A luta pelo futuro no Oriente Médio
Salvador Pérez (Málaga – Estado Espanhol)
O Irã está vivendo um levante popular massivo, onde as massas colocaram o regime dos mulás contra a parede. O regime implementou uma repressão brutal, com milhares de mortos entre os manifestantes, e se calcula, algo difícil de quantificar devido à falta de notícias oficiais confiáveis, mais dezenas de milhares de detidos.
Este acontecimento quase pegou o mundo de surpresa, em um momento em que todos os holofotes estavam voltados para a agressão imperialista dos Estados Unidos contra a Venezuela e as constantes ameaças a outros países, como Cuba, Colômbia, México ou Groenlândia, em um mundo ainda lembrando o genocídio do sionismo, com o apoio norte-americano e europeu, aos palestinos em Gaza, que abalou todos os alicerces no Oriente Médio. Todos esses acontecimentos giram em torno da luta acirrada que o planeta vive entre as potências imperialistas pela hegemonia mundial, entre os EUA de um lado e a China do outro.
Os oprimidos em todo o mundo temos a necessidade de fazer uma análise séria de todos esses acontecimentos, sob o ponto de vista dos interesses da nossa classe, com uma visão e perspectiva internacionalista, com o objetivo de poder organizar a luta em todos os países a partir do objetivo da transformação socialista como uma alternativa ao crescente mundo de caos e crise do capitalismo mundial. Como tantas vezes ocorreu na história, o pior que o movimento operário internacional pode viver é deixar-se influenciar pelas ideias e a propaganda da classe dominante, no contexto atual dos imperialistas estadunidenses ou chineses, onde vemos que ambos defendem os interesses de “suas classes dominantes no poder”.
No Irã, governado com a mão de ferro reacionária dos mulás, nos últimos meses temos assistido a um recrudescimento, com força, da crise econômica e social, que finalmente se transformou em crise política. Os preços dos produtos dispararam, em uma corrida sem fim. A inflação está descontrolada. Oficialmente, a taxa de inflação é de 40%, mas na realidade, no dia a dia, é ainda pior, com os preços dos produtos básicos duplicados e, em alguns casos, até triplicados.
Junto a isso, o valor do Rial, a moeda iraniana, está despencando, com uma forte desvalorização. Para termos uma ideia aproximada, em novembro de 2025 a taxa de câmbio no mercado era de 600.000 riais por dólar, mas já em janeiro de 2026 a cotação está em 1,4 milhões de riais por dólar, o que representa quase uma queda brutal de 75% do valor. Tudo isso tem o efeito imediato de gerar um empobrecimento galopante de toda a população iraniana.
Neste contexto, os atuais protestos no Irã começaram no dia 28 de dezembro, quando, inicialmente, uma categoria que se destacou nesses anos por apoiar os mulás, os comerciantes do “Grande Bazar de Teerã”, começou a se manifestar para protestar contra o aumento do custo de vida. A princípio, até aqui, nada indicava que os acontecimentos tomariam o rumo que vimos, já que, por si só, os comerciantes não constituem uma força revolucionária.
Mas, no entanto, as condições explosivas em que vive a sociedade iraniana fizeram com que os protestos desses comerciantes servissem como um pistão que canalizou todo o vapor ardente dos ânimos da sociedade: imediatamente outros setores da sociedade viram se abrir as portas da luta como alternativa diante dos problemas existentes, começando pela juventude e pelas mulheres, que ao se somarem à luta imprimiram um caráter nacional ao movimento. Como um verdadeiro rastilho de pólvora, as mobilizações em Teerã se espalharam para mais de 100 cidades diferentes, em 31 províncias de todo o país.
Desde o início, ficou claro a vontade do regime de não permitir as mobilizações populares, enviando as forças policiais para reprimi-las de forma brutal. E o movimento aprendeu com a experiência desses anos, sendo possível ver nas manifestações elementos de autodefesa dos manifestantes diante da repressão policial.
