Governo da Venezuela negocia com Trump a recolonização do país

Nota do GOI-Palavra Operária

“A Venezuela está realmente indo bem. Estamos trabalhando muito bem com a liderança”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no dia 12 de janeiro, dez dias após a operação militar que sequestrou o presidente venezuelano Nicolás Maduro e a ex-deputada Cília Flores. Em seguida, Trump enviou à Venezuela o diretor da CIA, John Ratcliffe, para um encontro com a nova presidente Delcy Rodrigues. Segundo o jornal The New York Times, “Eles discutiram cooperação em inteligência, estabilidade econômica e a necessidade de garantir que a Venezuela deixasse de ser um “porto seguro para adversários dos Estados Unidos, especialmente narcotraficantes”.

No dia 4 de janeiro, dois dias após o ataque dos EUA, quando foi empossada como presidente interina, Delcy Rodrigues já havia proposto o diálogo numa carta a Trump em que sequer toca na questão do sequestro de Maduro e Flores: “Consideramos prioritário avançar para um relacionamento internacional equilibrado e respeitoso entre os EUA e a Venezuela, (…) Estendemos o convite ao governo dos EUA para trabalharmos conjuntamente em uma agenda de cooperação, voltada ao desenvolvimento compartilhado, no marco da legalidade internacional e que fortaleça uma convivência comunitária duradoura.”

A linguagem diplomática nebulosa utilizada por Delcy tenta esconder o verdadeiro significado da política adotada pelo seu governo: a completa capitulação e submissão às imposições imperialistas dos EUA. A retórica antimperialista de Maduro cede lugar ao “pragmatismo diplomático” de Delcy.

O fim da nacionalização e do controle estatal sobre o petróleo

Passando das palavras aos fatos, a nova presidente propôs uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos venezuelana que acaba com a nacionalização e o controle estatal sobre a produção e o comércio do petróleo, abrindo caminho para que os Estados Unidos, através das empresas petrolíferas estadunidenses como Chevron, Repsol e outras possam retomar plenamente a exploração econômica das reservas petrolíferas do país, avaliadas como as maiores do mundo. Para uma análise das mudanças na nova lei, indicamos a leitura do artigo “Qué cambia en Venezuela con la nueva Ley de Hidrocarburos y por qué es una ruptura radical con 50 años de modelo petrolero” (https://www.bbc.com/mundo/articles/cg7y4kznyppo).

A nova Lei de Hidrocarbonetos, aprovada em 29/1 pela Assembleia Nacional da Venezuela, com os votos de chavistas e da oposição burguesa, marca um retrocesso histórico na nacionalização do petróleo, iniciada com a criação da PDVSA (Petróleo da Venezuela S.A.), em 1976, e a ampliação do controle estatal sobre a produção e o comércio petrolífero, implementada por Hugo Chaves a partir de seu primeiro governo, em 1998. 

Das bravatas “antimperialistas” de Maduro à “diplomacia pragmática” de Delcy

Para aqueles que acreditavam nas bravatas “antimperialistas” de Maduro e dos dirigentes chavistas e esperavam uma resistência à ofensiva ianque, as palavras e ações do novo governo pós-Maduro são uma surpresa. Porém, a capitulação dos dirigentes chavistas aos Estados Unidos teve início bem antes da atual ofensiva de Trump de recolonização da Venezuela, e contou com a atual presidente interina como uma colaboradora decisiva.

Nos meses que precederam ao sequestro de Maduro e Flores, em meio às hostilidades crescentes da Armada estadunidense no Caribe, Delcy esteve à frente das negociações secretas do governo chavista com o governo Trump, que visavam à liberação do acesso ao petróleo e riquezas minerais e à troca de comando do regime. Em todas as hipóteses baralhadas de substituição de Maduro, Delcy figurava em primeiro plano.   

A aproximação do chavismo com Trump teve início já durante seu primeiro mandato na Casa Branca, quando Delcy, então ministra das Relações Exteriores da Venezuela, instruiu a Citgo Petroleum, subsidiária americana da petrolífera estatal PDVSA, a fazer uma doação de US$ 500 mil para a sua posse como presidente.

As medidas privatizantes adotadas por Delcy no período em que comandou a economia venezuelana, já como vice-presidente de Maduro, a partir de 2018, consolidaram sua fama de “Deng Xiaoping venezuelano”. Uma comparação com o dirigente do Partido Comunista da China que reabriu as portas para a restauração capitalista naquele país, em meados dos anos 1970. Sob o comando de Delcy Rodrigues, a burguesia bolivariana (boliburguesia) abre plenamente as portas da Venezuela para restaurar o controle imperialista sobre o petróleo e as riquezas venezuelanas.

