Como enfrentar os ataques imperialistas de Trump ao Brasil?

A Carta de Trump de 9 de julho anunciando uma tarifa de 50% sobre as exportações do Brasil aos Estados Unidos, e exigindo o fim imediato do processo contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, abalou as classes dominantes e os dirigentes políticos do país.

Em 15/7, Trump orientou o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos a fazer uma investigação sobre supostos “ataques do Brasil contra empresas americanas de mídia social, bem como outras práticas comerciais desleais que prejudicam empresas, trabalhadores, agricultores e inovadores tecnológicos dos EUA”.

Em 30/7, quando fechávamos este artigo, Trump baixou um decreto discriminando os setores e produtos que serão taxados em 50%, dos quais cerca de 700 pagarão taxas menores (suco de laranja, celulose, aviões etc.). Ao mesmo tempo, o decreto mantém as acusações ao governo Lula-Alckmin e ao STF de perseguição a Bolsonaro e de cerceamento das big techs.

“Fomos pegos de surpresa!”

Esta foi a reação da burguesia nacional diante da supertaxa de Trump, principalmente dos empresários dos setores exportadores.

Os exportadores de carne afirmaram que a medida é uma “ameaça à segurança alimentar global” e que “questões geopolíticas não devem se transformar em barreiras ao abastecimento global”. Os exportadores de suco de laranja, do qual o Brasil é o maior exportador global, manifestaram sua preocupação com os empregos nos Estados Unidos: “Entendemos que essa medida afeta não apenas o Brasil, mas toda a indústria de suco nos Estados Unidos, que emprega milhares de pessoas e tem o Brasil como principal fornecedor externo há décadas.” Os exportadores de café, que detém 30% do mercado de exportação do produto aos EUA, alertaram que “76% da população dos EUA bebe café, e quem vai ser onerado é o consumidor norte-americano.”

A burguesia industrial também fez suas lamúrias. O setor de calçados lamentou o “balde de água fria” que significa a tarifa de 50% para o país que é o principal destino das exportações brasileiras de calçados. Os empresários do setor têxtil manifestaram sua esperança no diálogo: “Medidas unilaterais e intempestivas não servem aos interesses dos brasileiros ou dos estadunidenses, que compartilham valores democráticos, forte intercâmbio comercial e cultural, e aspirações comuns de desenvolvimento econômico e social.” O setor químico afirma “não ver sentido econômico” na medida de Trump, porque “exportamos 4 bilhões de dólares e importamos 12 bilhões”. O representante da indústria de plásticos passou um pito em Lula, que, segundo ele, perdeu a oportunidade de se manter neutro na guerra comercial global: “Nós entramos em discussões que não deveríamos ter entrado e isso acaba tendo consequências como essas, que vão piorar ainda mais o ambiente de negócios no Brasil”. Os barões do aço, que já amargam uma taxa de 10% imposta por Trump, já mais escolados, amenizaram os impactos da medida, afirmando que seria possível burlá-la porque “empresas brasileiras têm fábricas em outros países e podem exportar aos EUA a partir destes territórios.”  Já a CNI (Confederação Nacional da Indústria) alertou que “os impactos dessas tarifas podem ser graves para a nossa indústria”, lembrando que “entre as principais economias do mundo, o Brasil é um dos poucos países com superávit a favor dos EUA”. E enalteceram a “parceria” histórica entre os dois países: “Brasil e Estados Unidos sustentam uma relação econômica robusta, estratégica e mutuamente benéfica alicerçada em 200 anos de parceria. Os EUA são o 3° principal parceiro comercial do Brasil e o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira”. A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), por sua vez, apelou ao “equilíbrio” e ao “bom senso”: “Esperamos que a diplomacia e as negociações equilibradas prevaleçam, a despeito de ideologias e preferências pessoais, e que o bom senso volte a nortear a relação entre essas duas grandes nações soberanas.”

