Nota do GOI-Palavra Operária
“Estamos ficando sem palavras para descrever a miséria e a tragédia que afligem o povo de Gaza”, afirmou em entrevista à BBC, Philippe Lazzarini, Comissário Geral da Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras para Refugiados da Palestina no Oriente Próximo. Esta frase, proferida por um representante da ONU, a organização mundial do imperialismo que, em 1948, legitimou a criação do Estado de Israel, expressa a completa impotência dos setores “democráticos” do imperialismo diante do genocídio promovido por Israel contra o povo palestino.
Não é apenas Lazzarini que está “ficando sem palavras”. Que palavras mais podem ser ditas ou escritas para descrever a catástrofe em Gaza? Que imagens mais devem ser expostas para mostrar a destruição de um país e o massacre de todo um povo? Que fatos mais precisam ser citados para provar o caráter racista, imperialista e genocida do Estado de Israel, caráter este apoiado pela esmagadora maioria do povo israelense?
A Nova Nakba do século XXI se desenvolve sob nossos olhos. Na Primeira Nakba, em 1948, o povo palestino começou a ser expulso de suas terras através do terror promovido pelas milícias sionistas, armadas pelo imperialismo estadunidense, britânico e francês, sob a complacência da União Soviética de Stalin e dos governos burgueses das nações árabes.
Desde então, a Catástrofe do Povo Palestino nunca teve fim. Vivendo em condições sub-humanas, em parcelas minúsculas do território da Palestina – a Faixa de Gaza e a Cisjordânia – transformadas por Israel em campos de concentração a céu aberto. Ou tratados como cidadãos de segunda classe dentro de Israel e em campos de refugiados na Jordânia, Líbano, Síria e países vizinhos.
Com a Nova Nakba promovida por Israel na Faixa de Gaza, o Estado sionista retoma a expulsão em massa do povo palestino, com o objetivo de tomar posse de toda a Palestina. Está em marcha o plano anunciado por Trump e Netanyahu de colonização sionista da Faixa de Gaza, a “Riviera do Oriente Médio”. As incursões militares e a colonização sionista avançam também sobre a Cisjordânia.
As falsas esperanças na política dos Dois Estados, Israel e Palestina, convivendo pacificamente lado a lado, estão enterradas junto aos escombros e os mortos na Faixa de Gaza. A História, com sua frívola crueldade, vem provar que não há outra solução para a libertação do povo palestino que não seja a completa destruição do Estado racista de Israel.
A realização desta tarefa está indissoluvelmente ligada à luta contra o imperialismo mundial. O enclave sionista de Israel não sobreviveria um dia sequer sem o suporte político, econômico e militar fornecido diretamente pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e toda a União Europeia, Canadá e Japão, os cúmplices diretos da Catástrofe. Nem tampouco esta aliança imperialista-sionista sobreviveria sem a complacência e a cumplicidade das nações imperialistas em ascensão, a China e a Rússia, que tão somente buscam tirar vantagens econômicas e geopolíticas dos conflitos no Oriente Médio. Sem o apoio direto e tácito destes países imperialistas, Israel não teria condições de promover o genocídio.
Perfilados ao lado do imperialismo estão, em primeiro plano, os governos burgueses dos países árabes, reunidos na impotente Liga Árabe, totalmente subservientes ao imperialismo, que exploram e oprimem de forma bárbara seus próprios povos. A começar pelas dinastias reacionárias da Arábia Saudita, Barém, Catar, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Marrocos e Omã. Seguidas pelos governos republicanos autoritários do Egito, Turquia, Argélia, Síria, Irã, Iraque, Líbano, Líbia, Somália, Sudão, Iêmen, Mauritânia. Seja sob a forma de monarquias ou repúblicas (inclusive islâmicas), todos estes governos são cúmplices diretos ou indiretos da Catástrofe Palestina.
A apodrecida elite clerical do Irã, que vem sufocando em sangue as rebeliões do povo iraniano, apesar de ter reagido pontual e timidamente às provocações de Israel contra seu território, anseia desesperadamente por um aceno de Trump que possa abrir caminho a um acordo que reintegre plenamente o país ao comércio imperialista. O mais novo sócio do imperialismo é o governo de Ahmed al-Shara’a, na Síria, que mantém a mesma política de convivência com o sionismo do ex-ditador Bashar al-Assad, e acaba de fechar um acordo de submissão colonial aos Estados Unidos de Trump, sob o patrocínio das dinastias reacionárias da Arábia Saudita e do Catar.
Estes governos membros da Liga Árabe se limitam a condenar, através de “declarações oficiais”, o genocídio feito por Israel, com o único objetivo de encobrir com palavras a sua subserviência ao imperialismo e ao sionismo, com medo de que sua traição seja desmascarada diante de seus próprios povos.
O nacionalismo burguês pan-arabista, no seu apogeu, levou a enfrentamentos com o imperialismo e o Estado sionista, como a nacionalização do Canal de Suez, por Gamal Abdel Nasser, em 1956, ou a Guerra do Yom Kippur, do Egito e da Síria contra Israel, em 1973. Porém, desde então, o nacionalismo pan-arabista degenerou em ditaduras bonapartistas como a dos generais corruptos do Egito e a de Saddam Hussein, no Iraque, e autocracias como a de Muammar Gaddafi, na Líbia, e Ben Ali, na Tunísia, todos alinhados então com a política da “Guerra Fria”, quer dizer, a política de coexistência pacífica com o imperialismo, praticada pela URSS stalinista até a sua queda em 1991. Estes regimes foram derrubados ou feridos de morte com a primeira onda da Primavera Árabe, entre 2011 e 2016. Os últimos restos do degenerado nacionalismo burguês pan-arabista foram enterrados junto com a queda do regime sírio do carniceiro Bashar al-Assad.