No ano de 2022, fomos testemunhas de um levante de massas em protesto pela morte de Mahsa Amini, uma jovem curda detida pela “Polícia Moral” do regime, que disseram ter sido por usar mal o hijab. Naquele momento, as forças repressivas do regime foram conscientemente violentas, provocando mais de 550 mortos e não menos de 20.000 pessoas detidas. Dessas lições, os manifestantes aprenderam hoje, e pudemos ver confrontos nas ruas, com manifestantes armados se defendendo das forças policiais.
“A necessidade às vezes se expressa através do acidente”, é uma lei. Ou, como mais concretamente expressou Frederico Engels, quando dizia que “às vezes passam-se anos em que parece que nada acontece, mas a situação se transforma dialeticamente, e vemos semanas e até dias em que acontecem acontecimentos que parecem anos”. As massas iranianas passaram anos suportando retrocessos sociais, privações de todos os tipos, juntamente com uma forte repressão estatal, seguida de mais repressão, que inclui a prática de anulação de qualquer direito democrático elementar.
Nessas condições, a “toupeira da revolução”, silenciosa, continua fazendo seu trabalho: a cada passo as bases de apoio social da ditadura dos mulás têm desaparecido e estão se evaporando, deixando o governo com o único bastião de apoio no exército e nas forças repressivas da polícia.
Como tantas vezes antes vimos nesse tipo de processos, o regime inicialmente tentou “dar doces” aos manifestantes, fazendo algumas pequenas concessões, com o objetivo de tentar acalmar o crescente sentimento de raiva e fúria: o governo dos mulás disse que aprovaria um subsídio de 7 dólares mensais para 71 milhões de pessoas, com o qual pretendia cobrir o aumento dos preços. Simplesmente, os manifestantes viram nessas concessões mais uma zombaria, e esse tipo de oferta jogou mais gasolina no fogo das mobilizações.
A economia capitalista iraniana nos últimos 15 anos, pelo menos, mostra um panorama de profunda crise, que, é claro, as alianças e acordos do regime com a China não conseguiram reverter. Segundo dados do Banco Mundial, o PIB do Irã pode ter contraído 4,4% em 2025, após um decréscimo de 0,6% em 2024. O capitalismo iraniano enfrenta as consequências da queda dos preços do petróleo nos mercados internacionais, que agora é vendido quase exclusivamente para a China, Índia e Rússia, países que não aceitaram as sanções impostas pelos EUA, e que, desde então, consomem 80% do petróleo iraniano, não ao preço que tinha no passado, de 100 dólares por barril, mas aos atuais 55 dólares/barril. A tudo isso somam-se os fortes efeitos econômicos provocados pelas sanções impostas pelo imperialismo norte-americano.
Além disso, devemos entender o papel desempenhado pela existência de uma classe burguesa iraniana reacionária e parasitária, que também suga a maior parte dos recursos do Estado, tornando muito difícil que o capitalismo iraniano possa sair de sua crise. O governo dos mulás, alinhado com a burguesia, impõe repetidamente que o peso da crise sempre recaia sobre os ombros dos trabalhadores, da maioria empobrecida da população, praticando uma política de cortes sociais constantes e permanentes e impondo a cada passo condições de vida piores para a maioria. Esta é uma receita certa para os surtos revolucionários.
Uma combinação de queda na receita em moeda estrangeira, juntamente com o aumento do déficit do Estado, foi respondida pelo Governo impondo mais e mais políticas da chamada “austeridade”, com cortes sociais no orçamento nos anos de 2024 e 2025, que não conseguiram resolver nada, mas agravaram tudo. No Orçamento de 2026-2027, o governo aumentou os impostos sobre as pequenas empresas, enquanto cortava pensões e salários dos funcionários públicos. Mais um litro de gasolina no fogo social, criando o caldo de cultura ideal para a explosão social que estamos vendo.
A aliança com a China resolve a situação?