Bolsonarismo acuado

Ninguém mais do que o jornal O Estado de São Paulo traduziu o estado de espírito da grande burguesia. Em Editorial de 9/7, intitulado “Coisa de mafiosos”, o Estadão, conhecido por seu histórico alinhamento político ao imperialismo estadunidense, esbravejou: “Que o Brasil não se vergue aos arreganhos de Trump.” O jornal manifestou apoio à reação inicial de Lula e atacou os bolsonaristas, em particular o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmando que “vestir o boné de Trump [Maga – Make America Great Again] hoje, significa alinhar-se a um troglodita que pode causar imensos danos à economia brasileira.”

Isto dá a dimensão do impacto sobre o bolsonarismo causado pelo ataque de Trump. O filho 03 de Bolsonaro, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, que se encontra “refugiado” nos Estados Unidos, defende abertamente as medidas de Trump e se gaba de tê-lo influenciado a atacar o Brasil. Enquanto isso, Tarcísio de Freitas está sendo cobrado pela alta burguesia (principalmente de São Paulo) para que “proteja as empresas paulistas”, as mais afetadas pelo tarifaço trumpista.

O ataque de Trump expõe a verdadeira essência do setor mais radical (raiz) do bolsonarismo: uma corrente que defende abertamente a submissão colonial do Brasil ao patrão ianque. Os setores burgueses da direita “republicana” (do tipo do Estadão) aproveitam esta situação para tentar desgarrar a ala mais pragmática do bolsonarismo, principalmente Tarcísio de Freitas, na tentativa de, finalmente, construir a saída eleitoral da 3ª via (a da direita “responsável”) contra o lulismo e o bolsonarismo, os dois blocos que dominam e dividem a política no país.        

A resposta de Lula

A surpresa da burguesia só foi superada pela do próprio governo Lula-Alckmin, que esperava resolver pacificamente a questão das tarifas nas mesas de negociações comerciais com os Estados Unidos, que estavam em curso desde que Trump impôs as primeiras taxas de 25% sobre o aço fabricado no Brasil, em março deste ano.

Embalado pela indignação que tomou conta da burguesia brasileira, Lula reagiu de forma imediata com uma Carta do governo enviada a Trump, afirmando que “O Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém.”

Do ponto de vista prático, em 14/7, o governo baixou um decreto regulamentando a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada em abril pelo Congresso Nacional em ampla unidade dos partidos da esquerda e da direita. A lei dá poderes ao governo para retaliar as medidas de Trump, por exemplo, impondo taxas sobre mercadorias importadas dos EUA. Em reuniões com empresários, o governo se comprometeu a não aplicar a lei antes de 1º de agosto, data em que entrariam em vigor as tarifas de Trump.

O Ministério da Fazenda está estudando medidas de socorro às empresas que serão afetadas pelo tarifaço. O governo brasileiro diz que “não abandonará a mesa de negociação”, mas até o momento em que escrevemos este artigo, o governo estadunidense não havia aceitado nenhuma reunião de alto escalão sobre o assunto.

Unidade nacional

O governo e a “esquerda oficial” (PT, PSOL e PCdoB) iniciaram uma ampla campanha nas redes sociais com motes patrióticos em defesa do Brasil. Os atos de 10 de julho, convocados pela Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo, que inicialmente tinham como eixo a denúncia do Centrão e do Congresso Nacional, mudaram para o novo eixo de defesa do Brasil contra Trump. 

Neste momento em que a direita bolsonarista está acuada pela dificuldade em defender os ataques de seu aliado Trump, Lula, Boulos e as principais lideranças da Frente Ampla buscam capitalizar politicamente o sentimento patriótico e utilizá-lo para recompor sua aliança com a burguesia nacional.

Os objetivos imperialistas de Trump

O ataque de Trump tem, resumidamente, dois objetivos imperialistas. O primeiro, “econômico”, é parte dos tarifaços impostos a inúmeros países por todo o mundo, visando restaurar a supremacia dos Estados Unidos sobre o comércio mundial e a primazia do dólar como moeda  de troca, garantir o monopólio das grandes corporações de tecnologia (big techs) ianques e fortalecer a sua indústria e economia nacional. Junto com a taxa de 50% sobre o Brasil, Trump deu uma nova escalada na sua política de tarifaços, anunciando novas taxas sobre o México, a União Europeia, Índia e outros países.

