Nota do GOI sobre o tiro em Aprígio (publicada em 25/10/2024)

O tiro dado no prefeito e candidato à reeleição Aprígio (Podemos), de Taboão da Serra/SP, é mais uma mostra da decadência do regime político da democracia dos ricos em nosso país. A primeira pergunta que deixa no ar é: tragédia ou farsa?

A disputa entre as máfias empresariais e políticas que controlam o poder econômico e político se dá em geral de forma pacífica, onde a força de cada grupo é medida pela quantidade de capital e postos no Estado que manipulam para eleger seus candidatos. As campanhas eleitorais estão cada vez mais caras e vence quem tem mais poder e mais dinheiro. Contudo, esta disputa entre as frações da burguesia vem passando cada vez mais do terreno pacífico das eleições para o conflito armado. O acontecimento em Taboão segue na mesma direção do que vem ocorrendo em outros municípios em todo o país.

O Grupo de Investigação Eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Giel/Unirio) identificou 338 casos de violência política registrados no país durante o processo eleitoral deste ano. Foram 55 tentativas de homicídio e 33 assassinatos, em 20 estados. Desde 2019, a Unirio já registrou 2.673 episódios de violência política em todo o país.

Estes dados são importantes, mas é preciso acrescentar à pesquisa um filtro de classe. Não é a mesma coisa a violência dos tiroteios entre grupos políticos da burguesia em luta pelo poder, e a violência que atinge lideranças políticas do povo trabalhador e oprimido, cujo exemplo mais emblemático nos últimos anos é o assassinato de Marielle Franco, vereadora do PSOL, e do motorista Anderson Silva, em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro.

A violência política contra lideranças proletárias, populares e do campo, a criminalização de ativistas por participarem de greves, ocupações e manifestações vem crescendo no país e no mundo. No Brasil, o exemplo maior é o morticínio de lideranças indígenas. O Relatório da Violência contra os Povos Indígenas, de 2023, divulgado pelo CIMI (Conselho Indigenista Missionário), aponta 411 registros de violência, sendo 208 assassinatos, na maioria praticados por jagunços pagos por fazendeiros do agronegócio, mineradoras, madeireiras e garimpeiros. Esta realidade é escondida pela grande imprensa burguesa e filtrada/censurada pelos algoritmos do Facebook e Instagram.

Na Argentina, para citar um exemplo, o presidente Milei decretou o Protocolo Antipiquetes, para impedir qualquer tipo de manifestações de rua e piquetes grevistas. As manifestações em defesa do povo palestino estão sendo criminalizadas e as/os ativistas da causa palestina estão sendo presos e processados na Europa, Estados Unidos e outros países. No Brasil, esta criminalização atinge o GOI e outras organizações e ativistas, como o Comitê Mineiro em Defesa da Palestina, o PCO e o jornalista Breno Altman, do PT.

Porém, a “violência” que atingiu o prefeito de Taboão da Serra tem outro caráter de classe: tudo indica que se trata de uma disputa pelo poder entre grupos burgueses rivais pelo controle do poder político e as benesses da manipulação do Orçamento e dos Serviços Públicos (principalmente através dos contratos de concessão e terceirização).

Todavia, é preciso considerar o tiroteio em Taboão não apenas como expressão da tragédia da democracia burguesa, mas também como farsa.

A política burguesa sempre foi marcada por cenas de novela. Os mais velhos se lembrarão do famoso personagem Odorico Paraguaçu (interpretado pelo ator Paulo Gracindo na novela O bem amado, da Globo), uma sátira às artimanhas dos velhos coronéis da política. Nos dias de hoje, o ilusionismo eleitoral tem status de grande marketing,  a cargo dos “marqueteiros”, com roteiros e cenários de cinema. Candidatos e candidatas fazem cenas de novela nas propagandas e debates eleitorais, nas lives, reels e stories do Instagram, Tik Tok  e Facebook, com o objetivo de entreter os eleitores, desviando sua atenção dos verdadeiros responsáveis e das causas e soluções para os graves problemas sociais. Se houvesse um “Oscar” do marketing eleitoral, as eleições na cidade de São Paulo teriam concorrentes poderosos: o farsante Pablo Marçal, a cadeirada do Datena e as novelinhas açucaradas de Guilherme Boulos. Mas, há também roteiros de maior adrenalina, tipo “Velozes e Furiosos”, que incluem até a simulação de tiroteios e atentados, mesmo com o alto risco de os atores terem de fazer cenas perigosas sem a ajuda de dublês.

Em relação ao tiro no prefeito, o povo é apenas um mero espectador, sem nenhuma informação fidedigna dos fatos ocorridos, na medida em que a imprensa dominante não tem nenhuma independência e serve apenas de porta voz das versões oficiais apresentadas pelos governos, pela polícia e a justiça.

Há de se perguntar por que as cúpulas das forças policiais militares e militarizadas (Polícia Militar e Guarda Civil Municipal), tão “eficientes” para reprimir a juventude pobre e preta nos bairros populares, foi incapaz de defender o prefeito. Na semana anterior ao suposto atentando, o jovem trabalhador preto Robert de Oliveira Jesus, de 25 anos, foi covardemente assassinado por policiais da GCM, durante um enquadro. Outro jovem que estava com ele encontra-se hospitalizado. Amigos e familiares protestaram colocando fogo em ônibus. Esta é a verdadeira tragédia cotidiana vivida pelo povo explorado e oprimido.

O tiro no prefeito corre o risco de entrar para a lista de outros supostos atentados a homens poderosos que nunca foram esclarecidos, a exemplo da facada em Bolsonaro e do tiro em Donald Trump.

A esquerda domesticada (PT, PCdoB, direção do PSOL) não perdeu tempo em se derreter em lágrimas de solidariedade ao prefeito e sair em defesa da “democracia” ameaçada. Dirigentes que até hoje se calaram sobre o genocídio feito por Israel contra o povo palestino e libanês e outras violências praticadas contra o povo trabalhador e oprimido.

O prefeito e candidato Aprígio é o maior investidor imobiliário do município, e como grande burguês está recebendo o melhor atendimento médico do país, no Hospital Israelita Albert Einstein. As trabalhadoras e trabalhadores vítimas da violência policial e patronal não têm tido a mesma sorte.

O GOI/Palavra Operária conclama à classe trabalhadora, ao povo e à juventude oprimida a não se deixarem enganar pela tragédia ou farsa eleitoral montada pela burguesia. Nenhum dos grupos que disputam o 2° turno em Taboão merecem nossa confiança e nosso voto. São candidatos da burguesia e dos ricos.

Nem Aprígio, nem Daniel. Vote Nulo.

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