Ou “Os vampiros também morrem”
D. Joffe
Na quarta-feira, 10 de setembro, uma bala na qual poderia estar escrito “Ei, fascista, pega!” ou “Bella ciao!”, calou a voz do propagandista pró fascista Charlie Kirk, enquanto fazia uma pregação a centenas de jovens na Universidade do Vale de Utah, Estados Unidos.
Kirk, branco, 31 anos, por muitos qualificado como o “jovem Trump”, era o principal porta voz junto à juventude universitária do ideário MAGA (Make America Great Again), e, através do seu movimento Turning Point USA, um dos principais recrutadores de jovens para a ultradireita pró-fascista estadunidense.
A importância e o papel central de Kirk entre os setores burgueses que dominam hoje o Estado ianque podem ser dimensionados pela homenagem que lhe prestou J.D. Vance, vice-presidente de Trump: “Muito do sucesso que tivemos neste governo se deve diretamente à capacidade de Charlie de organizar e convocar. Isso não apenas nos ajudou a vencer em 2024, mas também nos ajudou a contratar pessoal para todo o governo.”
A morte de Kirk gerou imediatamente uma unanimidade no establishment político estadunidense, unindo vozes republicanas e democratas na condenação ao atentado.
A ultradireita pró-fascista, abalada pela morte de um dos seus principais porta-vozes, combina as homenagens póstumas com as ameaças de vingança. Trump, ao anunciar que concederá postumamente a Kirk a Medalha Presidencial da Liberdade, declarou: “Charlie era um gigante da sua geração, um campeão da liberdade e uma inspiração para milhões e milhões de pessoas”. Ao mesmo tempo, anunciou planos de repressão contra a “violência política da esquerda radical”, a quem responsabiliza pelo acirramento dos enfrentamentos políticos no país. Enquanto isso, governadores republicanos iniciavam uma caçada a professores e funcionários públicos que se manifestavam nas redes sociais denunciando a verborragia fascista de Kirk. E trabalhadores estão sendo demitidos nos Estados Unidos e até no Brasil pelo mesmo motivo.
Os democratas, por sua vez, se somaram aos seus concorrentes da ultradireita republicana, destacando o suposto “pacifismo dialogante” de Kirk e condenando a “violência” como método para dirimir as polêmicas políticas.
Vamos tomar como exemplo o democrata liberal Ezra Klein, jornalista do The New York Times, que num artigo intitulado “Charlie Kirk fazia política do jeito certo”, se desfaz em elogios a Kirk: “Você pode não gostar de muito do que Kirk acreditava, mas (…) praticava política exatamente da maneira correta”; “Ele era um dos praticantes mais eficazes da persuasão desta era”; “O progressismo poderia usar mais da coragem e destemor dele.” “Kirk e eu estávamos em lados diferentes na maioria dos debates políticos, mas estávamos do mesmo lado quanto à possibilidade contínua da política americana. Deveria ser um debate, não uma guerra; deveria ser vencido com palavras, não finalizado com balas.”
O ex-presidente Barack Obama escreveu: “Ainda não sabemos o que motivou a pessoa que atirou e matou Charlie Kirk, mas esse tipo de violência desprezível não tem lugar em nossa democracia. Michelle e eu oraremos pela família de Charlie esta noite, especialmente por sua esposa Erika e seus dois filhos pequenos”.
As almas piedosas, bem vestidas e bem alimentadas de burgueses democratas como Barack Obama e Ezra Klein tentam apresentar a militância política de Kirk como a defesa pacífica de ideias legítimas, nos marcos do debate democrático. Mas, de quais ideias estamos falando? Vejamos algumas delas: Kirk defendia a criminalização do aborto, mesmo no caso de estupro; que vale a pena ter algumas mortes inocentes para garantir o direito ao porte de armas; minimizava a escravidão e o racismo na sociedade estadunidense, com afirmações do tipo: “Os negros foram vendidos como escravos por outros negros” ou “Mais negros vieram para a América voluntariamente do que pelo tráfico de escravos”; criticava a Lei dos Direitos Civis, de 1964, que proibiu a segregação e discriminação racial nos EUA, e elogiava pastores que pregam que os negros são “amaldiçoados por Deus para serem pessoas servis e condenadas à escravidão perpétua”; chamou de “canalha” a George Floyd, jovem negro assassinado pela polícia de Minneapolis, em 2020, caso que detonou manifestações antirracistas de milhões de pessoas nos EUA; condenava a “agenda LGBT”, equiparando a homossexualidade à prática de aliciamento de crianças; condenava o feminismo, defendendo que as mulheres deveriam renunciar à educação e à carreira de trabalho para se concentrarem na vida de dona de casa, submissas ao homem. E, como não poderia ser diferente, Kirk era “um defensor de Israel e dos judeus” (nas palavras insuspeitas do site sionista https://pt.chabad.org/library), apoiando incondicionalmente o holocausto contra o povo palestino na Faixa de Gaza.
Para a burguesia democrata e a intelectualidade pequeno burguesa, do tipo de Barak Obama e Ezra Klein, estas questões são apenas ideias para o debate entre a “esquerda” e a “direita”, para a polêmica entre “liberais” e “conservadores”, entre cafezinhos, sorrisos e apertos de mão, como convém a “pessoas civilizadas”. “Ideias” que devem ser submetidas pacifica e periodicamente ao voto nas eleições, para que o Partido Democrata e o Partido Republicano se revezem no poder. Governar o Estado com “ideias” mais liberais ou mais conservadoras, a isto se resume a rivalidade entre as duas facções burguesas que desde sempre dividem o poder econômico e político nos Estados Unidos.
Porém, para as classes exploradas e oprimidas e os povos colonizados, estas “ideias” apenas buscam “normalizar” uma realidade concreta de violências cotidianas, nos Estados Unidos e em todos os países do mundo submetidos ao jugo imperialista e das burguesias nacionais. Sob as “ideias” racistas, machistas e lgbtfóbicas de Kirk e seus acólitos, milhões de pessoas negras, latinas, mulheres e LGBTQIA+ sofrem de forma crescente com a discriminação e a violência física e mental. Sob as “ideias” xenófobas, islamofóbicas e sionistas de Kirk e sua laia, 200 mil palestinos (a maioria mulheres e crianças) foram assassinados por Israel na Faixa de Gaza. Sob o ideário MAGA, defendido “pacificamente” por Kirk, avança o fascismo trumpista como um rolo compressor sobre os imigrantes e sobre os direitos trabalhistas, civis e democráticos do povo dos Estados Unidos.