O segundo objetivo é “político”, a exigência de anistia a Bolsonaro é parte da política de Trump de fortalecimento dos governos, partidos e lideranças da ultradireita pró-fascista e pró-imperialista em todo o mundo, em particular na América Latina. Recentemente, o secretário de Defesa de Trump, Peter Hegseth, afirmou referindo-se ao continente latinoamericano: “Vamos recuperar o nosso quintal”.   

Para o imperialismo é essencial garantir e aprofundar a dominação colonialista (econômica, política e militar) sobre os países da América Latina, revivendo a “Doutrina Monroe”, do século XIX (A América para os americanos). Com este objetivo, Trump atua para fortalecer políticos como Javier Milei, presidente da Argentina, e Nayib Bukele, presidente de El Salvador, verdadeiros fantoches de Trump e do imperialismo, do mesmo tipo de Bolsonaro, que já chegou a bater continência para a bandeira dos Estados Unidos. E não estão dispostos a tolerar nem sequer desafios verbais à sua dominação, como fazem dirigentes políticos da esquerda reformista do tipo de Lula, Gustavo Petro (Colômbia), Gabriel Boric (Chile) e outros.  

Uma das primeiras medidas de Trump ao reassumir a presidência foi ameaçar retomar o Canal do Panamá, pressionando pela venda para empresas estadunidenses dos portos estratégicos do canal, hoje em mãos da CK Hutchison Holdings Limited, multinacional com sede em Hong Kong. Em janeiro deste ano, quando o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, tentou recusar o pouso de aviões com imigrantes deportados dos Estados Unidos, Trump obrigou-o a recuar, utilizando como arma tarifas contra a Colômbia.       

Brasil, país soberano?

Lula afirma que o Brasil é um “país soberano e independente”. Será mesmo?

O Brasil conquistou sua independência política de Portugal em 7 de setembro de 1822, constituindo-se, desde então, como um estado nacional controlado pela burguesia nacional. A isso se resume a tal soberania e independência do país. Será isso suficiente para enfrentar as investidas imperialistas de Trump?

Toda trabalhadora e trabalhador sabe que o fator decisivo para qualquer tipo de “independência” é a independência econômica. E aí começam os problemas para o Brasil.

O Brasil é dominado pelo capital estrangeiro imperialista, principalmente dos Estados Unidos, que controla cerca de 2/3 da economia brasileira, desde as principais indústrias, o agronegócio, os bancos e as empresas de tecnologia e internet. Os setores econômicos que ainda permanecem sob propriedade de capitalistas nacionais são associados e totalmente dependentes de seus sócios imperialistas. A burguesia nacional não passa de uma sócia minoritária e subordinada aos grandes monopólios e ao capital financeiro imperialistas. Os setores econômicos sob controle estatal estão sendo sucateados e privatizados, a exemplo dos Correios e dos Metrôs de São Paulo e Belo Horizonte. Metade da Petrobrás já está em  mãos de capitais estrangeiros.

A dependência financeira do Brasil ao imperialismo se expressa através da enorme Dívida Pública Federal com os banqueiros e agiotas (grande parte deles estrangeiros). De acordo com dados da Auditoria Cidadã da Dívida, esta dívida atingiu os seguintes valores, em dezembro de 2024:

  • Dívida Interna Federal: R$ 9.484.392.067.990,04 (9 trilhões, 484 bilhões, 392 milhões, 67 mil e 990 reais)
  • Dívida Externa: US$ 616.989.102.609,48 (616 bilhões, 989 milhões, 102 mil e 609 dólares)

Estes valores equivalem ao PIB do país, que é de R$ 11,1 trilhões

Esta realidade evidencia que o Brasil não tem independência econômica, é um país dependente, uma semicolônia do imperialismo. Por isso, não é possível falar seriamente em “soberania” diante dos ataques de Trump, como afirma Lula.