O último elo da cadeia de sustentação do Estado sionista encontra-se nas degeneradas direções reformistas e burocráticas do movimento operário e de massas. A social-democracia europeia, desde a criação do Estado de Israel, é um suporte cínico e direto do sionismo. A “esquerda domesticada” latino-americana, do tipo do PT e Lula, no Brasil, ou Gustavo Petro, na Colômbia, ou o finado “Pepe” Mujica, no Uruguai, se consola mutuamente com declarações verborrágicas de condenação ao genocídio, mas são incapazes de romper os acordos econômicos, militares, acadêmicos e políticos que mantêm seus países solidamente amarrados ao sionismo e ao imperialismo. E coroam sua política covarde e impotente com a prédica da solução da criação de Dois Estados, velha fórmula pacifista enterrada pelo genocídio em curso na Palestina.
Desta confraria da Frente Popular, destaca-se a Al Fatah, de Mahmoud Abbas (Abu Mazen), o chefe da Autoridade Palestina, que degenerou numa burocracia corrupta que se presta hoje a ser os “cães de guarda” de Israel contra seu próprio povo palestino. Seu mais recente crime é a imposição do terror sobre a população palestina da Cisjordânia, com o objetivo de evitar a explosão de uma nova Intifada que vá em socorro de seus irmãos da Faixa de Gaza.
Diante da falência do nacionalismo burguês pan-arabista e das direções traidoras do movimento operário e de massas, a luta pela libertação do povo palestino se encontra hoje totalmente nas mãos do proletariado mundial e dos povos oprimidos e colonizados. Em primeiro lugar, dos povos árabes e muçulmanos, que preparam, nos subterrâneos da luta de classes, uma nova Primavera Árabe, que acabará por derrubar os regimes burgueses do Oriente Médio e Norte da África que dão suporte ao genocídio.
Nos países árabes e muçulmanos, a bandeira da luta anti imperialista e antissionista, desde sempre levantada pelas organizações marxistas, se encontra hoje nas mãos das milícias da resistência, cujas maiores expressões são o Hamas, na Palestina, o Hezbollah, no Líbano, os Houthis, no Iêmen, e as milícias no Iraque e do povo Curdo, todas elas enfrentadas aos governos títeres em seus países. Estes agrupamentos, de caráter social pequeno-burguês e burguês, são expressão da sobrevivência do nacionalismo árabe e muçulmano como resistência à recolonização imperialista do Oriente Médio e Norte da África. Contudo, seu programa nacionalista burguês, combinado com o fundamentalismo islâmico, impõe limites à sua luta contra o imperialismo e os regimes das burguesias árabes.
Desgraçadamente, as organizações que se reivindicam do marxismo revolucionário, notadamente as de origem trotskista, seguem sendo bastante marginais no Oriente Médio. Uma das maiores demonstrações da profundidade da crise de direção revolucionária do proletariado mundial.
A guerra de extermínio étnico promovida por Israel e o imperialismo na Faixa de Gaza é a expressão mais acabada da fase terminal do imperialismo em que estamos entrando. É a demonstração de até onde estão dispostos a ir, e dos crimes que estão prontos a cometer, o imperialismo e as burguesias nacionais, para defender o sistema capitalista. É um exemplo macabro que querem dar a todos os povos colonizados e ao proletariado mundial, que se levanta em massas a cada dia maiores na luta contra a exploração e a opressão capitalista.
Gaza é hoje o “teatro de operações” em que são testadas as novas tecnologias e armas de guerra (com destaque para a tão aclamada “Inteligência Artificial”) das grandes corporações imperialistas, conectando as forças destrutivas das “big techs”, do tipo Google, Meta, X, Nvidia etc., com as fabricantes de armas, aeronaves e sistemas de defesa, do tipo da Boeing e Lockheed Martin. O investimento nas forças destrutivas de guerra é o caminho pelo qual o imperialismo busca sair de sua crise terminal, empurrando a humanidade mais uma vez em direção ao abismo de uma nova guerra mundial. O povo palestino, encurralado nos labirintos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, é usado como cobaia destes experimentos mortais.
Porém, da terra arrasada de Gaza, do sangue e das lágrimas do inominável sofrimento de um povo escravizado, brota incessantemente também a Resistência Heroica do Povo Palestino, da qual surgem as novas gerações de lutadores e lutadoras que erguerão, no próximo período, a alturas superiores, a luta antimperialista e antissionista.
A solidariedade mundial do proletariado e dos povos oprimidos à resistência do povo palestino eleva a consciência antimperialista e antissionista, combinando-se com as experiências cotidianas de exploração e opressão do jovem proletariado, que forjará uma nova direção revolucionária para retomar, num patamar superior, a luta pela revolução socialista internacional.
A resistência do povo palestino é hoje a vanguarda da luta de classes internacional do proletariado.
[Imagem: @allampada]


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