Na coletiva que deu após o encontro com Trump, Lula afirmou: “Eu quero que os Estados Unidos voltem a ver no Brasil um parceiro importante para as suas atividades de empreendedorismo”. “Como nós, brasileiros, gostamos também dos Estados Unidos, por que não fazer as coisas darem certo?”
Nas palavras de Lula, a dominação econômica, política, militar e cultural dos EUA sobre o Brasil, a América Latina e todo o mundo são apenas “atividades de empreendedorismo”. E ficamos sabendo que “os brasileiros” gostam dos EUA.
Trump não poderia ficar mais contente com as palavras e comportamentos de Lula, que servem para encobrir, com sua autoridade de um dos maiores líderes operários da história, a verdadeira face horrenda de Trump e do imperialismo estadunidense.
Seja sob a continência de Bolsonaro à bandeira dos Estados Unidos ou sob o “amor à primeira vista” de Lula por Trump, o Brasil segue aprofundando sua submissão colonial ao imperialismo ianque.
O “encontro relâmpago” na Casa Branca não alterou uma vírgula nas “negociações” comerciais e diplomáticas que estão em curso entre os dois governos. Mas, falou-se muito na imprensa que aparecer juntos e sorridentes numa foto serve bem aos interesses políticos e eleitorais dos dois presidentes.
Se, para Trump, a foto com Lula serve para angariar apoio à sua esquerda, para Lula serve para buscar votos à direita. Para o proletariado mundial e os povos oprimidos pelo imperialismo não serve para nada. É apenas um retrato da “química” da submissão colonial.


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