Racismo e machismo num evento da diversidade

Carta do GOI à direção da Resistência/PSOL

Camaradas,

É com bastante indignação e tristeza que relatamos abaixo o ocorrido com nossa camarada Sandra Fortes, no lançamento da pré-candidatura de Carol Iara, no dia 14/06/2024, no Quintal Galpão, em São Paulo.

Sandra e Carlos, militantes do GOI, se dirigiram ao local do evento naquela noite. Sandra trabalhou pela manhã em Taboão, onde mora. Carlos, que  mora no Capão Redondo e trabalha no Morumbi, trabalhou das 7 às 17h.

Ambos chegaram ao evento com uma carta do GOI dirigida a Boulos e Carol Iara, com o debate que estamos fazendo no interior do PSOL, por ocasião do processo eleitoral. Sandra é pré-candidata a vereadora em Taboão da Serra, pelo PSOL. Um debate fraterno que temos realizado no interior de eventos do PSOL e do movimento, e em nossas redes sociais.

A camarada Sandra nos relatou que sentiu estranheza logo na chegada, ao assinar o abaixo assinado pela mudança do nome da estação República para República Orgulho, na mesa da recepção do evento, quando foi perguntado pela C., militante da Resistência, se Carlos queria receber material de campanha da Carol Iara e a ela não.

Em seguida, antes de chegarem na cortina que tinha que ser atravessada para adentrar o evento, Carlos avisou Sandra que Boulos estava saindo. Sandra então parou, aguardando que ele terminasse a foto que fazia com pessoas, e retirou do pacote 1 (uma) carta para lhe entregar. Neste momento, cumprimentou pela segunda vez a militante C. (que não a havia cumprimentado da vez anterior), e esta lhe respondeu com hostilidade: “Não sei o que você está fazendo aqui!”

Sandra respondeu que havíamos sido convidados. Em choque com a forma hostil com que estava sendo tratada, quando virou, Boulos já havia passado, o chamou e  lhe entregou o panfleto.

Em seguida, ao se dirigir à entrada, na fresta da cortina, Sandra foi interceptada por P., também militante da Resistência, que havia ouvido as palavras de C. e se colocado de forma agressiva na frente de Sandra para impedir sua passagem. Sandra perguntou se estava sendo barrada e ele disse que sim, exigindo um panfleto. Carlos, que não foi barrado, nem hostilizado, já estava do lado de dentro, e quando percebeu que Sandra não entrava, voltou. P., com a carta na mão, começou a dizer, também de forma hostil, que eles não estavam panfletando nada no evento e que os materiais deveriam ser colocados na mesa da entrada. Se quiséssemos distribuir a carta deveríamos fazer isso do lado de fora. Foi quando C. disse: “Vocês estão aqui para tumultuar o evento!”. E que deveríamos entregar a carta para Carol Iara e não para todos no evento.

Sandra explicou que estávamos trazendo um debate para dentro do PSOL nestas eleições. Carlos explicou que havia sido convidado por Carlos Daniel, ativista LGBTTQIAPN+ e militante da Resistência.

Carlos Daniel, quando nos viu, interveio. Cumprimentou Sandra, cumprimentou Carlos e confirmou o convite. Disse que podíamos entrar. Então Sandra e Carlos deixaram parte dos panfletos na mesa e entraram para o evento.

Sandra relata que se sentiu muito mal, agredida e desrespeitada, hostilizada, sem necessidade. Carlos, depois de todo o estresse da entrada, também relatou o desconforto e vontade de ir embora, mas que decidiu ficar pela importância de nossa participação no lançamento.

Sandra, depois que entrou, desabafou com Sirlene, deputada estadual pelo PSOL e militante da Resistência (e que conhece desde o período que militaram juntas no PSTU), sobre o mau tratamento que recebera.

Sandra e Carlos se sentaram, participaram do evento de lançamento da pré candidatura e depois se dirigiram à saída, quando algumas pessoas saiam, ainda durante a apresentação política/artística, depois das falas, para distribuírem a carta.

Carlos, que atua conjuntamente com militantes da Resistência no Cursinho Popular do Capão Redondo, ativista de movimentos de luta contra a opressão LGBTQIAPN+, um homem branco, entregou a carta para Carol Iara, quando a mesma saiu para fazer umas fotos, informando sobre o conteúdo da carta ser a expressão do que estamos vivendo na base do movimento e a importância de ela ter ciência disso. Neste momento, Carol Iara disse não o ter visto durante o evento das falas políticas.

Carlos havia solicitado, previamente, pelo Instagram de Carol Iara, a permissão para poder fazer uma intervenção no lançamento, com o que ela teve acordo. Porém, Carlos, Sandra e o GOI foram ignorados durante todo o ato, onde foram citadas várias e vários ativistas e organizações presentes.

Mesmo que o conteúdo da nossa Carta a Carol Iara e Boulos possa não ser de acordo da Resistência e seus militantes, acreditamos que podiam e deviam ter agido de outra forma conosco. Ademais, porque não nos foi informado previamente que era proibido distribuir materiais dentro do evento. Os camaradas da Resistência responsáveis pela organização do ato poderiam ter nos chamado para conversar à parte, e de forma respeitosa explicar como estava sendo organizado o evento, de que não era permitido distribuir materiais dentro, mas sim só deixar na banca. Certamente, teríamos entendido de imediato a limitação imposta e nos subordinaríamos à organização do ato.

As agressões que nossa camarada Sandra Fortes sofreu por parte dos militantes da Resistência, C. e P., são expressão do machismo e do racismo no interior do movimento da classe trabalhadora. Uma atitude inaceitável, sobretudo em um evento que celebrava a diversidade e o combate a todas as formas de opressão.

A relação das/os militantes do GOI com as/os militantes da Resistência, assim como de todas as correntes e ativistas, sempre foi pautada pelo respeito e camaradagem revolucionária. Infelizmente, não foi com estes métodos que fomos tratados no lançamento de Carol Iara.

Nosso objetivo com esta carta é, em primeiro lugar, fazer o relato dos fatos ocorridos para conhecimento da direção da Resistência e, também, de Carol Iara. Em segundo lugar, buscamos construir uma visão comum entre nossas organizações sobre a caracterização de que nossa camarada Sandra Fortes foi vítima de racismo e machismo. Sandra é trabalhadora do funcionalismo público de Taboão da Serra há mais de 20 anos, ativista incansável da luta das mulheres pobres e trabalhadoras e do movimento negro classista, vai completar 60 anos, 46 deles dedicados à militância revolucionária e socialista. Em terceiro lugar, consideramos que a moral revolucionária que deve reger as relações entre nossas organizações impõe que haja uma retratação formal da Resistência dirigida à nossa camarada Sandra Fortes e ao GOI.

Poderíamos assim, de forma séria e correta, manter os fatos ocorridos no âmbito das relações bilaterais entre nossas organizações, sem necessidade de levar o debate a público.

Com os mais sinceros votos de que cheguemos a uma solução comum.

Taboão da Serra, 14 de julho de 2024

Direção do GOI – Grupo Operário Internacionalista/ jornal Palavra Operária

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