Sobre as rupturas na LIT-QI. Uma proposta de diálogo.

Oito anos após o último estalido da LIT – Liga Internacional dos Trabalhadores, uma série de rupturas abalam novamente a organização internacional fundada em 1981 pelo dirigente trotsquista argentino Nahuel Moreno, assim como aprofundam as divisões em suas seções nacionais.

Já tomamos conhecimento, através de suas declarações públicas, da formação dos seguintes agrupamentos: a ex-FDR (Fração pela Defesa e Reconstrução da LIT), que afirma ter sido expulsa na abertura do XVI Congresso Mundial da LIT, formou um novo grupo no Brasil, o MPR (Movimento por um Partido Revolucionário). Os camaradas da ex-TOUPI (Tendência Operária pela Unidade Principista da Internacional), que decidiram romper durante o Congresso por discordarem das expulsões, fundaram a CORI-QI (Corrente Operária Revolucionária Internacional – Quarta Internacional). Outro setor também rompeu e formou o GOI (Grupo Obrero Internacionalista) da Argentina, que, esclarecemos, não mantém relações com o GOI do Brasil.

O GOI do Brasil e a CTR da Argentina foram formados em 2017, nos marcos da crise que foi destampada durante o XII Congresso da LIT. É forçoso dizer que a nova leva de rupturas não nos surpreende, apenas demonstra que os problemas que estavam na raiz da crise anterior não só não foram enfrentados, senão se agravaram. Neste sentido, a crise atual é tão somente um desdobramento e continuidade da crise anterior. Pela extensão das rupturas, que atingem praticamente todas as seções da LIT, a crise atual é de proporções ainda maiores do que a crise de 2016-2017.

A questão do regime interno centralista democrático é colocada como razão central da crise, tanto pelas correntes que romperam, como pela direção remanescente da LIT, que se acusam mutuamente de transgressão do regime interno da organização. Todas afirmam também que as diferenças políticas surgidas no curso dos debates não seriam de monta a justificar uma ruptura.

Nós, militantes do GOI e da CTR, com esta primeira carta, buscamos estabelecer um diálogo produtivo, honesto e objetivo, com os militantes e ex-militantes da LIT e de suas seções nacionais, principalmente com os quadros e militantes de base que passam a refletir e buscar os fatores objetivos e subjetivos que levaram ao processo de crise e fragmentação de uma das grandes correntes do trotsquismo internacional, a maior organização trotsquista da América Latina. Consideramos também que este debate é do interesse do conjunto dos militantes de todas as organizações marxistas (e não apenas de origem trotsquista) que se colocam na perspectiva da Revolução Socialista e da reconstrução de uma Internacional Revolucionária do proletariado mundial.

O GOI e a CTR nasceram de enfrentamentos políticos, programáticos, teóricos e metodológicos que travamos no interior da LIT e do PSTU do Brasil (PSTU-B) e do PSTU da Argentina (PSTU-A), que culminaram na formação da tendência internacional DTO (Tendência em Defesa do Trotsquismo Ortodoxo), durante o XII Congresso da LIT, em 2016.  A DTO se enfrentou contra os métodos burocráticos e fracionalistas que eram aplicados pelas duas frações da direção da LIT, a TR (maioria da direção),  e a TI (minoria da direção, que rompeu e formou a organização que hoje se chama Resistência, corrente do PSOL, no Brasil), métodos que culminaram na divisão da internacional e principalmente das seções brasileira e argentina. 

Em particular no PSTU-B, a luta interna através de grupos de opinião, tendências e fração, se desenvolveu ao largo de 9 anos, antes da decisão de romper e formar o GOI-Brasil, em 2017. Na Argentina, camaradas que participaram da DTO, após a ruptura, se unificaram na CTR, em 2018. Desde então, nos últimos 8 anos, o GOI  e a CTR vêm mantendo uma fraternal relação internacional, alicerçada na experiência de intervenção na luta de classes e de construção de nossos grupos junto ao proletariado no Brasil e na Argentina.

