Max Raimundo
Na sexta feira, 20/2, aconteceu em São Paulo um protesto em frente ao escritório da empresa Cargill, multinacional, gigante do setor alimentício, atrelada ao agronegócio e exportadora de soja, com sede nos Estados Unidos.
O ato, pacífico diga-se de passagem, teve à sua frente os povos originários, que lutam pela revogação do projeto 12.600, do governo federal, que privatiza os rios Tocantins, Tapajós e Madeira ao incluí-los no Programa Nacional de Desestatização, concedendo a empresas privadas a realização de dragagem e controle de tráfego de embarcações nessas áreas.
Com concentração para as 19h, o ato teve microfone aberto para os participantes fazerem denúncias contra a Cargill e críticas ao governo federal, responsável por assinar o decreto. Houve momentos de canto e dança com os povos indígenas. Mas também, de tensão com o número de policiais que começava a aumentar e ostentar seus escudos e armas. As vias foram fechadas pela manifestação, palavras de ordem como “Fora Cargill” foram entoadas e “tapajós” foi escrito em vermelho em duas colunas.
Este ato, que aconteceu em São Paulo e vai se repetir em outras regiões, é um desdobramento da luta direta dos povos originários e das organizações da classe trabalhadora contra a exploração e devastação do agronegócio.
Ocupação e bloqueio da Cargill no Pará
Há mais de 30 dias manifestantes mantêm bloqueado o acesso terrestre ao terminal da Cargill, em Santarém, no Pará, a fim de pressionar o governo Lula pela revogação do decreto 12600. No entanto, diante da intransigência do governo federal, os manifestantes escalaram os protestos e ocuparam a empresa Cargil. Lá dentro, sem surpresa pra ninguém, se depararam com um cenário degradante, com moscas por toda parte e um mal cheiro insuportável deixado pela fermentação da soja.
O decreto 12600 facilita o escoamento de soja, garantindo os lucros do grande capital em detrimento da vida das populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas, poluindo os rios e desmatando a floresta, numa lógica predatória que nos consumirá a todos.
Derrota do governo Lula-Alckmin
Na segunda-feira, 23/2, o governo teve que recuar assinando a revogação do decreto 12600.
Embora o ministro da secretaria geral da república, Guilherme Boulos (PSOL), acompanhado da ministra dos povos indígenas, Sônia Guajajara (PSOL), tenham vindo a público declarar que a revogação do decreto é uma decisão do governo Lula, pautada na escuta do povos indígenas, o que ficou evidente foi a surdez desse governo, que só recuou depois de muita luta de todos e todas que fizeram parte da mobilização na frente e dentro da Cargill em Santarém, no Pará. Foram mais de 30 dias gritando em alto e bom som as mazelas deste decreto.
Além disso, houve promessa de consulta aos povos indígenas, o que, na prática, não aconteceu, desrespeitando a convenção 169 da Organização Internacional dos trabalhadores (OIT), que exige, dentre outras coisas, uma consulta prévia, livre e informada sobre qualquer ação que afete diretamente essas comunidades.
Portanto, a vitória dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos contra o decreto 12600, é um exemplo para nossas organizações e lutas contra o capital em todos os âmbitos, um exemplo de resistência e de coragem. Uma mostra de que o avanço da emancipação dos povos oprimidos no Brasil deve acontecer, não à luz da conciliação, mas no enfrentamento à burguesia e aos governos que a representam.
[Foto: Gabriel Lobato]


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