Por estas razões, dá pra entender por que Trump está tão contente com o novo governo.

Traição

A cinematográfica captura de Maduro e Cília Flores, na madrugada de 3 de janeiro, causou a morte de 32 cubanos e 47 venezuelanos, responsáveis pela guarda pessoal da presidência, que foram pegos de surpresa pelo ataque relâmpago das forças militares dos EUA, que não sofreram nenhuma baixa. Apesar dos autoelogios dos dirigentes estadunidenses à “alta performance” das forças militares que levaram a cabo a Operação Resolução Absoluta, a quase completa ausência de resistência das Forças Armadas Bolivarianas só pode ser explicada pela conivência e colaboração da alta cúpula do regime com o governo Trump.

O sentimento de traição foi exposto por uma apoiadora do regime chavista a uma repórter da BBC, durante uma manifestação pela libertação de Maduro e Flores: “Honestamente, me sinto humilhada, humilhada porque parece muito fácil para mim a forma como eles levaram nosso presidente (…). Acho que nosso presidente sofreu algum tipo de traição”, disse Rosa Contreras, 57 anos, que é líder social em Antímano, um bairro no oeste de Caracas.

O plano de 3 fases de Trump para a recolonização da Venezuela

Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, anunciou que a gestão conjunta da Venezuela com Delcy Rodrigues e a cúpula chavista será feita através de um plano de 3 fases: primeiro, a estabilização política do país; segundo, a recuperação econômica e, por fim, a transição de poder.

Junto com as medidas econômicas pró-Estados Unidos, o novo governo deu início à libertação seletiva de presos políticos ligados à oposição burguesa, liderada por Maria Corina Machado. Enquanto estende a mão à burguesia opositora para “estabilizar o país”, seguindo à risca o plano de Marco Rubio, Delcy e a cúpula chavista aumentam a repressão sobre o povo pobre e trabalhador nos bairros populares de Caracas e em todo o país, utilizando para isso o terror dos chamados “coletivos”, que são, na maioria, grupos armados paramilitares a serviço do regime.

O novo governo busca se sustentar diante da população utilizando duas armas: por uma lado, a manipulação política dos setores populares que ainda confiam no chavismo, buscando apresentar sua capitulação aos Estados Unidos como uma manobra tática do regime para sair da crise econômica que assola a população pobre e trabalhadora do país; por outro lado, a repressão contra qualquer tentativa de organização autônoma e independente do proletariado que possa colocar em risco o novo pacto de recolonização do país entre a boliburguesia chavista, a oposição burguesa e o governo Trump.

Só a luta mundial do proletariado pode enfrentar e derrotar o imperialismo

Esta realidade confirma nossas análises sobre o caráter burguês do regime chavista e sua degeneração bonapartista e pró-imperialista. E comprova também que só o proletariado, a classe trabalhadora e o povo pobre venezuelano, pode garantir a defesa do país contra a política de recolonização imposta pelo governo dos Estados Unidos.

A luta proletária pela independência da Venezuela é parte e só pode avançar em íntima conexão com a luta mundial do proletariado contra o imperialismo e o fascismo. Luta que tem como exemplo a heróica resistência do povo palestino ao Holocausto promovido por Israel e as potências imperialistas na Palestina e em todo o Oriente Médio. E que tem neste momento seu ápice nas greves gerais contra a repressão aos imigrantes e demais trabalhadoras e trabalhadores nos Estados Unidos, que se enfrentam diretamente com o governo pró fascista de Trump e da burguesia MAGA, no coração do imperialismo.

A tarefa número um do proletariado na Venezuela e em todo o mundo é livrar-se das falsas direções como o chavismo, o lulismo, as burocracias sindicais e parlamentares e as frentes populares que mantém nossa classe iludida e refém da colaboração e a conciliação de classes com as burguesias nacionais e o imperialismo.

Passo necessário para a construção de uma verdadeira direção política que enfrente a burguesia e o imperialismo através da mobilização e organização revolucionária do proletariado rumo à Revolução Socialista e Antimperialista.

Leia nossas análises e nossa política nestes artigos em nosso site: https://goipalavraoperaria.blog/category/internacional/venezuela/

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