A fragmentação do morenismo é parte e continuidade da “crise histórica de direção do proletariado mundial”, já apontada, em 1938, por Leon Trotsky, como “a característica fundamental da situação política mundial”. Esta crise histórica, que se expressa de forma crua e nítida na atual conjuntura mundial, tem se manifestado nas crises e rupturas recorrentes que atravessaram e atravessam todas as grandes correntes em que se dividiu a IV Internacional (a “diáspora trotsquista”), combinando-se com a crise dos aparatos contrarrevolucionários que atingiu e atinge também as correntes de origem social-democrata, estalinista, maoista, guerrilheirista etc. O que predomina na conjuntura é a fragmentação e a dispersão de quadros, militantes e ativistas proletários que se reivindicam socialistas e revolucionários em um sem número de correntes e organizações, em nível internacional e em cada um dos países. 

Para avançarmos no longo caminho de superação desta crise de direção é necessário partirmos desta realidade como ela é. Para encararmos a árdua tarefa de reconstrução de uma direção socialista revolucionária do proletariado mundial não há atalhos, nem direções reconhecidas.

A experiência tem demonstrado que de nada serve a autoproclamação como “direção” ou mesmo “embrião de direção”, apanágio que se outorgam a si mesmos alguns “grandes dirigentes” que, a cada crise, assistem, impotentes, à fragmentação e à dispersão dos quadros e militantes sob sua autoridade em bancarrota.

Nós, do GOI e da CTR, não nos postulamos como “embrião” de nada. Temos mais acordo com a forma em que colocam a questão os camaradas da recém formada CORI-QI em seu manifesto: “Confiamos em colocar nosso máximo esforço para contribuir com o nosso grão de areia para a construção de uma direção revolucionária que possa cumprir seu compromisso com a história.”  Nós não dirigimos aparatos sindicais e parlamentares, nem aparatos de “propaganda revolucionária” nas redes sociais. Como parte da velha geração trotsquista formada nos anos 1970 e 1980, e da nova geração do novo século (até agora), nunca vivemos e menos ainda dirigimos grandes processos revolucionários. Temos, portanto, uma profunda consciência crítica de nossos limites como revolucionários. Nosso único ativo é a experiência militante de quadros que dedicam o melhor de suas vidas à construção de uma direção revolucionária e que, para isso, permanecemos organicamente inseridos no proletariado e em suas lutas. A única força que temos é a de nossos argumentos.

A experiência demonstra também a inutilidade de todo tipo de “atalhos” que aparentam avançar na direção da “reorganização” das forças revolucionárias. A exemplo das “frentes de esquerda” eleitorais, pontuais ou permanentes, nas quais chafurdam no parlamentarismo e no eleitoralismo algumas organizações da “esquerda revolucionária”. Ou as frentes sindicais que degeneram em aparatos a serviço de uma nova burocracia sindical “revolucionária”, que se adapta e capitula à velha burocracia oficial. Enquanto a “esquerda revolucionária” busca atalhos nestas unidades fictícias, seguem sendo incapazes de se constituir como uma verdadeira frente única revolucionária no terreno da luta de classes do proletariado contra a burguesia e o imperialismo, e no enfrentamento à burocracia sindical e parlamentar e às frentes populares.

Desde já, deixamos claro que não temos a pretensão de sermos os “donos da verdade”. A análise dos complexos temas que levaram à crise da LIT, vai requerer de todos nós um enorme esforço de elaboração marxista e muita paciência revolucionária. Contudo, apesar de não termos nada a comemorar em relação às novas rupturas na LIT, consideramos promissor o fato de que, a partir da realidade objetiva da continuidade e agravamento da crise da LIT, mais quadros e militantes de formação trotsquista-morenista e também de outras tendências marxistas tomem consciência e somem forças no estudo das raízes da crise de direção revolucionária e nas tarefas e métodos para a sua superação.  

A partir desta carta, vamos tornar públicos e à disposição de todos os militantes marxistas internacionalistas os principais textos elaborados por nós na luta que travamos dentro da LIT, de 2008 a 2017, naquele momento subordinados ao regime centralista democrático, o qual nunca transgredimos, apesar de nossas enormes e crescentes divergências políticas.

Estes textos, até hoje não levados a público, foram sendo elaborados para dar respostas a problemas concretos colocados pela luta de classes e pela construção partidária, enfrentando os desvios sectários e oportunistas e a burocratização do regime interno que já se manifestavam no interior da LIT e de suas seções brasileira e argentina. Agora vamos compartilhá-los com os novos agrupamentos de quadros e militantes que se colocam na difícil e decisiva tarefa da reconstrução das organizações proletárias revolucionárias.

É com este método e este objetivo que escrevemos esta primeira carta de chamado ao diálogo com as/os ativistas proletários e quadros e militantes marxistas revolucionários.

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