A política de Lula, Boulos e da Frente Ampla de se associar aos BRICS é apresentada como uma alternativa ao imperialismo estadunidense. Porém, na melhor das hipóteses, isto seria trocar a dependência econômica aos Estados Unidos pela mesma dependência semicolonial em relação à China. Dizemos na melhor hipótese porque o BRICS está muito longe de ser um verdadeiro bloco econômico, menos ainda uma alternativa consistente de enfrentamento ao imperialismo ianque, europeu e japonês.

A reunião esvaziada, realizada no Brasil em 6 e 7 de julho passados, sem a presença de Xi-Jinping e de Putin, os líderes da China e da Rússia, as duas potências imperialistas que sustentam o bloco, é uma demonstração da falta de consistência do BRICS, sobretudo nesta nova etapa imperialista em que os Estados Unidos usarão todas as suas armas para retomar de forma plena e absoluta o seu “quintal” latinoamericano, do qual o Brasil é o maior território sob seu domínio. 

Brasil, país independente?

A história política do Brasil é marcada pela interferência direta e indireta dos Estados Unidos para garantir seus interesses econômicos e geopolíticos. Citemos alguns exemplos marcantes desde a segunda metade do século passado.

O Golpe Militar de 1964 foi patrocinado diretamente pelos Estados Unidos, em aliança com a burguesia nacional e a cúpula militar, sendo parte da política ianque daquela conjuntura de impulsionar ditaduras militares em toda a América Latina; da mesma forma, a “redemocratização”, que culminou com a queda da ditadura militar em 1984, foi também impulsionada pela política de “democratização” dos regimes dos países da América Latina, impulsionada pelo governo do presidente estadunidense Jimmy Carter.

Nos anos 1990, a política econômica neoliberal, cunhada de “Doutrina Reagan”, propagada a partir do governo ianque de Ronald Reagan (e de sua parceira britânica Margareth Thatcher), aprofundou a dependência colonial da América Latina, sendo aplicada no Brasil pelos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), perdurando até hoje como um pilar da política econômica dos governos tanto da “direita” como da “esquerda”.

De 2004 a 2017, sob os governos da frente popular de Lula e Dilma Roussef, o Brasil, a pedido dos Estados Unidos, comandou a MINUSTAH – Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, uma força militar de intervenção para garantir a dominação imperialista naquele país, responsável pela chacina no bairro popular Le Soleil e por estupros de jovens haitianas, entre outras atrocidades. À frente da força militar brasileira no Haiti, se destacaram alguns futuros líderes do bolsonarismo, como o general Augusto Heleno e Tarcísio de Freitas, ex-capitão do Exército.

Este breve panorama da história recente evidencia que a fala de Lula de que o Brasil é um “país com instituições independentes” não se enquadra nos fatos.    

A burguesia nacional é incapaz de enfrentar o imperialismo

A realidade da economia e da política nacional, brevemente descrita acima, torna patente que a burguesia brasileira, sócia minoritária e subordinada ao imperialismo, é totalmente incapaz de qualquer resistência séria aos ataques de Trump.

Antes de mais nada, é preciso destacar que o bolsonarismo, com sua submissão abjeta a Trump, revela plenamente seu caráter de 5ª coluna do imperialismo dentro da nação. Mas, o bolsonarismo não plana no vazio. Ele tem suas bases sociais, em primeiro lugar, na esquálida burguesia brasileira, totalmente curvada ao capital imperialista. Os empresários abertamente bolsonaristas são tão somente a facção mais resoluta da burguesia disposta a entregar o que resta do Brasil ao imperialismo estadunidense, submetendo-se totalmente às chantagens de Trump. Em segundo lugar, o bolsonarismo se apoia nos amplos setores da pequena burguesia e da classe média que acreditam que sua sobrevivência como classes sociais privilegiadas passa pela subordinação incondicional ao “grande irmão do Norte”. E, por último, desgraçadamente, encontra apoio nas camadas do proletariado mais corrompidas e dominadas pelas ideologias conservadoras e liberais.

