Capítulo 1
A cena política nacional tem sido polarizada nas últimas semanas pelo julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) dos responsáveis pelo fracassado golpe de 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, junto com a cúpula militar e civil que comandou o país durante seu governo. O general Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil, foi condenado a 26 anos; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, e Almir Garnier, ex-comandante da Marinha, a 24 anos; o General Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, a 21 anos; o General Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, 19 anos; o deputado federal do PL, Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin: 16 anos. Já o delator, tenente-coronel Mauro Cid, pegou pena de 2 anos, em regime aberto, pelos bons serviços prestados. O STF já havia condenado 160 participantes menos ilustres dos atos golpistas de 8 de janeiro, com penas entre 14 e 17 anos de prisão.
A condenação da cúpula golpista foi recebida com júbilo nas redes sociais. As hostes petistas e psolistas comemoraram a “vitória sobre o bolsonarismo”, elevando às alturas o “quarteto fantástico” da Primeira Turma do STF (Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin), que condenou os golpistas de goleada, 4 a 1 (o ministro Luiz Fux deu o único voto favorável aos golpistas).
Mas, como “alegria de pobre dura pouco”, não tardou para que o júbilo se transformasse em raiva diante da pronta reação do bolsonarismo, entrincheirado no Congresso Nacional.
Capítulo 2
Em resposta às sentenças de prisão, a maioria reacionária da Câmara dos Deputados (bolsonarismo + Centrão) iniciou uma ofensiva com o objetivo de aprovar uma lei de anistia geral, ampla e irrestrita aos golpistas. E, de quebra, os ilustres deputados aproveitaram o ensejo para aprovar uma pré anistia aos seus próprios crimes, passados, presentes e futuros.
O Projeto de Emenda Constitucional – PEC das Prerrogativas, garante maior impunidade a crimes cometidos por parlamentares: amplia o foro privilegiado (tribunais especiais para julgamento de parlamentares), restringe processos criminais contra parlamentares (podem ser presos apenas em flagrante delito) e acrescenta voto secreto nas votações do Congresso para autorizar abertura de processos contra parlamentares.
A PEC, que ganhou o apelido de PEC da Blindagem, e logo, de PEC da Bandidagem, foi aprovada na noite de 16/9, por 344 a 133 votos.
Capítulo 3
A ousadia, para não dizer a falta de vergonha, do contra-ataque do bloco bolsonarista-Centrão gerou uma onda de indignação nas hostes democráticas e esquerdistas. Um abaixo assinado online reuniu rapidamente mais de 1 milhão de assinaturas. Artistas do calibre de Chico, Gil, Caetano, Anitta, Wagner Moura e outros famosos “de esquerda” se colocaram à frente da convocação das massas às ruas para a “defesa da democracia”.
Os atos realizados em todo o país, no domingo ensolarado de 21 de setembro, foram os maiores da “esquerda” desde a posse de Lula no novo mandato, chegando a reunir mais de 40 mil pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, e outro tanto na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. As multidões, vestidas de verde e amarelo e carregando bandeiras do Brasil, “resgataram” os símbolos nacionais e a “luta contra a corrupção”, até então nas mãos do bolsonarismo.
Diante do repúdio generalizado à anistia para Bolsonaro e os golpistas e à PEC da Bandidagem, a burguesia “republicana” buscou se diferenciar da gatunice do Congresso Nacional. O jornal O Estado de São Paulo, sempre a postos, no editorial “A Câmara esbofeteia o Brasil”, disparou: “Ao aprovar PEC da Blindagem, Câmara transforma mandatos em escudos de impunidade, violenta a Constituição, trai a representação popular e abre as portas do Congresso para o crime organizado.” O deputado federal Kim Kataguiri (MBL/União Brasil), “herói” dos atos pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, acionou o STF, que exigiu “explicações” da Câmara, em 10 dias.
O repúdio geral à PEC da Bandidagem obrigou o Centrão a recuar, e a PEC foi recusada por unanimidade pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 24/9. A disputa agora passa a se concentrar no Projeto de Lei da Anistia.
Capítulo 4
O agravamento da crise entre a “direita” e a “esquerda” ameaçava gerar cenas pouco republicanas no Parlamento, e se transformar num “banho de sangue” nas redes sociais. É quando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), decide convocar o deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade) para liderar uma saída para a grave crise nacional. Paulinho, um expert em corrupção, é “próximo” do ministro do STF Alexandre de Moraes e estaria apto a mediar um acordo entre o Congresso e o STF sobre a anistia aos golpistas.
O deputado imediatamente convocou uma reunião com dois próceres da burguesia “republicana”, o ex-presidente, também expert em golpes, Michel Temer (PMDB) e o deputado federal Aécio Neves (PSDB), também bastante versado em corrupção. Foi feito contato com Alexandre de Moraes (que foi nomeado ao STF por Temer) e Gilmar Mendes (o “decano” da Corte), com o objetivo de negociar uma Lei da Anistia que seja aceitável para todos. Paulinho considera mais prudente mudar o nome de Projeto de Lei da Anistia para “PL da Dosimetria”, que teria como objetivo reduzir as penas de Bolsonaro, dos generais e da arraia miúda que protagonizou a pantomina de 8 de janeiro.
A iniciativa de “pacificação” promovida pelo novo quarteto Mota-Paulinho-Temer-Aécio foi suficiente para aplacar os corações republicanos. Em novo editorial, de 20/9, suspirou o Estadão: “Dos males, o menor”: “Por meio do ‘PL da dosimetria’, Congresso tem a chance de costurar um acordo para corrigir excessos na punição dos que foram apenas massa de manobra dos líderes golpistas”, expressando preocupação com a suposta “pena excessiva” imposta a Débora do Batom e outros bagrinhos bolsonaristas condenados pelo golpe.
Mas, ao que parece, a vida de Paulinho da Força será difícil nesta semana tentando costurar um acordo entre as várias facções do Congresso Nacional e o STF.
Capítulo 5
Felipe fez um bico na Rua Augusta, no domingo, e viu o ato na Paulista pelas redes sociais. Maria trabalhou normalmente no call center, escala 6×1, e não está inteirada sobre o assunto. Pedro, depois de uma jornada cansativa de 8 horas na fábrica, volta pra casa de ônibus, divertindo-se com os memes do Instagram: “A vida é breve… então sorria enquanto ainda tem dentes. kkkk”. Dona Marta, 65 anos, e o marido Manoel, vivem com o BPC (Benefício de Prestação Continuada), e foram dormir preocupados porque o arroz e o feijão estão acabando.
Vida que segue… Aguardando os novos capítulos.


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