Não é necessário que Charlie Kirk tenha disparado uma única bala em defesa de suas ideias fascistas. Seu papel era dar sustentação ideológica aos que impõem estas ideias através da força das armas e da violência nos Estados Unidos, na Palestina, na América Latina e em todos os cantos do mundo. Uma simples divisão de tarefas entre os exploradores e opressores do proletariado e dos povos oprimidos. Kirk era parte de uma máquina de guerra contra o povo dos Estados Unidos e contra todos os povos oprimidos do mundo, financiada por bilhões de dólares da burguesia imperialista dos EUA, e que hoje, com Trump no poder, maneja o Estado mais poderoso e mais armado do planeta para atingir seus objetivos fascistas.
Os democratas e seus aliados da “esquerda domesticada” tentam esconder esta verdadeira face de Charlie Kirk como o maior propagandista do fascismo junto à juventude, para tentar pintá-lo com as cores suaves do “jovem pacífico e pai de família”.
A política de “convivência democrática” com o fascismo trumpista, aplicada pelo Partido Democrata e seus apoiadores da “esquerda democrata”, do tipo de Bernie Sanders e Zohran Mandani, é responsável pela ascensão e fortalecimento do fascismo trumpista nos Estados Unidos. A política impotente dos democratas é sustentada pela colaboração e a conciliação de classes aplicada pela burocracia sindical e pelas direções que falam em nome da classe trabalhadora, da juventude e dos povos oprimidos, servindo como um laço no pescoço do proletariado, que o mantém atrelado, amarrado, imobilizado e condenado a assistir pacificamente a ascensão do fascismo nos Estados Unidos.
É neste vazio de direção política revolucionária que ecoa o tiro de Tyler Robinson, um jovem de 22 anos, que acreditou que desta forma poderia calar a voz do fascismo. O terrorismo individual sempre foi uma tentativa de solução para a crise de direção revolucionária do proletariado. Como dizia Lenin, o anarquismo é uma espécie de pagamento pelos pecados do reformismo.

A ação intempestiva do jovem Robinson, que retumbou em milhões de corações antifascistas por todo o mundo, é um tiro pela culatra. Ao contrário de fortalecer a luta contra o fascismo trumpista, apenas deu munição para Trump e seus acólitos avançarem com suas políticas de repressão sobre a juventude proletária. Ao mesmo tempo, deu argumentos para que faladores impotentes como Obama e Klein sigam manipulando e imobilizando a ação de massas do proletariado, único caminho para a derrota do fascismo trumpista nos Estados Unidos e no mundo.
O tiro de Robinson em Kirk é mais um abalo no combalido regime de democracia burguesa dos Estados Unidos, uma expressão do estado de pré-guerra civil em que se encontra o país mais poderoso do planeta, hoje o epicentro da revolução mundial.
Mas, enquanto a máquina de guerra fascista de Trump e Charlie Kirk se prepara conscientemente para esta guerra civil iminente, os democratas assistem de camarote a degradação da “democracia americana”. Limitando-se a fazer apelos patéticos e covardes do tipo de Thomas Friedman, outro jornalista liberal do The New York Times, que escreveu uma “carta” a Trump com o título “Faço um apelo ao presidente Donald Trump, diante de um país frágil e à beira do abismo”, na qual “suplica” a Trump para que “faça a paz em casa, entre os americanos”. Seria o mesmo que suplicar a Hitler para não deflagrar a 2ª Guerra Mundial ou a Netanyahu que ponha fim ao Holocausto do povo palestino.
A ação individual de Robinson, apesar de seu equívoco metodológico, é a prova viva do ímpeto revolucionário que cresce de forma avassaladora na juventude proletária estadunidense e de todos os países. Sobre esta base objetiva, será forjada a vanguarda revolucionária que há de varrer da face da Terra o capitalismo/imperialismo e seu filho pródigo, o fascismo.
Mas, para isso temos uma árdua tarefa no próximo período, a mais dura tarefa já enfrentada pela humanidade. Precisamos reconstruir a máquina de guerra do proletariado mundial, o Partido Mundial da Revolução Socialista, que agrupe de forma consciente, coletiva, organizada e disciplinada, a vanguarda do proletariado de todos os países para enfrentar e derrotar o imperialismo em sua fase de decadência mortal.


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