Contudo, não se pode esperar nada melhor dos setores da burguesia que se proclamam “republicanos” e “democráticos”, a exemplo do seu porta voz, o jornal O Estado de São Paulo, ou de Josué Gomes da Silva, presidente da FIESP. A declaração da FIESP expressa os limites da “resistência” desta facção da burguesia a Trump: “Esperamos que a diplomacia e as negociações equilibradas prevaleçam, a despeito de ideologias e preferências pessoais, e que o bom senso volte a nortear a relação entre essas duas grandes nações soberanas.” O próprio jornal Estadão, passados os arroubos nacionalistas de seus editoriais que sucederam a 1ª carta de Trump, já aponta a necessidade de que o Brasil siga se subordinando ao “bloco de poder” dos Estados Unidos, em contraposição ao do BRICS: “Tudo isso só evidencia a imprudência do presidente Lula da Silva de alinhar o Brasil à China e à Rússia a pretexto de fortalecer o Brics contra os EUA de Trump. A única forma de poupar o Brasil dos efeitos deletérios dessa decisão seria abandonar esse bloco, que se presta unicamente aos projetos chineses e russos, sem qualquer ganho concreto e de longo prazo para o País. Com isso, o Brasil retornaria ao terreno seguro do não alinhamento, onde ficam os países com vocação para se relacionar com o mundo inteiro, independentemente de orientação ideológica. Essa sempre foi a tradição brasileira, um patrimônio que seria especialmente relevante no momento em que o mundo se reorganiza não mais em relações multilaterais, e sim em blocos de poder.” (Editorial de 21/7/2025, Brasil paga a conta da imprudência de Lula).

Ou seja, as diferentes facções da burguesia só vêem a “salvação” do Brasil se permanecer subordinado e alinhado ao “bloco de poder” do imperialismo ianque, ou, em outras palavras, se o país se consolar em seguir sendo parte do “quintal” econômico, político e militar dos Estados Unidos. Por isso, depositam todas as suas esperanças no “bom senso” e nas negociações diplomáticas e comerciais, nas quais os Estados Unidos são o lobo e o Brasil é o cordeiro.

Patrões querem jogar o tarifaço de Trump nas costas da classe trabalhadora

Diante da ofensiva do imperialismo ianque, a servil burguesia nacional fará o que sempre fez ao longo de sua abjeta história: intensificar os ataques à classe trabalhadora e ao povo pobre e oprimido. Esta é a explicação para os novos ataques que estão sendo “cozinhados” no Congresso patronal e corrupto, que visam congelar o Salário Mínimo e desvinculá-lo das aposentadorias e benefícios trabalhistas e sociais (BPC, acidentes de trabalho, licenças médicas, seguro desemprego etc.); a Reforma Administrativa que visa acabar com o que resta da estabilidade do Funcionalismo Público,  aprofundando o desmonte das leis trabalhistas que impõem limites à plena exploração da força de trabalho; cortar ainda mais os recursos públicos da Saúde, Educação, Moradia, Assistência Social e demais Serviços Sociais.

Uma pequena amostra disso foi que, no dia 16/7, o Senado aprovou um projeto de lei que desvia R$ 30 bilhões do Fundo Social para refinanciar dívidas de empresários do agronegócio. Criado em 2010, o Fundo Social é abastecido com recursos oriundos da exploração do pré-sal, com destinação obrigatória para áreas como educação, saúde, meio ambiente e desenvolvimento regional e social.

Este caráter visceralmente subordinado e servil ao imperialismo de toda a burguesia nacional torna patente que esta classe de parasitas não é aliada da classe trabalhadora e do povo explorado e oprimido para enfrentar os ataques de Trump. Pelo contrário, para garantir seu quinhão na exploração da força de trabalho e das riquezas nacionais, os patrões vão atacar ainda mais os nossos salários e direitos, jogando nas costas do povo trabalhador as tarifas de 50% e outras medidas a serem impostas por Trump.