Como pano de fundo de toda essa situação, devemos destacar um fato da realidade objetiva: a China criou, nesses anos, vínculos comerciais muito fortes com Teerã, em resposta à política permanente de sanções dos EUA. O governo iraniano e a China assinaram, para os próximos 10 anos, acordos de investimentos no valor de 400 bilhões de dólares, passando o Irã a fornecer seu petróleo principalmente para os chineses.
Mas isso representa uma resposta concreta àqueles que, a partir de posições teóricas de “esquerda”, propõem como solução para os problemas das massas nesses países, chegar a esses acordos com o país que chamam de “socialismo de mercado”, observando como todos esses vínculos do Irã com a China estão longe de terem, ao menos, aliviado as cada vez piores condições de vida das massas iranianas. Esta é uma resposta fulminante às posições de quem nega o caráter imperialista da China, àqueles que veem os chineses como “país solidário dos povos”.
Aqueles que são incapazes de ver além da superfície, dos miragens e da propaganda do imperialismo, seja norte-americano ou chinês, devem estar surpresos após os últimos acontecimentos na cena mundial, com a situação dramática para as massas na América Latina após os acontecimentos na Venezuela, o que estamos vendo em todo o Oriente Médio, onde ao genocídio em Gaza seguem-se os acontecimentos convulsivos no Irã, entre outros fatos.
Dissemos isso e repetimos: toda a situação mundial está marcada pela crescente luta dos poderes imperialistas em disputa para estabelecer uma nova divisão das hegemonias mundiais e das áreas de influência das diferentes potências. E o papel dos EUA é absolutamente o de uma força reacionária tremenda, mas não menos do que o papel que China ou Rússia desempenham, os quais são cúmplices de toda essa situação.
Após o ataque imperialista à Venezuela, incluindo o sequestro de Nicolás Maduro, Donald J. Trump também começou a gritar e ameaçar novamente o governo iraniano, pretendendo nos fazer acreditar que está preocupado com os indefesos “manifestantes”, aos quais incentiva dizendo que “tomem as instituições, que a ajuda já está a caminho”. Este “novo democrata” se esquece de que há apenas sete meses seu exército e o israelense estiveram bombardeando instalações nucleares iranianas, em exercícios que duraram 12 dias.
Se Trump entrar no Irã, destituir o governo dos mulás e impor um governo fantoche dos EUA, isso seria um forte golpe à China, mas desde o início avisamos que, obviamente, não será nada progressista para as massas. Como explicamos no caso da Venezuela, no caso específico do Irã devemos insistir nisso: é central que, começando pela classe trabalhadora iraniana, comecemos a rejeitar veementemente as, por enquanto, ameaças e planos de intervenção do imperialismo norte-americano no Irã. Caso o imperialismo norte-americano derrote o regime dos mulás, será apenas para beneficiar os imperialistas norte-americanos e seu desejo de mais e mais lucros. As massas iranianas sairão perdendo, e a única luta na qual podem vencer é levando adiante uma firme luta para derrubar o capitalismo iraniano, para que o povo assuma o poder, sob a perspectiva da transformação socialista da sociedade.
Tudo indica que os próximos dias, as próximas semanas, serão decisivos para verificar em que sentido os acontecimentos evoluem. O regime dos mulás não tem um miligrama de progressismo, pelo contrário. Representa uma classe dominante burguesa tremendamente reacionária, assim como os interesses de uma casta burocratizada de funcionários que vivem da corrupção generalizada, saqueando o próprio Estado a cada passo. Porém, a perspectiva do imperialismo não é de forma alguma mais progressista: representam os desejos de norte-americanos e chineses de ficar com o petróleo iraniano e condenar as massas à miséria.
Nesse sentido, a única saída progressista para as massas no Irã e em todo o Oriente Médio é a luta para acabar com o capitalismo, lutando para estabelecer uma Federação Socialista dos Povos do Oriente Médio, como parte no futuro de uma Federação Socialista Mundial. Socialismo ou barbárie, aqui está o dilema para a humanidade nos próximos anos e décadas.
[artigo publicado originalmente no blog Luchacontracorriente: https://luchacontracorriente.blogspot.com/2026/01/estallido-social-en-iran.html]


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