Breve cronologia dos fatos
Desde o seu surgimento, no final de 2023, o Movimento VAT tem sido uma expressão importante na luta contra a escala 6×1 e em defesa dos direitos dos trabalhadores. Criado por Rick Azevedo, um jovem trabalhador negro, o movimento rapidamente se espalhou nas redes sociais e se tornou uma alternativa para muitas/os trabalhadoras/es precarizados, especialmente as/os jovens, que estavam distantes das estruturas organizadas tradicionais, como os sindicatos e partidos políticos.
O VAT, através das redes sociais, organizou centenas de trabalhadoras/es em todo o país. E se tornou um polo de unidade aberto a várias organizações e ativistas socialistas que se somaram à luta pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho, a exemplo da OCI (Organização Comunista Internacionalista e do GOI), da CSP-Conlutas e ativistas independentes.
Em setembro de 2024, Rick Azevedo e a Coordenação Nacional do VAT decidiram expulsar do movimento as organizações socialistas e centenas de membros que propunham uma maior democracia no interior do VAT e a organização de comitês de base do movimento. Contra estas propostas, Rick Azevedo acionou a Justiça contra a OCI, acusando-a de “uso indevido do nome, marca e identidade do movimento VAT, bem como na tentativa de apropriação indevida de sua liderança e propósito”, e decidiu patentear a sigla VAT no INPI (Instituto Nacional de Patentes Industriais) como sua propriedade particular.
Em resposta, cerca de 200 membros expulsos escreveram uma Carta aberta à Coordenação Nacional do VAT, onde se lê: “Alguns de nós apenas criticaram a falta de um debate interno a respeito da candidatura do Rick, a falta de clareza quanto ao que defendemos no lugar da escala 6×1 e sugeriram que houvesse uma maior democracia interna, criando estruturas democráticas para a escolha de coordenadores nacionais e representantes estaduais (algo básico para qualquer movimento de trabalhadores). Muitos foram excluídos dos grupos apenas por questionar a exclusão de outros membros e outros se solidarizaram com a situação. O fato é que fomos excluídos por pensar diferente e expormos nossas críticas abertamente. Além disso, entendemos como problemática a tentativa de patentear o movimento, que cresceu e já há muito não tem na figura do Rick a sua única representação. Precisamos entender que essa luta é coletiva, é a luta orgânica de todos os trabalhadores, não apenas de uma única pessoa, centrada exclusivamente na figura do Rick.”
Após as expulsões, Rick e a coordenação nacional do VAT imprimem uma política de aproximação do movimento com o PSOL, através de duas medidas principais: a candidatura de Rick a vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro, e a parceria com a deputada federal Érika Hilton na apresentação de um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) propondo o fim da escala 6×1, a redução da jornada para 36 horas e a implantação da escala 4×3. Neste momento, a Petição Online do VAT em defesa do fim da escala 6×1 já atingia quase 3 milhões de assinaturas.
Nas eleições municipais de outubro de 2024, Rick foi eleito vereador com 29.364 votos, com uma campanha feita nos locais de trabalho, centrada na defesa do fim da escala 6×1. Em 25 de fevereiro de 2025, a PEC de Érika Hilton foi protocolada na Câmara Federal com a assinatura de 234 deputados/as.
Na preparação do 1º de Maio deste ano, o VAT fez um chamado à classe trabalhadora para fazer manifestações e paralisações no dia 1 e 2 de maio, como meio para fazer avançar a PEC no Congresso. A quase totalidade dos atos de 1M no país adotou o Fim da escala 6×1 como principal bandeira.
Após o 1M, Rick e a cúpula do VAT promovem uma nova rodada de expulsões, agora atingindo Priscila, membro da Coordenação Nacional e uma das principais lideranças do movimento, acusada de incompatibilidade com os princípios do movimento. Em solidariedade a Priscila, a maioria dos membros da coordenação do VAT de São Paulo se retirou da coordenação do movimento.
Chamado à reflexão dos ativistas do VAT:
Como lidar com as diferenças políticas no interior do movimento?
A diversidade de opiniões e estratégias é natural em qualquer movimento, mas é importante refletir sobre como as divergências foram tratadas até agora dentro do VAT. As expulsões de setembro de 2024 e de maio de 2025 mostram que o método das expulsões para resolver diferenças políticas está se tornando recorrente no VAT. Este método é característico da burocracia sindical e dos partidos comunistas estalinistas, que não toleram nenhum tipo de questionamento às decisões da cúpula e dos “grandes líderes”.
Contra este método burocrático, a democracia proletária busca garantir a pluralidade de vozes dentro dos movimentos da classe trabalhadora, para que as propostas sejam apresentadas e votadas livremente, as minorias sejam respeitadas e ouvidas e as decisões da maioria sejam aplicadas por todos.
Como construir a unidade para a luta?
Antes das expulsões, o VAT estava se construindo como um movimento de frente única, um espaço de unidade para onde confluíam as trabalhadoras/es, ativistas e organizações sindicais (ex: CSP-Conlutas) e políticas (ex: OCI) que estão na luta pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho. Com as expulsões, o VAT vai deixando de ser este espaço de unidade para a organização da luta.
O VAT se fortaleceu ou enfraqueceu com as expulsões?
O método de expulsar quem tem diferenças políticas está enfraquecendo o VAT como organização para a luta pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho. A expulsão de dezenas de lideranças que estiveram construindo o VAT desde o começo é uma perda significativa para o movimento. A centralização das decisões e a falta de diálogo prejudicam a construção coletiva, que é essencial para qualquer luta.
Para onde vai o VAT?
Apesar de estar sendo enfraquecido pelos métodos equivocados de sua direção, o VAT segue reunindo centenas de ativistas de luta por todo o país e sendo a principal referência de conscientização e luta para grande parte da classe trabalhadora explorada na escala 6×1.
Chamamos as/os ativistas organizados no VAT a refletirem sobre as questões aqui abordadas, a nosso ver muito importantes para o futuro do VAT e a continuidade da nossa luta.
O GOI-Palavra Operária segue chamando a unidade do VAT e de todas as organizações e ativistas que lutam pelo Fim da Escala 6×1, pela Redução da Jornada para 36h e demais reivindicações da classe trabalhadora. Esta unidade é decisiva para mobilizar a classe trabalhadora e para pressionar as direções dos sindicatos e centrais sindicais para sair do imobilismo e da conciliação com os patrões e mobilizar suas bases para a luta de classes.


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