A política de Lula e Boulos de unidade com a burguesia é um beco sem saída

Os ataques imperialistas de Trump colocam em cheque a política de aliança e colaboração com a burguesia do governo Lula-Alckmin. Lula, Boulos e a maioria das direções políticas da classe trabalhadora e do povo oprimido, agrupadas na Frente Brasil Popular e na Frente Povo Sem Medo, sustentam que não é possível governar sem se aliar a políticos burgueses “democráticos”, como Alckmin, e a patrões “progressistas”, como Josué Gomes, da FIESP. Para manter a “governabilidade”, enfiaram no governo Lula-Alckmin quase todos os partidos patronais, inclusive do Centrão e do bolsonarismo. Adulam o Congresso Nacional corrupto com as tais “emendas parlamentares”, que destinam mais de 50 bilhões de reais para os deputados e senadores manterem seus “currais eleitorais”. E vivem de conchavos com todo tipo de políticos e governos nos estados e municípios.

Desde o início de seu governo, Lula vem cedendo à pressão da burguesia para impor ataques à classe trabalhadora. Em 2023, criou o “Arcabouço Fiscal”, que impõe cortes aos gastos sociais do governo. No ano passado, o governo aprovou medidas que arrocham o Salário Mínimo, que agora só pode ser reajustado no máximo 2,5% acima da inflação, e diminuiu o número de trabalhadores com acesso ao Abono Salarial PIS/PASEP (que era pago a todos que ganhavam até 2 salários mínimos e será reduzido nos próximos anos para que só receba o abono quem ganha até 1,5 salário mínimo). O governo vem dificultando e atrasando o pagamento pelo INSS de aposentadorias, licenças por acidentes de trabalho e outros benefícios, além de ter prejudicado muitas famílias pobres com os “pentes finos” que cortaram benefícios como o Bolsa Família e o BPC. 

E qual é o resultado de todas estas concessões aos patrões? A ganância patronal não tem limites, e, como vimos, a maioria patronal e bolsonarista do Congresso quer aprofundar os ataques às nossas condições de vida e de trabalho. Quer descarregar sobre as costas da classe trabalhadora os custos de suas negociações submissas com Trump. 

Para enfrentar o imperialismo de Trump é preciso enfrentar e romper com a burguesia

Esta realidade deixa evidente que a política de aliança e colaboração com a burguesia é um beco sem saída para a classe trabalhadora. Os ataques de Trump colocam na encruzilhada esta política da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo, defendida por Lula, Boulos, pelo PT, PSOL e PCdoB e pela maioria das direções do movimento sindical, popular, camponês, estudantil e de luta contra a opressão. Não há como defender as condições de vida e de trabalho do povo trabalhador sem enfrentar e romper com a burguesia. Não há como defender o Brasil do imperialismo sem enfrentar a burguesia.

Só a proletariado pode encabeçar de forma consequente a resistência aos ataques imperialistas de Trump, e, desta forma, atrair para a luta e se unificar com os setores progressistas da pequena burguesia e da classe média. Mas, para isso, é preciso que Lula, Boulos e as organizações que conformam a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo, que hoje têm o apoio da maioria dos setores mais conscientes do povo trabalhador e oprimido, e que dirigem a maioria das organizações do proletariado e do campesinato, rompam suas alianças políticas e sua colaboração de classes com a burguesia.

Lula e Boulos denunciam o Centrão como inimigo do povo, mas mantém no governo os ministros do Centrão e da direita. É preciso expulsar do governo os ministros do Centrão e da burguesia. Fora os ministros burgueses! Que Lula governe sem patrões!

Quando se viram acuados pelo Congresso bolsonarista, patronal e corrupto, Lula e Boulos chamaram a mobilização do povo nas ruas. É preciso formar um governo com as organizações de luta do povo trabalhador e oprimido (sindicatos, movimentos e coletivos), apoiado na mobilização permanente do povo nas ruas para a defesa dos salários, empregos, terra e direitos trabalhistas, sociais e democráticos. É preciso avançar no caminho de um Governo da Classe Trabalhadora, Sem Patrões.

Construir a unidade antimperialista latino-americana e internacional para resistir aos ataques de Trump

O enfrentamento ao imperialismo é a tarefa mais urgente e decisiva de todas as nações e povos explorados e oprimidos. O capitalismo, em sua agonia mortal, aterroriza a humanidade com guerras genocidas, cujo maior exemplo é a que Israel está fazendo contra o Povo Palestino na Faixa de Gaza; com o crescimento vertiginoso da produção de armas, em detrimento da produção das necessidades básicas da vida; com o aumento a níveis nunca vistos da miséria, fome, desemprego, doenças e da matança em todos os lugares do mundo; a exploração predatória dos recursos do planeta com o único objetivo de obter lucros está levando à catástrofe ambiental. Tudo isso para manter a riqueza e as propriedades particulares de um punhado de ricaços capitalistas e seus políticos e juízes corruptos. Estas são as bases da política de Trump, que busca, a qualquer custo, reverter a decadência do imperialismo dos Estados Unidos.

Como já destacamos, os povos latinoamericanos sempre foram tratados como escravos provedores de mão de obra barata e de riquezas naturais ao grande império estadunidense. A dependência semicolonial de todas as nações da América Latina é uma necessidade vital para a burguesia estadunidense. A luta pela verdadeira independência nacional é uma luta de vida ou morte para os povos latinoamericanos e todos os povos do mundo.

Esta luta não será feita através de bravatas nacionalistas nas redes sociais ou de cartas assinadas em conjunto com a burguesia “democrática”. Ela só pode ser levada de forma consequente através da conscientização e da mobilização antimperialista do proletariado, trazendo consigo os setores progressistas da pequena burguesia e da classe média. Ela só pode ser levada através de medidas concretas de enfrentamento econômico, político e militar ao imperialismo de todas as cores, e aos Estados Unidos, em particular.

Esta luta tampouco pode ser efetiva se for travada de forma isolada por cada povo, em cada país. É preciso forjar a unidade de todos os povos do mundo na luta contra o imperialismo. A unidade dos povos da América Latina para enfrentar os ataques imperialistas de Trump é uma necessidade urgente e imediata.

Um Programa para a luta da classe trabalhadora na atual conjuntura

Em defesa do Brasil e do povo trabalhador

SALÁRIO, EMPREGO, DIREITOS, TERRA, LIBERDADE E INDEPENDÊNCIA

SALÁRIO: Salário Mínimo de 2500 reais já!

EMPREGO: Fim da Escala 6×1. Redução da Jornada para 36h. Plano de Obras Públicas para investimentos na Saúde, Moradia Popular, Assistência Social e Educação.

DIREITOS: Nenhum direito a menos. Anulação das Reformas Trabalhista, da Previdência e da Terceirização. Restauração dos Direitos Trabalhistas e Previdenciários da CLT e da Constituição de 1988 para toda a classe trabalhadora, inclusive precarizados e imigrantes.

TERRA: dar a terra para quem nela vive e trabalha. Contra o latifúndio no campo e na cidade! Reforma Agrária e regularização da posse da terra a todas as comunidades urbanas e rurais, favelados, quilombolas e indígenas. Contra o financiamento estatal aos bilionários do agronegócio de exportação. Prioridade total aos pequenos e médios produtores de alimentos para o povo.

LIBERDADE: garantia e ampliação das liberdades democráticas: direito ao aborto; à liberdade de expressão e organização nas ruas, escolas e empresas; direitos políticos e sindicais para os soldados e praças; criminalização do racismo, machismo e LGBTfobia; direito do povo oprimido à autodefesa contra a repressão policial e das milícias e jagunços.

INDEPENDÊNCIA NACIONAL: Defesa do Brasil contra o imperialismo de Trump! Nacionalização e estatização, sob controle dos trabalhadores, das empresas de capital estadunidense e empresas vitais para a infraestrutura econômica nacional. Petrobras 100% nacional. Suspensão do pagamento da dívida pública aos banqueiros e aplicação dos recursos nos Serviços Públicos essenciais para o povo. Unidade latino-americana para enfrentar os ataques de Trump! Ruptura de relações com Israel já! 

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